Arte popular e vanguarda
Relendo as minhas notas
sobre Vesperini vejo uma verificação velha de séculos. Nas sociedades
aristocráticas a arte elevada não tem de ser distante da popular. O velho
Comparetti tinha a mesma observação sobre a literatura medieval. E lembro-me de
há muitos anos ouvir falar de um talhante em Florença que recitava de cor
longos excertos de Dante.
A verificação é fácil de
comprovar. Os palácios da Renascença, mas também as catedrais góticas,
provocaram quando surgiram, talvez alguma estranheza, mas sobretudo verdadeira
admiração, entre a plebe.
As vanguardas desde o
século XIX em graus diversos - não era estranho os românticos apelarem à
literatura popular, é evidente - pretendem o contrário. Mais que a admiração,
dizem querer chocar o filistino, o burguês, o plebeu, o não iniciado. Não sou
eu a dizê-lo, são os próprios autores a dizê-lo.
E isto revela o que são, mais
do que gostariam. Mozart e Brahms usam músicas populares nas suas obras, não
para serem folcloristas ou antropólogos, mas porque as músicas populares
participam de toda a música, e toda a música é o seu campo dos possíveis. A
valsa, de dança popular, passa a ser a mais nobre das danças, e o que ganhou em
polimento não perdeu em alma ou em presunção.
Ninguém confunde numa
sociedade aristocrática a arte elevada e a popular, e por isso o vira minhoto
pode lembrar a dança dos salões fidalgos sem ser caricatura, ou a poesia
trovadoresca beber das lendas populares, sem que o duque da Aquitânia se sinta
por isso labrego. As ditas vanguardas querem ser de uma nova aristocracia que
se quer distante do povo.
Mas não é isso que
revelam. O que mostram é a sua origem burguesa, ou seja, plebeia. Nas cidades
nobres os bairros com palácios podem ter ao lado casebres, e no mesmo prédio se
via a costureira que vivia no esconso ou no pátio. Nas cidades nobres não há
bairros finos feitos para afastar o povo. E há uma boa razão. Quando o fidalgo
desce as escadas. o aguadeiro que vive no rés do chão não pretende ser igual ao
senhor, nem o senhor se sente confrontado com a modista.
A vanguardas são de
natureza burguesas. O burguês faz bairros segregados porque teme encontrar na
esquina o seu primo que é sapateiro. Da mesma forma, a vanguarda tem de se
afastar da plebe porque tem medo que, vista de perto, não engane ninguém, e o
que quer impor como alto coturno mais não seja que chinelo montado sobre andas
de gigantones.
Alexandre Brandão da
Veiga

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