segunda-feira, 23 de abril de 2007

A Superioridade da Arte

Não obstante a pertinaz e omnipresente campanha dos cientistas, que dos seus castelos de marfim conquistaram o mundo com mais eficácia e sucesso que qualquer político de qualquer tempo, a história da humanidade que importa não é tanto a descoberta do átomo quanto foi a invenção da poesia.
O átomo se existe, e não parece haver dúvidas que possa existir na constituição da matéria, não existe para nos aumentar a consciência nem para nos revelar a transcendência da nossa espiritualidade. Conhecê-lo, não adianta nem atrasa a evolução da humanidade. Evolução, voltar para fora, não se confunde com progresso que, a existir, tem de ter determinada a sua finalidade e o seu ponto de partida. O progresso infinito que geralmente significa indefinido é uma impossibilidade lógica que tem alimentado as fantasias de utopistas, melancólicos e outros socialistas.

A evolução é de certo modo revelação; mas, o que é que se revela? A distinção dos caminhos seguidos pelo pensamento científico e pelo pensamento artístico dá-se na resposta a esta interrogação. Para o pensamento científico, a revelação é a observação e a verificação motivada pela investigação da matéria (com um alargado e sempre impreciso sentido para a matéria, normalmente associado ao visível ou visionável). Para o pensamento artístico, a revelação é a descoberta da própria realidade segundo um pensamento encarnante (a arte é sempre encarnação como inserção da ideia no real).
Destes dois caminhos, o primeiro será uma via de afastamento da filosofia e o segundo de constante alimento e incessante adunação a esta. A arte procura a filosofia porque de certo modo são criadoras de realidade e operam pelo excesso criador do pensamento. Todavia, a arte afastando-se da sua essência, e até negando-se, sofreu um processo de conquista por parte do pensamento científico.
Ciência e arte são caminhos divergentes na procura da sabedoria: o pensamento científico, define o mundo sensível como universo limite do conhecimento e tem por finalidade aceder à verdade por via da penetração exaustiva na matéria que reconhece como constituinte do mundo sensível; o pensamento artístico, abre a sua interrogação ao mundo das ideias que se esconde e mostra no mundo sensível, ou seja estabelece as relações necessárias à inteligibilidade do mundo e à sua inserção num pensamento transcendente.
O pensamento artístico está, ao contrário da ciência, próximo da vida. O universo da existência humana movida pelo elo que é o amor, propõe uma via de conhecimento e de acesso à sabedoria que ultrapassa, incomensuravelmente, as possibilidades limitadas de que se investe a ciência.
A ciência é, essencialmente, o seu método, ou seja a investigação das possibilidades de que se atribui para se validar. A arte, é uma via de sabedoria aberta e livre que reconhece e até se baseia na subjectividade do pensamento para criar a realidade em que vive e a própria realidade do mundo.
O risco da arte se deixar seduzir pela ciência é o risco da arte deixar de ser arte, pois, a ciência e a arte correspondem a caminhos de vida divergentes: o primeiro, identifica os fenómenos e não se liberta da aparência ou da pura exterioridade a que os fenómenos estão sujeitos enquanto expressão acabada da realidade; a segunda, convive com as realidades psicológicas e espirituais, suas representações e respectiva fonte de animação, aproximando cada um do seu universo subjectivo mas incessantemente confrontado e acompanhado pelo outro, pelo semelhante que dá a medida da diferença, da originalidade e da razão de ser da individuação.

II

Entre ciência e arte é justo distinguir entre conhecimento e saber, como o tem feito, entre nós, a filosofia portuguesa, pois, o conhecer é o que pressupõe uma relação acabada e exterior entre sujeito e objecto e o saber é uma relação incindível entre o que conhece e isso que conhece, podendo mesmo considerar-se que o que conhece na medida em que participa ou é participação desse conhecimento. O cientista permanece o mesmo perante a obra do seu conhecimento; o artista identifica-se com a sua obra.
Aquilo a que chamamos ciência é a aquela forma de conhecimento baseada na experiência, ou seja, aquela sequência trópica que vai da observação, à hipótese e da experimentação à conclusão. Aquilo a que chamamos arte é a criação de obras através das quais se exprime um pensamento compreensivo da realidade mediante um processo que tropicamente poderíamos sequenciar do seguinte modo: visão, concepção e contemplação.
Talvez fosse mais claro distinguir a ciência e a arte como dois modos do pensamento, sempre coexistentes na história, afirmando-se como vias para o conhecimento ou para a sabedoria. Diríamos, talvez, que na história ocorrem fases de predomínio desta ou daquele modo do pensamento.
No tempo presente, em que vivemos as sequelas do domínio da ciência e da técnica configuradas no domínio da tecnologia, há uma reflexão que nos parece voltar a estar no centro da filosofia. A questão será, então, esta: é lícito tentar compreender a verdade, ou a realidade, a partir de um método analítico que passa por dividir a matéria para a reconstruir posteriormente, ou seja, será lícito o conhecimento com base na divisibilidade dos corpos que constituem a natureza? Parece-nos que essa forma de conhecimento será sempre redutora, pois, o que se estuda no pressuposto de que a matéria cognoscível é divisível, é a possibilidade de colocar nas partículas temporariamente indivisíveis a unidade significativa da matéria e não nos corpos tal qual eles são criados ou dados à vida intelectiva. Esta via, abre com toda a evidência atestada pelos tempos que vivemos, um conflito entre os caminhos da inteligência do homem que se dirigem para a atribuição de significado ao mundo criado, e na forma em que foi criado para a nossa compreensão, e essa realidade que se afirma validada por microscópios e outros equipamentos que ao centrarem nessas formas invisíveis e sem inteligibilidade a verdade que procuram a separam irreparavelmente do homem. Característico do caminho da ciência, o corte, a pulverização ou a diluição, são adversos da compreensão da realidade a partir de uma criação que abrace num todo harmonioso as partes, os singulares e os perfeitos. Este é, porém, o caminho da arte. Este é um caminho explicativo; aquele será sempre descritivo e obstrutor da compreensão intelectiva.

III

Se o nosso tempo nos coloca dificuldades, uma está acima de todas: a abolição da filosofia, que é a abolição do pensamento filosófico, conduz o mundo contemporâneo para a atribuição de realidade ao que não tem possibilidade de compreensão inteligível e, com isso, torna inviável o pensamento artístico porque não aceita a criação como uma realidade, nem o pensamento como construtor de uma interpretação da realidade. Esta recusa que resulta numa inviabilização do pensamento filosófico e artístico é feita em nome da redução da realidade a um valor arqueológico que só a ciência pode manipular de acordo com uma moral que não se limita nos seus processos de investigação e que apenas pretende determinar a descrição de um hipotético facto sensível. Nessa descrição cabe tudo o que surge conforme surge no plano natural e não cabe nada do que surge pelas elaborações do pensamento por mínimo que seja. O mundo é descrito pela sua força instintiva e determinista e negado pelas possibilidades que se abrem pela razão.

IV

Conhecer o homem fora de uma moral é negar o homem. O homem é um ser de razão e toda a sua finalidade existencial é determinada fora da natureza. Não se nega o evidente, mas afirma-se o que se esconde: ou seja, não obstante se encontrarem semelhanças entre o homem e o mundo e até a potencial harmonia sempre instável do homem com o mundo, o homem não é um ser resolvido, determinado ou cingido ao mundo de que parece um filho especial.
O homem surge mergulhado numa realidade de que se liberta como se fosse de uma outra natureza. Esta consciência de si numa simultaneidade instante que pela aparência integra o homem no mundo e pela inteligência o torna um construtor de outro mundo sobre este e com este, é o paradigma da situação do homem. Por isso, a arte será sempre entusiasmante, pois, opera sobre a realidade actual e torna-a numa realidade moral, ética e lógica.
Para a ciência, a moral é apenas um peso que se vai transportando e que, pelo caminho se vai aliviando, ou seja, a ciência pelas suas finalidades, pelo seu método e pela sua natural auto-legitimação não tem intrinsecamente moral: trata de corpos mortos, de seres mortos e de realidades mortas.
A sombra fria do laboratório onde o cientista se isola contrasta com a luz auroral do atelier onde o artista recebe o mundo.

V

Pode dizer-se que os artistas são raros no nosso tempo? Sim, isso pode-se, e até acrescentar, que muitos são mais cientistas que artistas. É que o pensamento dominante é ainda o que teve origem na ciência moderna e esse pensamento invade todos as formas e quadros mentais do homem. Ora a arte sofreu essa ocupação por via dos artistas imbuídos dessa crença na ciência. Em vez de combaterem pela originalidade, singularidade e superioridade da sua intuição e do seu saber muitos entregaram-se à vida fácil que o cientismo propõe e de que se constitui. Hoje, um consenso como “as verdades científicas” mas, por isso mesmo, um conformismo. O mundo dito ou traduzido por um qualquer especialista de um qualquer ramo da ciência é das mais elucidantes experiências para se compreender de que forma a ciência é pelo seu próprio método de uma insuportável limitação intelectual.

4 comentários:

Lourenço Ataíde Cordeiro disse...

Antes de mais nada, gostava de lhe propor um desafio: envie este texto a Jorge Calado. Porque o que aqui sugere, esta divisão estruturante entre pensamento científico e pensamento artístico, não é algo fácil de argumentar, e Jorge Calado consegue, com muito brilhantismo, argumentar exactamente o contrário. Gostava de assistir a essa troca de ideias.

Quanto ao texto, parece que o João Luís Ferreira faz uma comparação injusta: compara o «pensamento» artístico com a «ciência». O modo como encara o pensamento científico é algo redutor e espelha mais uma vontade de quem escreve, claramente identificado com a arte, do que uma evidência lógica. Interpreto-o como um elogio à arte e ao pensamento não-científico. E parece-me que o ponto mais frágil reside na afirmação de que a filosofia deve mais à arte do que à ciência, ou melhor, que o diálogo entre a filosofia e a arte é mais frutuoso do que o diálogo entre a filosofia e a ciência. O que parece um paradoxo num texto intitulado "A Superioridade da Arte", todo ele centrado num conceito "científico" (a partícula indivisível).

E voltamos a C.P.Snow: «(...) Literary intellectuals at one pole-at the other scientists, and as the most representative, the physical scientists. Between the two a gulf of mutual incomprehension-sometimes (particularly among the young) hostility and dislike, but most of all lack of understanding. They have a curious distorted image of each other. Their attitudes are so different that, even on the level of emotion, they can't find much common ground. (...)»

Lourenço Ataíde Cordeiro disse...

Onde disse:

O que parece um paradoxo num texto intitulado "A Superioridade da Arte", todo ele centrado num conceito "científico" (a partícula indivisível).

Deveria ter dito:

O que parece um paradoxo num texto intitulado "A Superioridade da Arte", que se centra num conceito "científico": a indivisibilidade.

zazie disse...

Penso o mesmo e fazia falta contrabalançar a terraplangem do "holismo científico" em curso

zazie disse...

E nem é só a superioridade da Arte; é também a da Religião ou da Filosofia. A Ciência é que não tem vocação para falar de si própria nem do mundo. Tem o nariz enfiado nos pormenores e na micro linguagem; nem entre elas se percebem.