Um deslocado desprezo
Não há nisto diferença entre a esquerda e a direita. Pessoas de ambos os lados vi que eram incapazes de referir Marco Paulo sem que um canto dos lábios esboçasse um sorriso de condescendência. Como quem diz: não é da minha laia. Nunca vi um fidalgo fazer tal expressão. Talvez porque lhe fosse óbvio que era figura popular, ou seja a si estranha e por isso merecedora de respeito.
A vontade de se
diferenciar mostra-se assim como uma purga do que se é, do que sempre se foi, e
do que nunca se deixará de ser: da mesma origem popular do cantor.
O mesmo desprezo vê-se na
música na literatura na política. Quantos não fazem ar de desprezo em relação a
Saint-Saëns ou Tchaikovsky sem serem
capazes de escrever sequer um bailarico? Bach, Mozart, em certos meios de
preferência John Cage, são objecto da sua admiração oficial, mesmo que lhes
implique viverem uma vida tão enfadante como eles mesmos.
Na literatura dizem que
estão actualizados porque ninguém lhes disse que na arte isso nunca foi o mais
difícil. Renunciar a Homero é impossível porque quem tem essa vontade é
inevitavelmente incapaz de perceber o que é um genitivo absoluto. Escolhem
modernos que os validam entre os amigos. Nada mais.
Na política opõem-se aos
populismos e quando lhes vemos as mãos de costureirinha iguais às das suas avós
e os traços latrinários percebemos porque têm nojo de tudo o que venha do povo.
Salvo se for um povo exótico que os faça esquecer da sua origem e lhes dê algum
sentido de superioridade.
A pergunta que me coloco
é: estão em posição de desprezar alguma coisa? Têm conhecimento de desprezo, sem
dúvida. A sua família tem gerações de ser dele objecto. Mas é por ter estado em
várias lamelas de microscópio que posso dizer que uma bactéria passa a ser
doutorada em biologia. Se tem experiência de injusto desprezo talvez por isso
seja o único que sabe praticar.
Seja. Vergo-me ao peso
dos meus próprios argumentos e às suas inesperadas consequências. Sim: peritos
do desprezo injusto têm muito mais autoridade que eu para o praticar.
Que lhes faça bom
proveito. Até que a arma que usam contra o mundo contra eles se vire e se veja
que, filhos do desprezo, da mesma massa a sua descendência. E um dia verão que
lhes sobra o destino dos seus antepassados. Achando os outros reles, serão para
eles os seus outros. Achando tudo desprezível, desse tudo fazem parte. E para
sua sorte um dia falecem e pela primeira vez fazem da sorte sua a nossa bênção.
Alexandre Brandão da
Veiga
