segunda-feira, 1 de setembro de 2008

I. Khomiakov, L'Eglise latine et le Protestantisme au point de vue de l'Eglise d'Orient, Xenia Editions


Impera hoje em dia uma russofobia que é apenas mais uma das formas de ódio à Europa. Querem-se admitir países asiáticos na União europeia quando se esquece ostensivamente o maior país europeu nesta União. A União é Europeia e os adjectivos têm algum significado. A Rússia é um país europeu, com todas as dificuldades que resultam de ser, não meio asiático, mas de ser o maior de todos os países europeus.

As raízes desta russofobia encontram-se em muitas fontes. O apreço das elites intelectuais inglesas, sobretudo anglicanas, foi substituído pelo espírito de merceeiro que rege a Inglaterra sobretudo depois da II Guerra Mundial e por maioria de razão depois da tomada de poder pelos conservadores nos anos 80. Um James Bond nunca surgiria de um espírito aristocrático inglês.

Mas as raízes são bem mais fundas. A oposição entre ocidentais e orientais é assumida tanto por protestantes como por católicos, que no fundo participam do mesmo movimento romano-germânico de formação da Europa, que, sendo o de mais forte impulso, não é o único. A Europa formada com a matriz bizantina (se Bizâncio era ou não Europa deixo para outras núpcias) é aceite ainda hoje em dia por muitos como uma espécie de Europa dos pequeninos, uma Europa adorável na melhor das hipóteses, mas que tem muito que aprender connosco, como se toda a Europa Oriental e Central fosse uniforme, e como s e não tivéssemos nós a aprender com ela.

Que a cultura russa seja uma imensa cultura não tenho dúvidas. Não por ser cultura, o que é trivial. Sempre me pareceu que há culturas desprezíveis, enfadonhas, sem originalidade. Quem gasta a admiração com todos acaba por mostrar apenas que não quer admirar efectivamente ninguém. A cultura russa é admirável, não por ser cultura, mas por não ser trivial no que é e no que nos deu.

Na matemática deu-nos Lobatchevski e Kolgomorov e só por isso já mereceria a minha vénia. Na química Mendeleev e assim o meu respeito. Na música, literatura tantos outros. Mas no pensamento, menos lembrado no Ocidente, embora não tenha criado grandes sistemas filosóficos, ou talvez por isso mesmo, mostrou um realismo, uma capacidade de nos lembrar de dados fundamentais, que lhe dá uma função equivalente à da filosofia inglesa.

Cada um na sua vertente, seja Soloviev, seja o Padre Gagarin, seja Herzen, ou tantos outros, disseram qualquer coisa que nos revela, enquanto ocidentais, como apenas uma parte da Europa. Não é por acaso. A elite russa dominava o francês, o inglês, o alemão, o latim, o grego e o russo. Estava por isso habituada a circular entre as grandes línguas cultas da Europa. A imensidão do seu país estava na medida da imensidão dos seus estudos. Era precisamente a consciência do seu atraso económico e de desenvolvimento como um todo, associado à noção da sua entrada recente (quão recente e quão pouco recente, é questão mais complexa) no concerto europeu que lhe dava a frescura das suas análises, e o realismo das suas críticas.

2 comentários:

joão maurício disse...

Muito obrigado por esta interessante e útil chamada de atenção.
A Inglaterra, nossa marítima aliada, pode-se caricaturar como "nação de piratas"; a Rússia, com a sua dimensão continental e o seu sentido religioso (que acredito não tenha sido completamente destruido por 70 anos de comunismo) poderá vir a ser nossa irmã na edificação de um Quinto Império?

Melhores cumprimentos

João Wemans

Sofia Galvão disse...

Muito a propósito, publicado neste mesmo dia, «Europa paralisada e mutilada», de Eduardo Lourenço, no Público.
A não perder.