domingo, 6 de julho de 2008

Gracias al Ejército mio...

"Gracias al Ejército mío, de mi patria Colombia, gracias por la impecable operación, la operación fue perfecta".
Esta é, sobretudo vinda de quem vem, a frase chave de Ingrid após o resgate. Respondo, por valer mesmo muito a pena, ao post da Inês que elegia “A Dios primero...” como chapéu teológico desta libertação.
Deus, a quem não me atrevo a culpar do rapto, e que na sua imóvel omnipotência ignora a selva colombiana, foi, é e será sempre uma excelsa figura de retórica da humanidade perdida que somos. Deixemos aos humanos o negócio dos humanos e reservemos a Deus o papel de dramatis persona que lhe advém de ser a magnífica criação dos nossos melhores poetas, dos nossos mais bizarros pensadores, dos nossos momentos de mais pungente sofrimento ou de mais destemperada alegria.



La impecable operación, la operación perfecta.

10 comentários:

Gonçalo Pistacchini Moita disse...

Meu caro Manuel
Concordando, segundo creio, com o seu post e com o da Inês, diria apenas duas coisas, acabando com uma pergunta.
A primeira é que talvez possamos dizer que são os nossos melhores poetas que criam Deus e que é Deus que cria os nossos melhores poetas.
A segunda é que o esforço propriamente teológico se segue sempre à poesia, como bem atesta este seu post.
E é neste sentido que vai a minha pergunta: o que entende por omnipotência imóvel?

joão maurício disse...

Não sendo muito entendido nestas coisas, creio que Jesus Cristo é o Senhor da História. Misteriosamente, Deus mete-se nas nossas vidas, no Mundo... também é de "carne e osso" - tal como nós - que somos feitos à sua imagem e semelhança.
Essa "omnipotência imóvel" de que fala talvez seja um sintoma de desespero, ou a tentação de encontrar em nós o que se explica Além.
Do Evangelho de hoje: "Jesus exclamou: «Eu Te bendigo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas verdades aos sábios e inteligentes e as revelaste aos pequeninos.»"
É verdade que muitas vezes andamos longe e sós...
João Wemans

Manuel S. Fonseca disse...

Agradeço os comentários do Gonçalo e do João. Por razões que o Gonçalo compreenderá melhor, só amanhã responderei coma dignidade que os comentários merecem - foi excelente o jantar do blog, de uma convivialidade e amizade exemplares e amanhã é uma daquelas 2ªs feiras em que começarei cedo "a ganhar o pão com o suor do meu rosto".

Inez Dentinho disse...

Querido Manel,
Não vejo em Deus a obrigação de uma súmula aplicada dos Direitos Humanos; um eficaz mediador entre facções políticas e militares distintas; um sistema de Segurança Social eficiente; um Serviço Nacional de Saúde que torne os beneficiários imunes a qualquer bactéria, sofrimento ou morte violenta; ou como o Patriarca de uma Família geradora de bons sentimentos.
Isto é, não vejo em Deus uma entidade obrigada a dar-nos a garantia da Felicidade sob pena de não merecer existir.
Para mim, nos melhores dias, Deus é o Caminho, a Verdade e a Vida. Fez-me livre de O procurar apesar do Mistério; ou de preferir encontrar a resposta numa realidade que não é completa porque tem os dias contados e porque se deixa ver apenas com ilusão óptica.
«A Dios primeiro» - não porque tenha conduzido exemplarmente a operação do Exército colombiano. Mas porque, para Ingrid, terá sido esta procura do caminho, da verdade e da vida que a ajudou a não perder a Fé, a Esperança e a Caridade durante os últimos seis anos.
Uma procura que «almejaria» ter com aquela intensidade.

Manuel S. Fonseca disse...

Separa-me deste três comentários (inteligentes e de inspiração teológica) o ponto de partida. Eu não creio (e estou no domínio da crença) que tenhamos sido criados à imagem e semelhança de Deus. Tenho, por outro lado, a certeza (e aqui já não estou no domínio da crença) de que os Deuses concretos a que a fé da humanidade se dirige (Jesus, Buda, Allah, como antes Zeus ou a bela Vénus) foram, eles sim, criados pelos homens à sua imagem e semelhança. O deus dos cristãos, como o deus do islão, são narrativas literárias . Belíssimas, cruéis, inspiradoras, opressoras. Aos deuses dessas narrativas podemos atribuir-lhes qualidades de omnipotência e omnisciência, mas na verdade, por mais não serem do que projecções poéticas (nos melhores casos, já que às vezes passam a fundamentalistas projecções histéricas), eles não são mais do que a letra imóvel e muda a que me referi no meu post. Não os podemos culpar dos males do mundo, nem da justiça que, por vezes, neste mundo também ocorre. Eles não são mais omnipotentes e omniscientes do que Aquiles na Ilíada ou o Gama nos Lusíadas. Fora do aquário dessas narrativas em que o louvamos, Deus é impotente e tudo ignora.

Gonçalo Pistacchini Moita disse...

Pois é Manuel... Mas porque construímos nós tal aquário? E de onde vem a ágiua que o encheu? E para onde irá ela, se o partirmos? E como construímos nós, que estamos dentro do aquário, a sua parte de fora? E como é que há parte de fora?
Narrativas literárias - estou de acordo. Mas ditas com voz que nos foi dada; a nós, que antes disso somos nada!

Manuel S. Fonseca disse...

Caro Gonçalo, não sei (eu, mas talvez haja quem saiba) responder a pelo menos uma das suas perguntas. Não sei porque é que há parte de fora do aquário. Ou melhor, não sei como é que se dá resposta cosmogónica a um problema da nossa humana linguagem, que é o de passarmos do Nada ao Ser. O que não significa que aceite (mas já aceitei) preencher esse mistério com uma das "narrativas teológicas" à nossa disposição. Hoje, prefiro o turvo mistério, sem apelo nem agravo. Logo eu que, em tudo o resto, prefiro o melodrama à tragédia.

Gonçalo Pistacchini Moita disse...

Manuel, eu não sei responder objectiva e suficientemente a nenhuma das perguntas, o que não quer dizer que não lhes tente dar resposta - subjectiva e limitada. Não sei sequer se alguma vez fomos nada, ou se algum dia conseguiremos a ser. Talvez que a nossa existência se jogue entre o nada e o ser, sendo dessa misteriosa sustentação que as "narrativas literárias" nos vão permitindo dar conta.
Julgo, aliás, que concordamos na afirmação da prevalência do mistério, isto é, de que o nosso falar de Deus não deve nunca pretender substituir o Seu falar imenso, inabarcável. Era este o meu ponto, do qual, porém, nos afastámos. Não creio que a omnipotência de Deus seja imóvel. Acredito, por experiência de fé, que Ele se faz presente e nos ajuda. Nunca, porém, em detrimento da nossa liberdade, da nossa possibilidade de sermos a partir de nós - inclusivamente negando-nos; inclusivamente negando-O.
Este é, hoje e sempre, um dos grandes problemas que nos é dado para pensarmos - para vivermos: como é possível conciliar a intervenção gratuita de um Deus omnipotente com a liberdade humana? E é bom lembrar, neste sentido de aprofundamento da compreensão do mistério, as palavras do actual Papa escritas por ocasião desta última quaresma, lembrando que o amor de Deus não é apenas amor "agápico", isto é, amor de si mesmo, absoluto, desligado, mas, também, amor "erótico", isto é, amor do outro, amor desprotegido e sofredor.
O meu esforço, no entanto, não é, não será nunca, o da sua conversão, mas o da minha - a partir da qual, quem sabe, a sua possa também acontecer.

Manuel S. Fonseca disse...

Gonçalo, estamos conversados. Etimologicamente conversados: ou seja, fizemos juntos um caminho de palavras e de experiências da fé. Acabámos a olhar para o mesmo ilimitado oceano, para as mesmas remotas estrelas. Vemos o mesmo e vemos cada um outra coisa. Valeu a pena, é a isto que eu chamo "cum versare",

Inez Dentinho disse...

E o que gostei de os ouvir!