quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Pragmáticos, supersticiosos e concretos

É sempre elucidativo ter o ouvido atento para os dizeres de rua. Antigamente eram as varinas, os cantadores, as peixeiras que faziam correr as notícias. Como hoje em dia os seus filhos estão em postos de poder das mais diversas naturezas, é bom ver o que estes ilustres descendentes trazem para a praça pública.

Um dos dizeres mais comuns, porque de mero dizer se trata, como veremos, é o dos que se dizem pragmáticos, que dizem gostar de coisas concretas. Como a sua formação lógica e filológica é geralmente defectiva tenho de começar por fazer alguns reparos iniciais.

Pragmatismo vem do grego “pragmata”, as coisas, “o que está feito”. Na sua raiz aparece o agradável “prag” que também se encontra na palavra “prác-tico”. O pragmatismo é a ligação às coisas, ao que está feito. Ora são bem conhecidas duas explicações etimológicas, conjuntas ou oponentes, para a palavra religião. Para uns vem de re-legere (Jung sempre teimou nesta acepção), ter um especial cuidado, colher com particular atenção ou intensidade. A outra diz que vem de re-ligare, de ligar com particular intensidade.

A forma mais intensa e profunda de se estar ligado às coisas, de o fazer com cuidado e atenção, é por isso a religião. Em suma, a forma superior de pragmatismo é a religião. O que digo pode ser visto como um mero jogo de palavras. Mas nunca há “meros” jogos de palavras. O simples tom de desprezo de quem usa a palavra”mero" já mostra que está preparado a desprezar o que ainda não tinha sequer pensado.

Na verdade, se pensarmos o que significa a atitude religiosa, esquecendo agora o que seja o seu objecto, é sobretudo disso que se trata: um especial cuidado com as coisas, a forma mais intensa de ligação às coisas. Os tontos que se afirmam pragmáticos estão por isso a dizer que são particularmente religiosos. Mas o descuidado com que o dizem mostra apenas que não são, nem pragmáticos, nem consequentemente religiosos.

Os romanos, que tinham muitos defeitos, mas estavam bem longe de serem tontos – basta para isso ver os monumentos e ler os documentos que nos deixaram – opunham com veemência a religião à superstição. Também neste sentido o cristianismo foi herdeiro desta herança pagã da Europa. A superstição é o que “super-stat”, o que está sobre. É a superficialidade em bom rigor. Com frequência se ouve dizer que as religiões impuseram superstições, quando o simples conhecimento da História mostra que o cristianismo na Europa as tentou absorver ou compactuar com elas por razões de pacificação, mas sobretudo as combateu.

Os campeões do pragmatismo de pacotilha são assim meros supersticiosos, superficiais que dizem acreditar em qualquer coisa mas em boa verdade não sabem bem nem o que ela é nem porque acreditam. Acreditam no que chamam de pragmatismo apenas por superstição.

Agora a enunciação tem de ser lógica. Desde os gregos que se sabe que o concreto implica um número infinito de determinações. Ao separar cada classe das suas espécies operamos por diferença específica. Mas para chegarmos aos concretos, salvo para quem vivesse um mundo quadrangular, tipificado, a simples admissão de que existe o concreto implicaria a enunciação de infinitas diferenças específicas. Por isso o concreto é sempre o mais difícil de atingir. O que de mais concreto existe sob o ponto de vista conceptual é Deus, e só lhes ficaria bem gostar d’Ele, mas mais uma vez não percebem do que estão a falar.

Na linguagem popular, a que os homens públicos usam porque trazem na bagagem as suas heranças familiares, o “ser” e outras coisas quejandas são abstracções. Esquecem que não é por acaso que o problema do ser atravessa toda a cultura europeia. Fruto de uma vicissitude das línguas europeias, aquilo que começa por ser um mero verbo, discreto e quase invisível, mera muleta de um discurso, torna-se o centro da atenção dos melhores de dentre nós. E o “ser” é o que de mais concreto há, de mais intrusivo em toda a realidade, copulando-a gramatical e vivencialmente. Porque, o que mais uma vez esquecem os portadores de tão fresca bagagem, os extremos tocam-se realmente, e o que de mais concreto há acaba por ser sempre o mais abstracto também.

Quem desafia o ser desta forma turística, quem se aventura pela infinitude de determinações sem sequer delas ter consciência, apenas vive na indeterminação. Por isso os que se dizem pragmáticos e cultores do concreto na praça pública são apenas... supersticiosos que se lançam no infinito com a temeridade do imbecil.

Que consequências para a Europa e para o espaço público desta atitude? São mais uma vez fáceis de enunciar. O discurso transforma-se em tique nervoso, em obsessão compulsiva: temos de ser práticos, temos de ser pragmáticos, temos de ser concretos. As decisões tornam-se erráticas porque não assentam em nenhum critério, mas apenas na superstição. Como o infinito é tratado por esta gente como uma espécie de lixeira de resíduos industriais, deixa-se para as seguintes gerações a resolução de problemas ecológicos, esses sim realmente ecológicos no sentido de ordenação da casa, para as gerações futuras.

Como se dizem pragmáticos admitem-se todas as espécies de arbitrariedade. Não reconhecendo critérios profundos, nem exteriores nem interiores (é a mesma coisa no limite, mas esta é premissa funda demais para tão plácidas superfícies) agora são liberais ferrenhos, no dia seguinte intervencionistas estatais, amam loucamente o senhorio americano nuns lados assim como o odeiam noutros. Idolatram a natureza de um lado ou destroem-na noutro. Dizem que tudo é Europa para a destruir ou que pouco deve ser para a reduzir. Culpam o Estado ou o mercado com a mesma ligeireza. E ruminam abstracções que vão atirando à parede porque lhes desconhecem o modo de usar.

Se bem virmos não interessa muito a que conclusões chegam, porque mais não são de arbitrárias, sem critério, sem paradigma.

Em Teerão, se a memória não me falha, quando Roosevelt, Churchill e Estaline se encontraram, Estaline lançou graças de mau gosto sobre como destruiria os alemães depois de acabada a guerra. Roosevelt riu. Foi pragmático nesse momento, ou seja esteve num dos seus menos felizes momentos. Churchill não. Não achou graça, e não pode ele ser acusado de ser destituído de sentido de humor. Churchill não gostou dessas coisas concretas, nem foi pragmático. Foi algo muito mais importante, muito menos enunciável, mas não por isso menos essencial. Determinou-se pela decência.

É em conclusão o que são estes ignaros supersticiosos que se atiram para o infinito: indecentes.


Alexandre Brandão da Veiga







2 comentários:

João Wemans disse...

Li com gosto e interesse este texto; embora não partilhe completamente a admiração por Churchill.
Como diz São Paulo : se não tiver Caridade, nada sou,
e (digo eu) nada sei.

o cusco britãnico....... disse...

Engraçado que depois de ter lido e gostado,pensei que Churchill,como quase todos os Ingleses ( que não Britânicos!!!Muita atenção a isso!!! ) são falsos e "vendem" um irmão á mínima dúvida.
Isabel I matou a prima Maria Stuarda,para lhe ficar com o reino da Escócia,por exemplo.Dizia que era católica e falava francés em casa....Logo ela que era filha bastarda de Henrique VIII (e duma rameira),o rei assassino de 6 mulheres e milhares de padres e bispos católicos,creador da nova religião Anglicana simplesmente porque o Papa não o deixava casar com a cunhada.A família real britânica tem um CV admirável.
Nesse momento o que ele Churchil, certamente pensou é que não podia rir do seu próprio Rei Alemão.Toda a gente sabe que a família real britânica é toda alemã e até se falava alemão no Palácio real até á morte da Alemã Rainha Victória,casada com o primo Alemão Albert.Mudaram o nome de família ( apelido ) alemão com vergonha na
1º grande guerra para Windsor,mas isso foi creado,nem havia tal família.Deixaram morrer assassinados os primos Romanoff porque não lhes deram o visto na altura própria para eles fugirem e um etc de barbaridades.
Talvez e só por isso Churchil não se riu...