quinta-feira, 17 de abril de 2008

Da Visão: Uma nomeação natural

Coelho na Mota Engil, Vara no BCP, Pina Moura na Media Capital, Ferreira do Amaral na Lusoponte, Dias Loureiro na Sociedade Lusa de Negócios, são apenas a ponta de um icebergue que, volta e meia, agita as águas insalubres da política portuguesa. Antes que a inevitável paz podre regresse, vale a pena dedicar ainda duas linhas ao tema. Até porque o verdadeiro problema é mais vasto, mais profundo e infinitamente mais perigoso. O icebergue tem nome. E o nome é o insuportável peso do Estado na economia.
Desenganem-se os mais ingénuos e poupem-se os frenéticos legisladores do costume. A coisa não vai lá com leis hipócritas sobre incompatibilidades. Nem sequer com a institucionalização dos lóbis. A menos que a ideia seja simplesmente a de acalmar a nossa consciência colectiva deixando o essencial do problema rigorosamente intocado, o remédio tem de ser outro. É que esta (só aparentemente) estranha atracção que muitas das nossas grandes empresas privadas cada vez mais revelam sentir por políticos sem experiência de gestão é o corolário lógico de um fenómeno que há muitos anos vem minando a nossa economia e, mais grave, desacreditando a nossa democracia. A perniciosa influência e a importância destes «novos gestores» são proporcionais ao peso que o Estado ocupa na economia. É porque o Estado chega, directa ou indirectamente, a todo o lado, da televisão às auto-estradas, da banca aos transportes, das comunicações ao jogo, que a posição destes senhores conta. É porque o Estado, ou melhor dizendo, é porque este bloco central de interesses nomeia gestores públicos e privados (vide o caso do BCP), porque legisla sobre tudo e mais alguma coisa, porque interfere em todas as grandes decisões económicas, porque tudo taxa, porque tudo e todos controla (por vezes com pidesco afinco como no caso das muitas ASAEs e ERCs que por aí pululam), que estes senhores ocupam os lugares que ocupam. É de resto este o mesmíssimo fenómeno que explica o cancro do financiamento partidário e, por via deste, boa parte da corrupção instalada.
Chamemos os bois pelos nomes. Os accionistas da Mota Engil, do BCP, da Media Capital ou da Lusoponte não decidiram juntar-se para filantropicamente montar uma espécie de «Casa do Artista» para políticos na reforma. Muito pelo contrário, continuam a tomar decisões com base em critérios de pura racionalidade económica. E se escolhem os gestores que escolhem é porque conhecem muito bem o poder que estes têm na economia e na sociedade portuguesas. Para mal dos nossos pecados, não é o poder dos mais competentes, dos mais visionários ou dos mais trabalhadores. É o poder das decisões de corredor, dos telemóveis dos governantes, dos favores prestados e por retribuir. Que é o poder que verdadeiramente interessa num país em que todos os caminhos vão dar ao Estado.
Bem vistas as coisas, a nomeação de Jorge Coelho é assombrosamente natural. Os accionistas da Mota Engil são competentes, racionais e inteligentes. E sabem ler muito bem os sinais do mercado. E o que o «mercado» paradoxalmente lhes diz é que precisam de um «especialista em Estado». Pois que não restem dúvidas: contrataram o melhor profissional que o «mercado» tem para lhes oferecer.

7 comentários:

Pedro Lains disse...

Era bom que fosse "só" esse o problema. Vide Estados Unidos.
Abraço,
P

Anónimo disse...

Que sugestões concretas teria o Pedro Norton para que o Estado deixasse de influenciar tanto a economia?

Eu diria que o Pedro Lains tem razão: o fenómeno da "revolving door" existe em todos os países modernos, incluindo, em grande escala, nos EUA, nos quais, supostamente, o Estado influencia bastante menos a economia do que cá.

A Mota Engil é uma grande empresa de construção civil que executa grandes obras públicas, do tipo auto-estradas, aeroportos, portos, caminhos-de-ferro, etc. Ora, todas essas infraestruturas são e têm que ser fortemente reguladas pelo Estado. Nenhuma empresa privada pode ou deseja, hoje em dia, construir, por exemplo, uma auto-estrada sem ter, de uma forma ou de outra, a proteção do Estado. Porque se trata de setores em que os investimentos são maciços, expropriações gigantescas necessárias, e a garantia de um monopólio imprescindível.

Veja-se o caso da ponte Vasco da Gama, por exemplo. Ela foi paga em parte por dinheiros privados. Mas jamais um consórcio privado a teria construído como quem abre uma mercearia na esquina, isto é, sem a proteção e o incentivo e a garantia do negócio por parte do Estado.

Logo, eu creio que o diagnóstico feito neste post do Pedro Norton está correto. Infelizmente, no entanto, creio não haver cura para a doença.

Luís Lavoura

Gonçalo Pistacchini Moita disse...

Bom post (embora também tenha gostado muito do anterior). Acrescentaria apenas que centrar o problema no excessivo peso do Estado na economia, sendo verdade,não identifica o problema em toda a sua extensão. Porque, também é verdade falarmos do excessivo peso da economia no Estado. Do meu ponto de vista, é esta associação inconsciente e anti-democrática entre a economia e a política a causa de muitos dos grandes males do Ocidente. Mas gostei muito de ler.

sofia rocha disse...

Todos os caminhos vão dar ao Estoril open.O país é tão pequeno tão pequeno, que um evento como o estoril open - corredor central, court 1 e 2 e centralito para a direita, court 3 e 4 para a esquerda, campo central ao fundo - consegue lá pôr toda a gente: de empresários, a políticos, passando por vedetas da tv, jogadores de futebol,todos de telemóvel em punho, claro está! Apenas nunm dia,vi grande parte das pessoas que são citadas no post do Pedro Norton e fiquei com a sensação de que a escala em portugal é minúscula. Uma palavra em defesa dos legisladores. Ás vezes também trabalham bem, como quando por exemplo, legislaram que o Presidente da Autoridade da Concorrência, agora substituído, estivesse um período sem exercer outras funções -período de nojo- durante o qual recebe o salário pago pelo erário público ( os custos das regras). Parabéns pelo post, não é frequente em Portugal chamarem-se as coisas pelos nomes e assinar em nome próprio.

Manuel Rocha disse...

Portugal, os Estados Unidos, as Instituições Internacionais que lidam com dinheiro, e a lista nunca mais acaba...

O tempo é de ditadura da economia e a economia é capitalista, qual é a surpresa ? Claro que há quem, como o Gonçalo, acredite que o capitalismo pode ser "moralizado". Talvez possa. Estranho é que em dois séculos de vida ( contas redondas, claro...) ainda ninguém tenha percebido como. Porque quando alguém sugere algo o sistema logo o incorpora na sua lógica. Tem sido assim com as religiões, foi assim com o comunismo, e agora temos aí o novo exemplo das "novas oportunidades globais" promovidas pela globalização das preocupações com o ambiente. Olhem em redor e digam se se vê alguma empresa que ainda não esteja repintada de verde.

A ordem natural das coisas no nosso tempo divide o mundo entre os que são ricos, e os que ainda não são mas querem sé-lo. Há uns que dão mais nas vistas, mas ainda assim estão longe de serem representativos da amostra, que é bem mais vasta.

Bom post!

:))

Gonçalo Pistacchini Moita disse...

Meu caro Manuel Rocha

Nuca pretendi nem acreditei em moralizar o capitalismo, com ou sem aspas. Acredito e pretendo, isso sim, em moralizar o mundo, como em resposta ao seu comentário no meu post mais desenvolvidamente respondi. E desculpar-me-á, mas pretender que o mundo, globalmente considerado, se pode identificar com o capitalismo, é um discurso que faz parte da ditadura que tão bem quer criticar.

Um abraço.

Manuel Rocha disse...

Gonçalo,

Excelente a sua "provocação" :)

Prometo que não o deixo sem resposta, mas não agora que não há tempo e o tema não se presta a improvisos ( até porque se calahr para contra argumentar tenho de discordar de mim mesmo...:))

Abraço.