quarta-feira, 25 de abril de 2007

O futuro de Portugal está nos velhos

Neste “Geração de 60”, onde por magnanimidade me consentem, há uma certa inclinação, e uso a expressão da Sofia, para a “reinvenção do espaço público”. Ou seja, há alguma vontade de contestar o “establishment” político-partidário e há mesmo alguma vontade de doutrinar. Eu, por nanologia teórica, caio mais para o lado dos estados de alma. Com um egotismo do tamanho do Empire State Building, só me apetece mergulhar na ociosa bruma dos boleros de Machín, ou perder-me convulsivamente em livros como “Núpcias de Fogo” ou “Escravas do Amor”, que o velho Nelson assinou com o pseudónimo Suzana Flag. Do contributo para o “espaço público”, das mais ou menos totalizantes explicações sociológicas, defendo-me com o poético estoicismo de dois versos de W.B.Yeats, “Those that I fight I do not hate / Those that I guard I do not love”, que resumiam o dilema de um aviador irlandês na I Grande Guerra, obrigado a combater o império germânico e a defender o britânico.
Mas hoje, nesta radiosa tarde de 25 de Abril de 2007, “somewhere among the clouds above”, deixei-me também levar pelo “lonely impulse of delight” do guerreiro de Yeats e ouvi o Presidente discursar. Ouvi-o fazer o elogio dos jovens e, por uma conjugação de circuitos nervosos, genes e outros compósitos químicos que o Nuno Lobo Antunes saberá descrever, senti o rubor do ciúme inundar-me o rosto e um irado despeito retesar-me os músculos. Cavaco Silva, o meu presidente, errou ao dizer: “Confio no futuro de Portugal porque confio na sua juventude”. O futuro de Portugal, e nem sequer as estatísticas o desmentirão, está nos velhos. Não tenhamos medo do qualificativo. Velhos, homens e mulheres com mais de 45 anos, vá lá, com mais de 50, são hoje velhos. “O inconformismo é timbre da juventude” Cavaco dixit e eu acho que ele deve imediatamente despedir o assessor de 38 anos que há dois meses lhe anda a preparar o discurso. Inconformistas são os tipos de 50 anos que fazem empresas, são os cientistas que já vão nos 60 e continuam a inventar verbas para desenvolver laboratórios e sustentar institutos. Inconformistas e visionários são os empresários e gestores de 50 e 60 anos que investem no Brasil, na China, na Índia ou em Angola. Inconformistas são os professores de 50 anos que continuam, nos liceus e universidades, a acreditar que o conhecimento vale a pena.
Em Maio de 68, em Paris, de um lado estavam os jovens para quem era proibido proibir, do outro estava De Gaulle que tinha “une certaine idée de la France”. Hoje, e em retrospectiva, poucas dúvidas me assaltam sobre em quem se poderia confiar para garantir o futuro da França. Que valores estamos a transmitir aos jovens, interrogou-se ainda o Presidente. O culto demagógico da juventude é, certamente, um dos que não lhes devemos transmitir.

7 comentários:

Pedro Lains disse...

Se o futuro de Portugal está nos jovens, por que é que temos um presidente tão velho? Por ter um passado promissor? Proponho uma campanha para candidatar o Jovem de 38 anos que faz os discursos a Presidente!

Anónimo disse...

Estimado MSF: concordo consigo, e até penso que a idade da juventude está a aumentar.

Saloio

andrea disse...

Deliciosas as analogias meu caro Manuel.
Pessoalmente recuso-me aceitar que a idade seja sinónimo de velhice.
O conformismo será certamente um indicador mais seguro.
Será Portugal um país de conformistas ?
Será o Presidente um "conformado" ?
Deus queira que não porque se assim for, ele é efectivamente VELHO.
Abraços.

Nuno Nóbrega disse...

Ainda que não tenha gostado particularmente do discurso do Sr. Presidente da República, creio que a intenção foi a de - perante gerações de jovens que considero cada vez mais individualistas, desinteressadas e expectantes - estimular o sentimento de cidadania, a participação na vida pública e a acção colectiva ancorada numa ligeira consciência de classe. Em alguns países europeus, reconheço a existência de grupos, movimentos, plataformas, etc. que representam o interesse dos jovens e reclamam a sua intervenção em determinados processos políticos. Em Portugal, parece-me que encontramos menos exemplos. Acho que o Sr. Presidente da República quando disse que o futuro está nos jovens estava, no fundo, a dizer-lhes: mexam-se, digam coisas, inventem outras, mereçam o futuro que gerações anteriores criaram para vocês e trabalhem para as gerações que virão a seguir. Ou seja, o inconformismo a que se refere é um apelo perante a passividade e o comodismo. Além disto, penso que o discurso esteve em sintonia com algumas iniciativas comunitárias centradas nos jovens, porquanto sabemos que o problema não é apenas nacional.

António Eça de Queiroz disse...

Dum determinado ponto de vista, Cavaco já nasceu velho - ou pelo menos envelheceu muito novo. Já o seu discurso me pareceu uma coisa sem idade, deslavada e bastante inerte, com as ideias banais da esquerda social-democrata (não é por acaso que o PS o aplaudiu). Mas é um erro de paralaxe política, porque não querendo parecer da ala esquerda acabou por acenar com esse ícone do populismo que é o recurso à juventude.
Cavaco devia ter dito simplesmente que o futuro de Portugal está sim nos jovens, mas também na meia idade, nos velhos ou em todo e qualquer ser com capacidade de realização.
É que o verbo realizar ainda é pouco usado em Portugal...
Grande abraço, Manuel!

João C. Mendes disse...

Caro Manuel,

Como sempre, esse toque de Midas. Continua a ser um prazer acompanhar os seus projectos. E, se o "maior da comunicação em Portugal" foi uma guerra, a edição terá sido a merecida paz.

Felizmente ainda existe uma geração de 60 que acredita. Fazendo com que os jovens, como eu, tenham esperança.

Hoje, como ontem, também eu estou nessa França de 68 à espera do dia em que Portugal aprenda a viver com a sua história e os seus autores.

Muitos parabéns aos autores pela coragem, e obrigado pela partilha.

Saudações,
João Mendes

AA disse...

hum... é bem apanhado, se olharmos para o status quo--, mas mais importante é saber porque é que os "novos" não empreendem mais em Portugal - e veremos que muito se deve a elevados "custos de entrada" (não só financeiros, mas também em termos de riscos para a vida) impostos aos newcomers, por via da asfixia burocrática e fiscal do Estado...