quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Tagarelice e matemática III

Aristóteles tinha uma admiração especial por Sófocles. Ignoro qual fosse a preferência de Platão. A vida tem paradoxos aparentes e suspeito que tivesse um fraquinho por Aristófanes. O facto é que a multidão tagarela não se comporta como o coro da tragédia. Este expressa-se de modo fundamentado, porque tem a sua vida definida por um papel, uma função, já estabelecidos, e por uma métrica em que o pé limita o desvario incontrolado da expressão, mesmo que não o dos sentimentos. O coro pode nem sempre falar em uníssono, mas exprime-se de forma coordenada. A multidão tagarela que fala no ágora tem certezas absolutas que lhe vem do simples facto de ter direito a falar.

Podemos ir mais fundo. E eis que parece alguém que numa distância de cerca de vinte e três séculos dialogou com Platão. Um imenso matemático, um dos maiores domesticadores do infinito que a História viu. Falo de Cantor. Cantor sintetizou em poucas palavras o que sempre pensei: “a essência da matemática é a liberdade”. É evidente que o afirma com razão, porque sabe, e diz que a física se baseia em pressupostos, que são sempre metafísicos, que a limitam. Na matemática não existe essa limitação. Nem essa, nem a da experiência. Mas a matemática é liberdade também por outra via. É que, por força exactamente da disciplina que impõe, gera resultados bem mais livres que outras ciências. Pensar infinitos maiores que outros, espaços a infinitas dimensões, operações infinitas, por exemplo, disso são feitas as matemáticas. Saber que dois mais dois é verdade de merceeiro, mas não de matemático, que 1 ser menor que 2 não é uma evidência. Eis alguns aspectos da liberdade que a matemática dá, não por ser arbitrária, mas, bem pelo contrário, por ser disciplinada.

Todo o discurso pode ser responsável. E nem sempre o da matemática o foi formalmente. Euler é um dos melhores exemplos disso, Poincaré um pouco menos. Uns matemáticos podem ser mais sensíveis à forma e à fundamentação, outros podem ser menos. Mas em última análise o erro, a insuficiência e a trivialidade vêm ao de cima mais facilmente na matemática. A matemática é assim o paradigma do discurso responsável possível ao ser humano. Se segundo alguns, como Serres, nasceu a demonstração matemática no tribunal, tem a vantagem de estar isenta da distorção pelos interesses. O discurso responsável por excelência surge do desinteresse e da formulação. Deixa visível o resultado e o caminho. E é igualmente julgado por ambos.

Se na Academia não podia entrar quem não soubesse matemática, é porque se queria evitar a tagarelice. Ou seja, a falta de liberdade. A cacofonia em que todos falam ao mesmo tempo em função dos seus interesses, das suas formulações apressadas, das suas inépcias. É preciso saber algo para falar, e é preciso ter um discurso responsável. Só assim existe liberdade.

A limpeza de pele de que carece a democracia é exactamente a matemática, e não é por acaso que os regimes democráticos se mostram tão pouco à vontade com ela. Hoje em dia o prestígio e a visibilidade pública dos matemáticos é bem fraca, bem mais fraca que a que existia nas sociedades menos democráticos de séculos passados. É que a democracia gosta de liberdade de expressão, mas os parasitas gostam da oportunidade de tagarelice nobilitada que esta lhes dá. A impunidade passa a ser legitimação. E gostam da arbitrariedade punitiva que a tagarelice permite. Morre-se por uma frase, mesmo que todas as outras tenham sido profundas e sensatas. Destrói-se uma imagem com um slogan, ou um acto falhado, mesmo quem o fez tenha obra profunda atrás de si. A pequena frase assassina não é o dito de espírito, é o que foi dito sem ele, ou sobretudo sem auditório que o percebesse.

A repulsa de Platão compreende-se assim. Não é tanto o problema de ser o merceeiro a conduzir o povo, mas de querer fazer do Estado uma imensa mercearia, nos modos, na linguagem, na atitude de vida. E com a sua tagarelice confundir o mundo em vez de o iluminar. A sua organização mental é a da estante e da pipa de vinho, e a sua noção de mesura passa apenas pelo produto que não deve transbordar.

O tagarela faz perder tempo de vida aos outros e isso é-lhe indiferente. Esse o seu lado ético. Obscurece os caminhos da verdade. Essa a sua ciência. E parasita os privilégios da democracia, essa a sua forma de nobilitação à falta de outra qualquer.

Falei de Platão e esquece-me de falar da nossa época. Talvez. Deixo ao leitor a tarefa de fazer a transposição que achar mais justa.








Alexandre Brandão da Veiga

3 comentários:

Táxi Pluvioso disse...

Graças a Deus pelos portugueses que unificaram multidão e coro, mas numa comédia. boa semana a todos

vague disse...

Nunca gostei muito da Roma clássica de modos que não percebo as referências mas se estás a falar neles é porque são importantes :)

(hoje fiz anos!)

Hugo Correia disse...

«De entre as enfermidades da alma, umas são perigosas, outras odiosas, outras ainda ridículas. Mas aos tagarelas convêm todos estes atributos: são abominados porque trazem sempre más notícias e atrevem-se ao perigo por não conseguirem calar os seus próprios segredos.»

«Se digo tudo isto, não é simplesmente com o fito de denunciar o vício de falar excessivamente, mas também de o remediar. Só o discernimento de que sejamos capazes de dar prova nos permite ultrapassar os vícios e as afecções da alma. Mas, para arrancarmos dela os vícios, é necessário antes de mais que os abominemos. Começamos a odiá-los quando experimentamos a vergonha e o desgosto que nos causam, tal como quando aprendemos a lição daquele sedutor de belas palavras que, procurando fazer-se amar por meio da tagarelice, acaba ao contrário, por merecer a abominação alheia. Os gracejos que profere causam desagrado e, em vez de lhe trazerem estima, expõem-no ao ridículo. Aborrecem-no os amigos, alia-se aos seus inimigos e arruina-se a si mesmo. Eis por que a primeira receita para corrigir este vício consiste em considerar os inconvenientes e infortúnios que decorrem do discurso imoderado. A segunda é saber renunciar a falar e, logo, aprender a escutar e a ter sempre presente no espírito a imagem majestosa do silêncio. Nunca é demais lembrar quanto amamos e respeitamos aqueles que pouco falam, sempre oportunamente, e em poucas palavras abarcam muita substância, ao contrário desses grandes conversadores cujas línguas não conhecem nenhum freio.»

Plutarco, A tagarelice


«Contradizer e tagarelar sem descanso é mostrar-se incapaz de apreender o essencial.»

Demócrito, Fragmentos


«Aquele que fala em demasia está quase sempre reduzido ao silêncio.»

Lao Tse, Tao te king


De "O Livro da Tranquilidade" _ Apresentação de Olivia Benhamou