segunda-feira, 12 de outubro de 2026

Arte popular e vanguarda

 

Relendo as minhas notas sobre Vesperini vejo uma verificação velha de séculos. Nas sociedades aristocráticas a arte elevada não tem de ser distante da popular. O velho Comparetti tinha a mesma observação sobre a literatura medieval. E lembro-me de há muitos anos ouvir falar de um talhante em Florença que recitava de cor longos excertos de Dante.

 

A verificação é fácil de comprovar. Os palácios da Renascença, mas também as catedrais góticas, provocaram quando surgiram, talvez alguma estranheza, mas sobretudo verdadeira admiração, entre a plebe.

 

As vanguardas desde o século XIX em graus diversos - não era estranho os românticos apelarem à literatura popular, é evidente - pretendem o contrário. Mais que a admiração, dizem querer chocar o filistino, o burguês, o plebeu, o não iniciado. Não sou eu a dizê-lo, são os próprios autores a dizê-lo.

 

E isto revela o que são, mais do que gostariam. Mozart e Brahms usam músicas populares nas suas obras, não para serem folcloristas ou antropólogos, mas porque as músicas populares participam de toda a música, e toda a música é o seu campo dos possíveis. A valsa, de dança popular, passa a ser a mais nobre das danças, e o que ganhou em polimento não perdeu em alma ou em presunção.

 

Ninguém confunde numa sociedade aristocrática a arte elevada e a popular, e por isso o vira minhoto pode lembrar a dança dos salões fidalgos sem ser caricatura, ou a poesia trovadoresca beber das lendas populares, sem que o duque da Aquitânia se sinta por isso labrego. As ditas vanguardas querem ser de uma nova aristocracia que se quer distante do povo.

 

Mas não é isso que revelam. O que mostram é a sua origem burguesa, ou seja, plebeia. Nas cidades nobres os bairros com palácios podem ter ao lado casebres, e no mesmo prédio se via a costureira que vivia no esconso ou no pátio. Nas cidades nobres não há bairros finos feitos para afastar o povo. E há uma boa razão. Quando o fidalgo desce as escadas. o aguadeiro que vive no rés do chão não pretende ser igual ao senhor, nem o senhor se sente confrontado com a modista.

 

A vanguardas são de natureza burguesas. O burguês faz bairros segregados porque teme encontrar na esquina o seu primo que é sapateiro. Da mesma forma, a vanguarda tem de se afastar da plebe porque tem medo que, vista de perto, não engane ninguém, e o que quer impor como alto coturno mais não seja que chinelo montado sobre andas de gigantones.

 

 

Alexandre Brandão da Veiga

 

 

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