terça-feira, 27 de novembro de 2007

O historiador e o jornalista

1. O recente arrufo entre Vasco Pulido Valente e Miguel Sousa Tavares é menos fútil do que parece à primeira vista – ou melhor, é menos fútil do que me pareceu à primeira vista. Isso porque, bem vistas as coisas, é uma discussão sobre qualidade. Quanto maior o poder, mediático, político ou económico, dos emissores de opiniões ou dos decisores, maiores devem ser as nossas exigências em matéria de qualidade. Para além disso, há neste duelo alguns aspectos de manifesto anti-Dantas ao contrário, o que quer que isso signifique, embora entre protagonistas da mesma geração, o que lhe dá outro interesse. Devo dizer que não li o livro do Miguel Sousa Tavares, aliás um dos meus colunistas preferidos, e que também o não vou ler, por não ser o meu género.

2. Não se pode zurzir, a torto e a direito, o ensino em Portugal, as escolas e os professores, sem retirar as devidas consequências. É que o mau ensino produz conhecimentos deficientes. Isso é menos importante para disciplinas como a Matemática onde quem sabe, sabe, quem não sabe, não sabe, ou as Ciências e mesmo o Português, mas é de uma importância extrema para a História. Por outras palavras, o mau sistema de ensino tem consequências directas naquilo que os “miúdos” aprendem sobre a História de Portugal (e da História da Europa, aprendem quase nada). Essas deficiências estendem-se à Universidade onde se contam pelos dedos os professores de História com ideias e interpretações sólidas.

3. Com tanta deficiência, é frequente encontrarem-se frases feitas em tudo o que é trabalho de alunos, manuais escolares, artigos de revistas especializadas. Do género: “Salazar vai construir [a preferência por este tempo de verbo é um fenómeno] a extensão do Museu Nacional de Arte Antiga num estilo arquitectónico tradicional e a pintura clássica vai passar a fazer parte da propaganda do regime”. Ou frases que nos dizem que "a República vai criar um sistema de protecção social que Salazar vai cortar para afirmar a mudança do regime na problemática das finanças públicas.” Estas frases são inventadas mas garanto-vos que podia trazer para aqui exemplos reais.

4. A História tem de deixar de ser tratada de forma amadora. E isso também num romance de grande divulgação (será novela? – nada sei de literatura). Ao ser muito lido, porventura graças a alguma qualidade que tenha em outros aspectos, o livro em causa alarga as audiências das frases feitas, o que traz dificuldades acrescidas ao esforço de alguns para dar um sentido mais interessante à História.

3 comentários:

Madalena Lello disse...

Li o livro Rio das Flores e li o comentário de Vasco Pulido Valente (VPV). "O arrufo não é fútil" como diz Pedro Lains, pois a "qualidade" da crítica de VPV clarifica bem o livro que é. Só faltou VPV referir a opinião de desprezo que MST nutre pelo culto mariano, quando escreve sobre as aparições de Fátima. Rio das Flores foi o primeiro livro que li de MST. Julguei que ia ler sobre o ambiente e a história de uma época, os primeiros 50 anos do século XX, na Europa e Brasil, a sua entrevista ao Expresso e a fotografia da contra capa do livro (que nos mostra MST sentado numa sala de sua casa com o chão repleto dos livros que leu...), indicavam nesse sentido. Enganei-me. Rio das Flores não é um romance histórico é um livro de opiniões sobre a história, em que Diogo, o personagem principal de Rio das Flores, personifica as opiniões de MST. E Diogo é bem o reflexo daquilo que os franceses chamam "Gauche Caviar".

Pedro Lains disse...

Obrigado pelo comentário. Mas podemos concordar que não há nada de mal com a esquerda-caviar (ou empada-de-perdiz, que é mais apropriado para este país - e é melhor), não podemos? E parabéns pelo seu blog de fotografia.

Anónimo disse...

VPV e MST estão longe de ser da mesma geração.Aliás, nota-se...