quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Da Visão. BPN: um caso de política







1 - Num país civilizado, o caso BPN seria catalogado como um triste caso de polícia. Em Portugal é, acima de tudo, um tristíssimo caso de política. Por muitas e variadas razões. Desde logo porque o caso se politizou na Assembleia da República com o PS, numa decisão que fez infinitamente mais pelo descrédito da Democracia do que as ditatoriais declarações da Dr.ª Ferreira Leite, a bloquear uma audição de Dias Loureiro e a revelar uma indisfarçável falta de entusiasmo com a constituição de uma comissão parlamentar de inquérito sobre o tema. Depois porque, numa eloquente demonstração da politização do modelo, as críticas à supervisão bancária, justas ou injustas, se fizeram com base em claríssimos alinhamentos partidários. Depois ainda porque os protagonistas desta história são quase todos agentes políticos. No activo ou na reforma mas todos com a mesma marca. De tal forma que, com a lista dos fundadores, administradores e membros dos vários órgãos sociais do banco quase se pode conceber um deprimente museu de cera do bloco central (ou um comboio fantasma comemorativo do pior que teve o cavaquismo). Finalmente porque a solução para toda esta embrulhada (refiro-me à nacionalização do banco) foi eminentemente política.
Dificilmente se podia arranjar um melhor «estudo de caso» sobre os males da nossa democracia para leccionar num qualquer mestrado de ciência política. Está lá tudo. Estão lá, bem expostas, as fragilidades da nossa cultura democrática, a falta de profissionalismo e a quase irrelevância de um Parlamento em tempos de maioria absoluta. Está lá o débil funcionamento (ou mesmo o funcionamento de fachada) do liberal princípio da separação de poderes. Estão lá as eternas suspeitas de condicionamento da justiça que parecem explicar o clima de total impunidade com que ainda se pode contar em Portugal. Está lá a enorme promiscuidade entre o domínio do público e do privado e está lá, sobretudo, o insustentável peso do Estado na economia (é particularmente útil afirmá-lo nestes tempos de desbragado saudosismo marxista). Peso esse que tem como corolário lógico o fenómeno da empresarialização dos políticos. Porque numa economia em que é o Estado que tudo decide e tudo condiciona, os políticos actuam como uma espécie de especialistas em Estado e constituem, de facto, perniciosas mais-valias na gestão das grandes empresas. E como se não bastasse, está lá ainda, posta a nu, a enorme fragilidade da sociedade civil. Que explica que assistamos, impávidos, à decisão sem escrutínio de nacionalizar uma instituição que, a fazer fé nos relatos vindos a público, só com muito boa vontade se pode convencionar chamar um banco.
2 – Regresso ainda às polémicas declarações de Manuela Ferreira Leite. Mas não julguem que me junto ao coro de virgens ofendidas que viram nelas o princípio do desabamento do edifício democrático em Portugal. Bem mais perigoso para a democracia do que os desabafos da líder da oposição, é a pulsão demagógica e o virtuosismo hipócrita que anima muitos dos que, no fundo no fundo, gostavam de ver todo e qualquer político ligado, 24 horas por dia, a uma espécie de polígrafo da virtude.

3 comentários:

Sofia Rocha disse...

Pedro, sobre o ponto um, claro que tem razão,concordo com os argumentos aduzidos.
Sobre o ponto dois: dois comentários.
Quanto a MFL, para dizer que provou, com as suas palavras, que a nossa democracia é forte e vigorosa. Se a sua frase arruinou o edifício democrático e e em oito dias ele já está de pé, porque já não se fala do assunto, então se calhar temos de concluir que não houve terramoto algum, só vento e má fé.
Depois, pode dizer-me que é demagógico querer que os políticos sejam mais virtuosos que os demais. Se estivermos a falar da sua vida privada, estamos de acordo.
Agora no que se refere ao desempenho de cargos públicos, discordo. Lidera-se pelo exemplo e os políticos têm de ser os melhores de entre nós, os primeiros a cumprir as leis e dotados de forte sentido ético.
Ninguém vai para a política empurrado, só vai quem quer. É bom que vá com sentido de missão e de serviço. Dir-me-á que é difícil. Pois é. E a vida de milhões de portugueses é o quê?
De uma coisa estou certa: ou começa a haver maior rigor e cumprimento das regras, que atenuem o sentimento de impunidade e clivagem social generalizados reinantes em Portugal, ou um belo dia acordamos com uma surpresa. E não, não são os presentes de Natal.

Diogo Vasconcelos disse...

Post brilhante, parabéns, pedro.

Pedro Norton disse...

Obrigado Sofia e Diogo.