Lucrécio e Vesperini II
(c) Nunca houve uma actuação sistemática da Igreja para apagar o De Rerum Natura:
1) Os
autores cristãos, dos apologetas aos Pais da Igreja, citam Lucrécio (p. 196).
2) São
Jerónimo nunca foi um censor fanático contra Lucrécio e foi, aliás, citado com
entusiasmo pelos humanistas que redescobriram Lucrécio (p. 196).
3) Se
São Jerónimo quisesse prejudicar Lucrécio, poderia ter omitido o seu nome (p.
199).
4) Os
episódios escabrosos sobre Lucrécio que se encontram em São Jerónimo vinham da
tradição antiga das biografias sobre os poetas (p. 200).
5) Na
época patrística, Lucrécio não foi uma «bête noire» dos seus autores (p. 201).
6) Na
época visigótica, Lucrécio é fonte essencial de duas obras fundamentais da
cultura medieval, as Etimologias e o De Rerum Natura, ambas de
Santo Isidoro de Sevilha (pp. 201-202).
7) A
existência de poucos manuscritos não significa forçosamente a vontade de apagar
um texto: sobra apenas um manuscrito de obras cristãs importantes como a Epístola
a Diogneto, o Octavius de Minúcio Félix ou A Morte dos
Perseguidores de Lactâncio (p. 204).
8) O
Decreto de Graciano (texto fundamental de direito canónico) deixa claro que não
se pode ignorar os textos pagãos (pp. 207-208).
9) Lucrécio
não é censurado; se assim fosse, muitos outros autores pagãos o teriam sido (p.
208). A Idade Média não tinha nenhuma hostilidade em relação a Lucrécio (p.
209).
10) Num
texto medieval, Lucrécio não aparece só como poeta, mas também como intérprete
de sonhos (p. 210).
11) A
partir do século XII, Lucrécio deixa de ser citado, pelo menos nos textos que
conhecemos, mas isto não se deve a uma conspiração do silêncio, mas à revolução
universitária, que dá relevância a textos intelectuais sobre a literatura (p.
211).
12) Se
temos hoje dois manuscritos de Lucrécio, deve-se a monges de Mayence e de
Saint-Omer, que os preservaram piedosamente nas suas bibliotecas (p. 227).
13) Havia
um terceiro manuscrito em Lobbes, mas foi a Revolução, filha das Luzes, que o
queimou (p. 227).
14) A
atitude da Igreja mostra que Lucrécio não era considerado subversivo: ainda em
1483, uma edição é feita para o Papa Sisto IV (p. 249).
15) Giovanni
Battista Pio publica, em 1511, uma edição de Lucrécio em que o comenta
naturalmente, e só não é personagem referida pela mitografia de Lucrécio porque
não foi preso nem perseguido (pp. 249-250).
16) O
dominicano Michele Ghislieri, incumbido de preparar o Index, diz numa carta de
1557 que, proibindo o Orlando Furioso ou o Decameron,
arriscar-se-iam a ser objecto de rejeição e chacota, tal como se proibissem
Luciano ou Lucrécio (pp. 254-255). E Ghislieri não era um modernista, mas um
conservador e rigorista (p. 255).
17) Carlos
Borromeu discute Lucrécio e um certo Christoph Haym, senhor de Reichenstein,
católico convicto, faz figurar versos de Lucrécio na sua tumba (p. 255).
18) O
mesmo Landino que, no seu comentário a Dante, condena Lucrécio, saúda-o alhures
(p. 235).
19) Os
jesuítas, a ordem da Contra-Reforma, adoptam Lucrécio nos seus programas e
Possevino inclui-o nas suas leituras recomendadas (pp. 259-260). Em 1680, o
jesuíta Michael Pexenfelder, numa enciclopédia dedicada ao eleitor da Baviera,
cita Lucrécio duas vezes (p. 260).
20) O
padre Cotin, imortalizado por Molière sob o nome de Trissotin, em 1658 faz à
rainha Cristina da Suécia uma leitura de traduções suas de Lucrécio (pp.
260-261).
21) Lucrécio
é traduzido e publicado mais de uma vez com privilégio régio (pp. 265-266).
22) No
início do século XIX, não é proibida a entrada de um livro de Lucrécio na posse
de um inglês em Espanha, mas apenas tem de pagar uma tarifa (p. 280).
(d)
Nunca houve uma actuação sistemática da Igreja para apagar o epicurismo:
1) Numa
biblioteca medieval seria impensável não ter livros que expusessem as doutrinas
heréticas ou pagãs (p. 205).
2) Diógenes
Laércio, que contém uma vida de Epicuro, é traduzido em latim por um monge,
Ambrogio Traversari (p. 236). Este é o geral da Ordem dos Camaldulenses,
preocupado com a unificação da Igreja Oriental e Ocidental e com a ameaça turca
(p. 240).
3) Não
há especialidade epicurista: como toda a escola antiga, é ao mesmo tempo
louvável, venerável, não possui a revelação verdadeira e é perigosa (p. 244).
(e)
Nunca houve uma actuação sistemática da Igreja para apagar o atomismo:
1) A
cultura da Contra-Reforma não tinha medo do materialismo antigo (p. 198).
2) A
Idade Média não foi hostil a Lucrécio, como não o foi ao atomismo (p. 211).
3) Santo
Isidoro de Sevilha cita Sérvio quando este expõe o atomismo (p. 241).
4) É
falso dizer que o atomismo era proibido em Roma; era ensinado mesmo nos
mosteiros da cidade (p. 268).
(f)
Poggio não é o descobridor da nudez antiga contra uma suposta pudibundice
medieval:
1) Quanto
à suposta «iluminação» de Poggio por ter descoberto os banhos de Bade, Le Goff
já tinha mostrado que foi a própria Renascença a condenar a nudez em público
(p. 218).
2) Existem
banhos públicos durante a Idade Média e Poggio não opõe uma Idade Média à
Renascença, mas o prazer natural, de «bom selvagem», de Bade, em comparação com
a rigidez dos banhos de Pozzuoli (p. 219). Poggio nunca foi um revolucionário
(p. 221).
(g)
Poggio não é um revolucionário que pretenda uma ruptura com a sua época:
1) Poggio
é um homem da Idade Média na sua ortodoxia (p. 228) e reage negativamente à
publicação de poesia lasciva de Beccadelli (p. 229). Opõe-se a Valla, mostrando
que uma imagem lisa da modernidade contra os medievais é curta (p. 230).
Defende Beda contra Valla (p. 231) e acusa Valla de epicurismo (p. 233).
2) O
mito de Poggio resulta da confluência de uma visão protestante contente com as
suas críticas anticlericais, da fascinação inglesa do Grand Tour e de um
Quattrocento sonhado por «radicals» (p. 233).
Vesperini é dos raros,
hoje em dia, que consegue fazer bailar as ideias, porque é honesto, conhecedor,
não panfletário, inteligente e lúcido. Que diferença em relação às histórias de
crianças contadas por velhos a idosos e imberbes nas universidades do presente!
Alexandre Brandão da
Veiga

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