quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

Passe-partout

Li o post incisivo do Gonçalo e agradeço-lhe a lição. Sem ponta de ironia. Seja como for continuo a inclinar-me para o Dicionário. No caso o “Dictionary of Political Thought”, do Scruton (juro que leio outros autores, mas dá-me jeito ter à mão um “rosto” familiar e insuspeito, no seu conservadorismo, de qualquer simpatia pela “Causa”).
Ainda assim, concedo que deitando fora um século de violentas batalhas, algumas das quais sangrentas, talvez possamos, com muito boa vontade, aceitar que o Capitalismo não se opõe ao Socialismo, se com isso quisermos dizer que, hoje, partidos socialistas e sociais-democratas se apresentam como bons gestores de economias de mercado. Temos, logo a a seguir, de dizer que a essência da economia de mercado – o mercado livre – é um postulado central do liberalismo. Ou seja, nenhuma teoria política justificou de forma tão substancial a economia capitalista como a filosofia política liberal: só há liberdade individual onde haja o direito à propriedade privada e onde exista a livre troca, ou seja, no capitalismo, cujo desenvolvimento é, por sua vez, a verdadeira causa, ou o o verdadeiro potenciador do “governo limitado” (esse menos Estado que o Gonçalo defende).
Quer isto dizer, e para finalizar pela minha parte este nosso debate, que entre o que o Gonçalo deseja e o que a história das ideias políticas nos dita, fico nas mãos com um Capitalismo passe-partout, um capitalismo que pode ser bem gerido por socialistas que abdicaram do Socialismo, e um capitalismo cuja fundamentação primordial decorre dos postulados do liberalismo. Será nessa plasticidade que reside a sua maior força?
Posto isto, onde é que andam os outros bloggers da Geração de 60, que ainda nenhum deles aterrou em 2008?!

7 comentários:

Joshua disse...

De facto cada qual se aliena como quer e como pode. Se em face de esta plasticidade se atribui alguma bondade ao excesso de Capitalismo ainda para mais ultraliberal, eu vou ali e já venho.

O Sofrimento das massas, agora com amplos mecanismos de cloroformizaçãoe conformação silenciosa, está a regressar.

Evidentemente que os debates meramente intelectualóides e da Escola do Elogio Mútuo ficam por aí e escamoteiam o que deve ser denunciado a doer.

Abraço de este vosso leitor diário
PALAVROSSAVAVRS REX!

Manuel S. Fonseca disse...

Joshua, não resisto a elogiá-lo: o comentário fez-me descobrir a sua actividade na bloga que é simplesmente assombrosa. Ah, outro elogio – já vê, está-me na massa do sangue – verifico que tem um blogue quase só dedicado a Jorge de Sena. É um gosto que nos aproxima por ter eu editado já três livros dele (Sobre Cinema, Dedicácias e a Correspondência com Sophia de Mello Breyner). Não é obviamente a mesma coisa: a sua perspectiva no blog é crítica e criativa, a minha é só a de um intelectualóide.
E é aí que nos separamos. Na facilidade que o Joshua tem, e eu não tenho, para dirimir diferenças de opinião e de visão do mundo com base na exclusão. Para si, quem defenda, por exemplo, que o mais próximo que chegámos, no século XX e XXI, da realização do ideal da liberdade política se deve ao capitalismo, o Joshua vai ali e já vem e ao parceiro chama intelectualóide. Intelectualóide seria nesse caso, para lhe dar só um exemplo, um Raymond Aron e eu não mereço a companhia.
De resto, sem menosprezar o mais ínfimo sofrimento, seja o das massas ou o individual (sofrimento que é hoje bem menor do que noutros tempos), gostaria de lhe dizer que, no passado e muito recente, para esse sofrimento não foi pequeno, nem negligenciável, o contributo de muitos exaltados paladinos da “denúncia a doer”.
Posto isto, e neste espaço onde, a única coisa que vale a pena é trocar ideias, temos muito gosto em acolhê-lo sempre e quando disso tirar prazer. O disparate dispensa-se.

Joshua disse...

Manuel, eu sou excessivo e entro pela hipérbole como se entra em becos ou então em avenidas. Quando mais parece que lancei a cizânia da discordia, fulgura que afinal fiz um amigo, cativei alguém, nem que seja apenas vestigialmente: não desvalorizo o debate nem acredito que se possa simplificar factos e argumentos demasiado angulosos como aparentei fazer anteriormente. Franco-atirei. Só isso.

No que acredito é na força da literatura não só para transdescrever o Homem/A Vida, como para se insurgir contra o espezinhamento de Ambos, e se é certo que na Voz de Muitos-Muito Exaltados (de mais!) nos últimos cento e cinquenta anos, os ânimos se inflamaram de instinto sanguinário reptiliano cego e a razão e o comedimento se ausentaram, nem por isso é menos verdade reconhecer a importância de imensas vezes não haver calado.

Acho que se me pode perdoar a parte disparatada do meu comentário anterior porque era também a parte provocatória, era o gatilho que reclamava de igual modo ser alvejado, conforme de facto fui por ti e logo numa escala Dresden, quase.

Quanto ao resto, é um prazer ter capturado a tua atenção, Manuel, alguém que manuseou um dos meus Poetas de maior afinidade tonal, Sena, e será um prazer continuar vir cá dia após dia, claramente.

Gostei da tua ironia benigna e simpática nas variações sobre o Elogio. Nada de mal num elogio mútuo e quem se ressente do elogio mútuo nos outros tem é inveja ou algo de equivalente. Também te elogio desde logo a estimulante resposta e a compreensível e amistosa reprimenda. Abraço.

Táxi Pluvioso disse...

Manel, isto das "internetes" é mesmo fantástico. Acabei de te enviar um mail. Tenho andado distraído. Não vi que tinhas comentado os mails que o Armando publicou no 2+2=5. E, só agora reparei que afinal escreves aqui(vou meter este endereço na drop box, enquanto não meto um link no meu blog para aqui).

Agora vou ler com mais atenção o que por cá escrevem. Não posso deixar de notar a curiosidade do nome do blog, como me estou a aproximar da geração "com" 60...

Um abraço.

Táxi Pluvioso disse...

Ora bolas! Agora reparo que isto não tem endereço. Mas deve ser o normal geraçãode60.blogspot.com? Ou sem o til e cedilha?

E afinal para que serve esta verificação de palavras em baixo?

Manuel S. Fonseca disse...

Joshua e Taxi Pluvioso, será que vocês não dormem? Quem, neste reino de Deus, se pode permitir postar às 6 da manhã. Posto isto, peço ao Taxi Pluvioso que vá ao meu perfil onde encontra o e-mail que pretende.
Ao Joshua declaro que estão abertas as hostilidades. Cruzemos, a partir de agora, delírios e visões que não têm, é claro, de ser concordantes.

Táxi Pluvioso disse...

Pela parte que me toca acordo às três horas da manhã para escrever. É um hábito.

Estou a gostar de ler o que por aqui escrevem.