segunda-feira, 3 de outubro de 2022

Grothendieck La Clef des Songes ou Dialogue avec le Bon Dieu I

 

 

Na comunidade científica francesa, quando se fala de Grothendieck, há sempre um lugar comum: ele teria sentido uma atracção pela meditação budista em certa altura da sua vida. Em conferências, ninguém se refere à sua relação com o cristianismo, sendo certo que é filho de um judeu, e de uma cristã, e tendo vivido anos da sua infância junto de uma família fervorosamente cristã. Esta ligação entre meditação e budismo é infelizmente o resultado de uma crassa ignorância. A separação entre humanidades e ciências tem custos para ambas as partes. Que a ideia de meditação da morte, por exemplo, se encontre em Anaxágoras e Séneca, e que haja meditação cristã, na mística oriental e ortodoxa, é algo que escapa à apreciação destes comentadores.

Para que não haja análises apressadas da questão, é preciso dividir o tema em varias partes:

a)      Vou reduzir a análise à CDS (GROTHENDIECK, Alexandre, La Clef des Songes ou Dialogue avec le Bon Dieu, s.ed., s.l., s.d.).

b)      Tentarei ver quantas referências há a Cristo e cristianismo, Buda e budismo, judeus e judaísmo, Maomé e islão.

c)      De seguida tentarei ver quais os conteúdos, o que diz sobre cada um destes temas.

d)      A comparação entre Freud e Jung pode também permitir alguns resultados.

e)      A análise das obras de alguns autores cristãos (ou clássicos) como os de Mestre Erckhart pode dar também alguns indícios.

f)       E, falando nós de religião, analisarei a sua obra numa perspectiva teológica.

Já sabemos que nunca há análises completas. Mas sempre é melhor que as haja com algum cuidado que apressadas.

 

Redução à CDS

Reduzir a análise à CDS tem uma razão muito prática. Não é a minha função estudar toda a obra de Grothendieck. Cabe a outros fazê-lo. Escolhi aquela que será a última ou das últimas obras de Grothendieck, e que poderá dar algumas luzes sobre o problema. Tenho de salientar desde já que qualquer análise e citação desta obra levanta um problema de edição. Não está editada, tem gralhas, e por isso qualquer análise e citação do texto é em parte a sua edição. Deixo os puristas ficarem chocados com este trabalho. Saliento que os sublinhados são meus e não do Autor.

Quando se refere a CDS, todos se esquecem de referir o título completo, que tem a expressão «Dialogue avec le Bon Dieu”. A expressão é cristã, melhor, católica, e muito latina. Antes de analisarmos o conteúdo da obra não podemos excluir que haja intentos irónicos. Mas o tema está evidente. É um tema religioso. E em conceitos católicos.

 

Referências a religiões

 

 

Nº de vezes que aparece

Percentagens

Jésus

235

37,01%

Christ (sem Jésus)

46

7,24%

Christianisme

22

3,46%

Chrétien

169

26,61%

Total Cristianismo

472

74,33%

Moïse

0

0,00%

Judaïsme

0

0,00%

Abraham

0

0,00%

Juif

17

2,68%

Juive

9

1,42%

Hébreu

0

0,00%

Judaïque

4

0,63%

Total Judaísmo

30

4,72%

Bouddha

95

14,96%

Bouddhisme

31

4,88%

Bodhisattva

2

0,31%

Total Budismo

128

20,16%

Mahomet

0

0,00%

Islam

3

0,47%

Islamique

0

0,00%

Musulman

2

0,31%

Total islão

5

0,79%

Total religiões supra

635

100,00%

 

Pode-se dizer que esta escolha de palavras é arbitrária. Que deveria procurar também «samsara» ou «karma» ou «dharma» que são também conceitos budistas. A problema é que estes conceitos de origem são hindus. Como distinguir o uso hindu do budista de forma cursiva? Da mesma maneira teria de procurar «pessoa», «substância» ou «amor» que são conceitos cristãos e nunca um budista usaria senão para demonstrar a sua falta de pertinência. Para colocar «bonzo» teria de procurar também «padre», «bispo». E quando surgisse «monge» ou «mestre» teria de distinguir o monge cristão do budista e o católico Mestre Erckhart teria de ser distinguido do mestre «zen». «Christ (sem Jésus)» dá 72-22-4=46. Das 72 vezes em que aparece «Christ», retirei «Jesus le Christ» (2 vezes,) Jésus-Christ (2 vezes) e as 22 vezes em que aparece «christianisme». Abraham aparece apenas na «Lettre à Karl Abraham» na p. N534.

Alguns resultados são curiosos. Um autor que morre em 2014, com uma França já largamente islamizada, em que os jornalistas (mesmo que se arroguem outros títulos) referem a fundamental importância do islão para cultura europeia e francesa, dá uma importância ao islão que corresponde apenas a menos de 1% da sua atenção. Quem procura ideias pela sua qualidade e não está fascinado com o poder puro e simples, afinal não dá importância nenhuma ao islão. Um autor filho de pai judeu, embora descrente, dá ao judaísmo um papel inferior a 5% da sua atenção. Um homem tão fascinado pelo budismo, dá afinal um papel 3,7 vezes inferior na sua atenção ao budismo que o que dá ao cristianismo. Quase três quartos das suas referências são feitas ao cristianismo.

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terça-feira, 16 de agosto de 2022

Onde está a nobreza?

 


 

 

Desapareceu, parece. É ridículo invocá-la, parece. Já não existe, as antecâmaras estão certas disso.

Mas o que diz a criadagem nas proximidades dos salões só se ouve porque estão próximos deles. E estão-lhes próximos, não porque deles tenha senhorio, mas porque está lá para servir. Todas as certezas da criadagem são assim sempre de segunda mão, que nem sempre é a mais hábil.

Desapareceu a nobreza? Não. A nossa época admite-a, exige-a mesmo. Mas no estranho e no colectivo.

Que o herói asiático ou africano tenha sangue nobre salienta-se muitas vezes, tantas quanto seria ridículo referir se fosse europeu. Mandela tem sangue real, aqueloutro na Índia tem sangue brâmane. O político que na Europa se ri da nobreza baixa os olhos perante o nobre hindu, porque se sabe de baixa casta.

No colectivo é essencial. Os povos são nobres, têm uma história antiga, os seus feitos maravilhosos. Falássemos de um indivíduo seria snob, presunção, ridículo. Mas todos os dias ouvimos elogios à nobreza dos costumes, da postura, das atitudes de povos.

Se bem virmos o teste é sempre o mesmo. Domina o pequeno burguês e impõe ao mundo a sua ideologia. A nobreza é sempre a dos outros, e nisso tem razão porque é dela desprovido. A nobreza não é de uma pessoa individual, porque sabe que como indivíduo não a tem.

O pequeno burguês põe a nobreza onde a vê: longe de si, no que é justiça. Onde erra é quando olha à sua volta e só vê pequenos burgueses caso sejam europeus. O que tem de comum o seu erro e o seu acerto é apelar à abertura, a sua e a dos outros pequenos burgueses, o que bem precisa. Nasceu fechado sobre si mesmo, sem nobreza, e não acredita que uma pessoa só, como ele a possa ter. O que mais uma vez é no que tem razão que justamente o faz triste. Tem toda a razão para achar que vive num mundo absurdo. É o da sua visão.

 

Alexandre Brandão da Veiga

 

 

 

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quinta-feira, 10 de março de 2022

Dois erros sobre Nietzsche II

 

Nietzsche não é anticristão. A população gosta de o ver como tal, mas apenas porque isso lhe dá uma sensação de aventura, uma aventura que julga não perigosa, com cintos de segurança, das que são da predilecção da época.

O principal problema de Nietzsche é o Cristo. Ora os seus seguidores pretendem que Cristo deixou de ser problema. Como muitas vezes acontece, são os seguidores os maiores traidores.

Que entendo por isto? O tema da morte de Deus é tema cristão por excelência. Desde os Padres da Igreja que é expressão trivial. O paradoxo, um dos maiores paradoxos do cristianismo, é precisamente o da morte de Deus. Os chineses, quando contactam nos séculos XVI e XVII com o cristianismo, é exactamente essa objecção que fazem. O Mestre do Céu esteve durante trinta e três anos ausente, deixou de governar o mundo e depois morreu? No século VI na Arábia, antes do islão, missionários etíopes vêem ser-lhes atirado à cara o mesmo argumento, e Santo Agostinho fala de «Deus crucifixus».

A morte de Deus para Nietzsche não é uma mera verificação, uma certidão de óbito, uma peça burocrática. No «Zaratustra» o que é dito? «Matámos Deus! O que vamos fazer agora?» As frases são significativas. Cito de memória, mas revelam tudo o contrário do que a população julga. Em primeiro lugar não se trata de um evento exterior. Foi acto nosso. Matámos nós. Fomos nós a matar. De seguida há uma pergunta: que vamos fazer? É um problema. É o problema mais decisivo que existe. E é um problema nosso.

Nietzsche no fim da sua vida assinava como Dionísio ou o crucificado. O centro do pensamento de Nietzsche é precisamente o de se confrontar com Jesus. Jesus é o principal problema de Nietzsche, não uma peça sobressalente que se deixou para trás porque inútil. Nesse sentido é um pensador eminentemente cristão, como aliás era natural com a sua formação. Tentou ser o verdadeiro Israel, o que lutou com Deus. E perdeu.

 

Os dois problemas estão ligados, e em muitos mais níveis que os que possa agora desenvolver. Mas podemos ver os seus traços principais.

Nietzsche falava dele mesmo e não era pensador anticristão. Qual o centro da sua acusação? Muito simplesmente, o do «nulla salus sine Ecclesia». Não há salvação fora da Igreja. Nietzsche quis experimentar outra via. Criou o super-homem como substituto do Homem-Deus, bebeu dos profetas pagãos, seja os gregos seja um profeta de que pouco se sabe, Zaratustra, que foi desde sempre uma alternativa mítica ao cristianismo para os cristãos. E significativamente já tinha sido uma desilusão para os homens das Luzes e imagem de farsa em Mozart.

Quis demonstrar que era possível salvação fora da Igreja, mesmo que fosse uma salvação trágica, uma dissolução, um apagamento. E falhou. O fim da sua vida mostra que a experiência falhou. E é esse fracasso em grande medida que fascina os seus seguidores. O seu fracasso torna-o uma figura crística, que tanto fascina os que se dizem fora do cristianismo.

O seu projecto é a demonstração do seu fracasso, mas a população tem dificuldade em o ver.

Nietzsche seguiu um percurso nada original em si mesmo. Seguiu o percurso que se segue na Europa desde o advento do cristianismo. A forma de saída do cristianismo não é algo alem do cristianismo, mas sempre algo aquém do mesmo. Foi à cultura grega, imaginou ir ao mazdeísmo.

Ora este percurso é sempre e sempre o mesmo na História da Europa. Seja Celso, que ataca os cristãos, seja Porfírio, seja Juliano, o Apóstata, ou o pagão Damáscio, que segundo alguns é nada mais nada menos que o autor do Pseudo-Dionísio o Areopagita, o percurso foi sempre o mesmo. Retornar ao paganismo. Sim, mas que retorno é este, que é todo o retorno? O retorno nunca é nascer virgem, implica sempre trazer consigo o seu ponto de origem. Estes retornos ao passado foram sempre marcados pelo cristianismo. Ou a imitação da Igreja cristã, com Juliano, ou da doutrina, se for verdade a tese sobre Damáscio.

Mais que o pensamento de Nietzsche, o significativo na nossa época é o seu sucesso, e o seu sucesso por ser lido de certa maneira. Ora Nietzsche é lido como oráculo grego e anticristão. Que está por detrás disto? O que diz o sucesso de Nietzsche sobre a nossa época?

Que em boa verdade é simplista, tanto mais quanto supostamente invoca a imensa complexidade de cada átomo a que se refere. A ideia que está por detrás desta leitura de Nietzsche é que antes eramos todos cristãos e agora deixámos todos de o ser, porque em boa verdade mesmo os que têm fé fazem-no apenas por teimosia, sinceramente, concede-se, mas com muitas dúvidas.

Esta visão simplista do antes e do depois dá sucesso a Nietzsche, um sucesso errado, tão errado quanto o que teve na filologia, onde foi pouco original. Simplista e mentirosa. Em todas as épocas históricas houve dúvidas, em todas ser cristão foi sempre participar de uma vibração, nunca foi estar pura e simplesmente instalado. Os sinais que temos disso são por vezes fracos, mas isso não significa que a força de fundo seja fraca. No tempo de Gerbert d’Aurillac, o futuro papa Silvestre II, havia em Ravena um erudito que ensinava que os poetas antigos diziam a verdade e não os Evangelhos, uns anos depois São Pedro Damião agastava-se com os exageros dialécticos dos monges de Montecassino e em algumas cidades. No século XV Plethon irrompe na cultura europeia, dando impulso a uma forte presença de neopaganismo. Mas já séculos antes se praticava nos mosteiros e nas catedrais poesia erótica de inspiração antiga, mas de libido fresca.

Nietzsche não fala dos gregos, mas dele mesmo. Não é anticristão, mas mais um entre os muitos cristãos que tentaram o experimento de sair do cristianismo e pela mesma via que outros. Nietzsche é grande não pelo que disse sobre os outros, mas sobre si mesmo, grande como testemunho. Como certos médicos que experimentam consigo os medicamentos que inventaram, Nietzsche vale pelo experimento sobre si mesmo, pelo testemunho que dele deixou. E pelo seu fracasso.

Nisto vale portanto como prova que a modernidade apenas mente sobre si mesma. Idolatra Nietzsche como modelo, como doutrina. Mas é a mesma modernidade que tanto insiste que o pensador não pode ser sindicado pela sua vida - criação escolástica, o que esquece - que usa como modelo quem não separou a sua teoria da sua vida e se fez exemplo e experimento. A mesma modernidade que diz que já superou o cristianismo, que usa como modelo quem foi o atleta de Cristo alternativo por excelência. A mesma modernidade que invoca os deuses do complexo segue Nietzsche como modelo porque afinal só vê o passado de forma simplista. A mesma modernidade que segue Nietzsche porque não cristão, mas em boa verdade segue-o porque isso lhe permite viver os temas cristãos sem ter de o confessar. O que assusta a modernidade não é o facto, mas a confissão, por isso evacua.

Não, Nietzsche não falou dos gregos nem de Wagner: falou de si. Não, Nietzsche não é anticristão mas um pensador eminentemente cristão. Como todos nós: filhos de pagãos.

 

 

 

Alexandre Brandão da Veiga

 

 

 

 

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terça-feira, 8 de março de 2022

Dois erros sobre Nietzsche I

 


 

Entre a população imperam acima de tudo dois erros sobre o pensamento de Nietzsche. São simples de enunciar:

a)     Nietzsche fala dos gregos;

b)    Nietzsche é anticristão.

Estão mais intimamente ligados do que parece. Por isso, carecem de análise comum.

Nietzsche não fala dos gregos. É evidente que nas proposições que ele enuncia, nos temas que apresenta, os gregos estão permanentemente presentes. Quando Nietzsche passa a ter prestígio como grande filósofo, até os filólogos helenistas começaram a citar a sua obra, a usar as suas categorias, a salientar a importância das suas análises, para a compreensão da Grécia.

Mas Nietzsche não fala dos gregos. O grande equívoco passa-se ainda durante a sua vida. Quando von Wilamowitz-Moellendorf, o que virá a ser chamado de príncipe dos filólogos, lê a sua «Origem da Tragédia», fica de tal forma horrorizado que faz uma diatribe contra a obra de Nietzsche. Este não tinha percebido nada sobre a origem da tragédia. Faz entretanto um pequeno livro sobre o que é a tragédia ática. O adjectivo «ática» não é inocente, querendo salientar que a tragédia é feita nesta parte da Grécia, não é um fenómeno grego geral na sua origem.

Passados uns anos, quando Nietzsche já estava morto e já tem grande prestígio, von Wilamowitz repensa a questão e redime Nietzsche. Diz: realmente, as críticas que fiz foram injustas, Nietzsche não está a falar dos gregos, mas de Wagner. E teve a arte de, homem inteligente e culto que era, de falhar no alvo. Mais uma vez.

Nietzsche não fala dos gregos. E não fala de Wagner. Nietzsche fala dele mesmo. É esse o seu génio e a sua originalidade.

Se bem virmos, o que é vista como a grande originalidade de Nietzsche está bem longe de o ser. Este apenas traz para o público em geral o que já era movimento comum na erudição clássica, desde pelo menos a Renascença, para muitos filólogos, tanto os primitivistas ingleses do século XVII, como no fim do século XVIII e início do XIX com Wolf e Humboldt. O lugar comum era simples: o apogeu da cultura grega está na sua poesia primitiva, é em Homero, Hesíodo, ou Píndaro na melhor das hipóteses, que está o seu auge. A filosofia, a via discursiva, é já um sinal de decadência, de amaneiramento.

Esta a teoria que eventualmente prevaleceria na escola de Pforta, em que Nietzsche estudou. Nenhuma originalidade. Admirar Nietzsche pelo que ele tem de escolar é um paradoxo não pequeno da nossa época. Ou talvez não tão grande assim, porque a nossa época gosta de escolásticas, desde que não se apresentem como tal. Das encobertas, das clandestinas. Porque a nossa época é escolástica, mas não gosta de dizer o seu nome.

A grande originalidade de Nietzsche é ser uma espécie de ritual do Graal, do ciclo do rei Artur. Talvez por isso ele detestasse o «Parsifal» de Wagner, porque o punha nu. O grande ciclo que põe a nu as várias camadas de que somos feitos nós os europeus.

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quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

Le style tricoteuse

 

Voilà que la France aime nous surprendre. Elle crée. Elle croit créer au moins et on peut faire semblant de le croire. Feindre c’est une seconde nature avec des gens qui se croient créateurs et ne sont que des créatures.

Le sapin de Noel est interdit par les écologistes à Bordeaux et dans le douzième arrondissement de Paris «Préserver l’esprit de Noël» ou «s’adapter à l’urgence climatique» : à Paris, la guerre des sapins est déclarée - Le Parisien Voici pourquoi la mairie de Bordeaux ne veut pas planter de sapin à la place de "l'arbre mort" | Actu Bordeaux. Le nouveau sapin de Noel c’est du verre et du fer (Bordeaux : les réactions des internautes devant le nouveau sapin de Noël (sudouest.fr)). Des vrais matériaux de guerre. Hitler aurait aimé. Il aurait aimé le matériaux et l’envi de purification.

Ailleurs de Noel est interdit. Désintox. Non « joyeux Noël » n'a pas été remplacé par « Fantastique décembre » à Besançon (francetvinfo.fr) ou non. Le vrai c’est qu’on parle de «Fantastique décembre» ce qui fait penser que pour ces gens-là les autres mois sont grisâtres. Pourquoi décembre est-il fantastique? On l’omet. Pourquoi on veut l’omettre ? On le sait. Ce n’est qu’une expérience. On l’étendra peu à peu. On veut en premier place habituer les gens à le voir disparaître : peu à peu.

On le sait. On le fait peu à peu. On teste la population. On l’habitue. Mais surtout on montre ce qu’on est. Voilà que les Français découvrent ce qu’est le fond de la pensée écologiste. Elle n’a rien à voir avec la nature. Le très catholique conte de Montalembert a plus protégé la nature que les ancêtres des verts. La nature n’est qu’un prétexte.

Notre Dame du Pif dépense une fortune en produits de beauté créés par la société capitaliste. Et elle dit que la société capitaliste ne fonctionne pas. Elle a raison. On la voit, on voit ses produits de beauté, et ils ne fonctionnent pas. Elle ne voit pas les violences d’extrême gauche. Et pourtant elle porte des lunettes. Pourquoi ? Pour souligner le Pif. Elle n’aime pas la vérité, mais elle aime souligner les évidences. Ce n’est pas le roc du poète, parce que rien chez elle est poétique. Cyrano ne la chanterait point. Il la piafferait.

Monsieur Chiot est contre la chasse. Mais la chasse contre les chiots. Chasser des jeunes femmes ou des fœtus c’est tout une autre histoire. Là Monsieur Chiot sait qu’il est sur le terrain de la liberté. De sa liberté. Sa très chère liberté. Et on doit bien réfléchir. Monsieur Chiot n’aurait pas de prétendantes si elles étaient libres. Voyons Monsieur Chiot. Il n’est pas irrésistible. Il faut les forcer un peu. Au nom de la liberté. Celle de Monsieur Chiot. Si les Français aiment les Chiots, tant mieux pour les Chiots. Il pleure parce que qu’il a de la sensibilité. Sa sensibilité. Comme sa liberté, ce sont des choses importantes. Celles des autres… Existent-elles ?

On le sait. C’est de royaume du petit bourgeois. Il hait le prolétaire. Il s’est montré en Barthes et Foucault. Barthes avait fait la découverte géniale de la violence chez Racine, au-dessous du lisse du texte. Si Barthes était aristocrate ce serait pour lui une banalité. Mais comme il était petit bourgeois, il a révélé aux petits bourgeois ce qu’on savait dès toujours. Tout devient ontologique chez le petit bourgeois, parce qu’il n’a pas d’essence. Il hait qui en a. Il commence par «déconstruire» («Destruktion» c’est le mot original allemand, un peu nazi), mais pour dire que tout est naît de l’essence. On ne fuit pas à son essence : on naît oppresseur ou opprimé. On se dit contre les essences pour imposer les siennes. Le petit bourgeois vit dans le désespoir : il sait qu’il ne vaut rien, et il veut que personne ne vaut quoi que ce soit. Il est contre ce qui existe, parce que ce qui existe l’insulte. Et c’est vrai. La vérité dit qu’il est répugnant. Le monde où il gouverne est le monde de la nausée. Sartre dixit.

Ce sont des gens fascinants, ceux qui pullulent sur l’espace publique. Leurs ancêtres sont les tricoteuses. Ils veulent voir comme spectacle la chute d’une civilisation, tandis qu’ils font ce que leurs savoirs traditionnelles leur permettant de faire: du tricot. Le monde a admiré na France. Elle devient la risée du monde. Ce qu’ils montrent c’est le plus absolu manque de goût. Prétentieux, parvenus du recyclage, imitateurs et serviteurs des Américains. Si les Français veulent qu’on leur donne de l’importance ce serait mieux de voir le dommage que ces gens font à son image. Ou bien continuer à être gouvernés par des Pifs, des Chiots et des faux sapins de Noël.

J’aime vous admirer, vous les Français. C’est mon défaut.  Mais, si vous vous couvrez de ridicule et pas de gloire, c’est le vôtre.

 

Alexandre Brandão da Veiga

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sexta-feira, 5 de novembro de 2021

A responsabilidade histórica

 

É o que vemos nas tabernas e na televisão. Falam-nos de responsabilidade histórica. A Europa tem responsabilidade histórica, coisa que mais ninguém tem. Invocação de privilégio aristocrático único, quem o invoca deve ser visto com particular admiração, ou suspeita. Porque julgas ter o que mais ninguém tem? O que te leva a sentir tão especial?

O problema é que a responsabilidade histórica… não é um conceito histórico. O adjectivo «histórica» está plantado como uma peruca torta numa cabeça mirrada que não a sustenta, como uma coroa feita para mais imperial cabeça. Não é tarefa histórica atribuir responsabilidades. Essa é tarefa de advogados, juízes, executores. Porque se precisa de usar o adjectivo «histórica» para fazer algo que a História não pode fazer?

Este conceito levanta mais um outro problema. É que quem fala da responsabilidade histórica dos seus antepassados mostra não conhecer bem os seus costados. Talvez não tenha sido claro para todos, mas os arranques industriais são feitos explorando em primeiro lugar os próprios provos, e só depois outros. Talvez tenha ficado algo esquecido, mas havia um proletariado inglês, alemão, francês, belga. Que significa isso? Que os primeiros explorados pela expansão capitalista são os próprios povos. Foi o que fez a Europa ao longo do século XIX, foi o que fez a China desde o fim do século XX.

A maioria das pessoas descende, não dos dominantes, mas dos dominados. Por isso, se alguém diz que tem responsabilidade históricas porque os seus antepassados exploraram outros, terá de verificar bem se não estará a violar não apenas a estatística, mas igualmente a sua história familiar. O mais provável é que seja descendente da criadagem, de proletariado, tão explorados quanto o nativo nas colónias. Posso por isso anunciar uma boa nova: não têm responsabilidade histórica. Os seus antepassados foram tão explorados quanto o indígena, são descendentes de explorados, tal como o colonizado.

A sensação desagradável que julgavam sentir pelos privilégios que tiveram os seus antepassados é apenas fruto de alguma presunção. Olhem-se ao espelho. Descendem de degradados, é de baixo coturno, tem finalmente motivo para se alegar pelo facto. Não têm responsabilidades históricas.

Resta portanto saber quem tem responsabilidade histórica. Mas é evidente: os descendentes dos dominantes. E quem são estes? A nobreza, é evidente. São os nobres quem descende de uma mais longa linhagem de exploradores, esses sim têm responsabilidades históricas.

Mas também aqui nos deparamos com um problema. É que desde há cerca de quarenta anos me dizem que não existo. Que não há nobres. E ficamos todos felizes. Os únicos com vocação para serem culpados são considerados inexistentes pela mesma ideologia que procura culpados a todo o transe.

As responsabilidades históricas são assim um conceito espúrio que apenas pode nascer em mentes muito fracas: são privilégio de europeus, e não de mais nenhum povo que teve impérios.  Os turcos e árabes podem ter impérios, mas não têm responsabilidades históricas. Pena que só atinge uma raça, estranha doença. Provoca sintomas ginecológicos em homens, até estes descobrirem que lhes é impossível apanhar a doença.

São descendentes de explorados, e ainda não perceberam que se podem reivindicar vítimas. E os únicos, os restantes, únicos culpados, de tal maleita não existem. Exclusividade, intensidade, reflectividade e inexistência. Cheira quase a criação de uma estrutura algébrica. Mas por quem não sabe fazer contas. Pode, por isso, o leitor alegrar-se sempre que vir alguém invocar responsabilidades históricas. Significa apenas que tem semblante não decorativo, e interior não funcional.

Façamos uma síntese. Quem fala de responsabilidades históricas:

1)   1) É confuso: confunde História com contabilidade e direito;

2)   2)  É racista: considera que a responsabilidade não vem do que se pratica, mas de uma raça, tem um pensamento racista (se forem outras culturas a fazer os mesmos que os europeus já acha que não têm responsabilidades; assim os turcos e os árabes, que fizeram impérios a que devemos muito);

3)  3)  É desprezante: despreza o proletariado;

4)   4)  É desprezante de si mesmo: despreza os seus antepassados;

5)   5)  É presunçoso: quando se sente responsável sente-se de origem nobre;

6)   6)  É inconsistente: o único responsável consistente que existiria, ele mesmo diz que é inexistente.

Em suma, não é muito dotado sob o ponto de vista intelectual. O que em si não é pecado. Salvo quando se demonstra que é ideias que pretende criar. Que um destituído intelectual queira fazer desporto, em nada tem de condenável. Que queira ter ideias… Apenas mostra que quem o segue com ele sente afinidades… Intelectuais.

 

Alexandre Brandão da Veiga

 

 

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