terça-feira, 1 de julho de 2008

Crónica de Beirute


“I love my country. I love to be back”, exclamava, radiante, uma libanesa de cinquenta e muitos anos, quanto o avião da Midle East Airlines aterrava em Beirute, na terça-feira à noite. Há doze milhões de libaneses na Diáspora e muitos regressam em massa pelo Verão e Natal. Os quatro milhões de habitantes deste pequeno e fascinante País são provavelmente o povo mais reseliente do mundo. “Resilience and progress” era aliás o tema da conferência onde fui orador. Com o Verão e expectativa de estabilidade, a Cidade está mais bonita. As lojas do centro reabriaram, com o levantamento das barracas do Hezbollah erigidas em Dezembro de 2006 em torno do Grand Serail, o palácio do governo. A crise então iniciada teve o seu climax no dia 17 de Maio último, com Beirute a acordar para o pesadelo de uma nova guerra civil. Há um mês, fechados no Sheraton de Doha, a convite do Emir do Qatar, os líderes dos partidos libaneses chegaram a um acordo, pondo fim a um impasse que durava há um ano e meio. No minuto seguinte à desmobilização da “cidade das tendas do Hezbollah, os comerciantes reabriram as lojas do centro. Com a reabertura do Parlamento e a eleição do novo Presidente da República, o Libano passou a ter uma aparência de estabilidade. A negociação das pastas no novo governo é complexa e o ambiente político é já de algum nervosismo. “Despite Doha, Lebanon’s politicians are back to their wicked ways”, escrevia sexta feira em editorial o influente Daily Star

Engarrafamentos à noite, na rua, em plano bairro cristão de Ashrafieh, tão bem fotografado pela Monocole. Criada pelo canadiano Tyler Brûlé (fundador da Wallpaper) a Monocole é provavelmente a mais interessante revista do mundo, e acaba de eleger Beirute como uma das “winning losers cities of the world”, juntamente com Genova, Buenos Aires, Istambul e Phnom Penh


“Há muito tempo que não via tanta vida, não é Sr Vasconcelos?”, dizia-me, com um sorriso, um dos empregados do Phoenicia, quando lhe pedi para trocar de quarto, incomodado pelo música dos casamentos (até Setembro, será um non-stop de casamentos, de tarde à noite!). Que contraste com os dias difíceis da crise de meados de Maio. O lendário Phoenicia fica de fronte para a baía, ao lado do Hotel San George, onde o ex-Primeiro-Ministro Harriri foi assassinado, num acontecimento marcante para a história recente do País do Cedro (na minha primeira visita, em Março de 2007, era ainda visível a enorme cratera, hoje substituída por um monumento). No dia 17 de Maio, toda esta zona estava controlada pelo Hezbollah.

Nessa data, o número de hóspedes diminuíu para 60. Foram todos concentrados na parte de cima do hotel e viveram-se dias difíceis. Um colega meu, Suíço, teve de ser evacuado de madrugada, e fez de carro, por entre vários "check points", a estrada de Damasco – por sinal lindissima – para daí voar para o Dubai.

“The West and the rest”

O ocidente desconhece o mundo árabe, a e a nossa percepção é muitas vezes feita de imagens e preconceitos. O Libano é provavelmente a melhor porta de entrada, a melhor hermenêutica desse mundo. Na era “Al Jaezzira”, é mais fácil perceber e entender esse mundo. Mas é preciso ir lá, não como turista, para ver, cheirar, sentir, compreender.



Os mercados têm destas coisas: na Virgin Megastore de Beirute encontram-se mais filmes e filmes mais interessantes que na Virgin Megastore de Picadilly. Lá havia “Caramel” e “Peresopolis”. Andava há muito há procura do lindíssimo Caramel, espicaçado pela crónica do Manuel Fonseca aqui no Geração de 60. E em Londres, prefiro o teatro ao cinema, pelo que não cheguei a ver o “Peresopolis”, o filme de animação vencedor de Cannes 2007, a autobiografia de Marjane Satrapi's, uma viagem à história do Irão, desde a revolução iraniada aos tempos actuais. Pois encontrei ambos na Virgin da Praça dos Mártires, ao uns metros da imponente Mesquita Mohammad al Amine.

Se ainda não estão, estes titulos vão estar rapidamente disponíveis por cá. Mas o que provavelmente não vão estar são outros filmes “locais” e documentários (“current affairs”) sobre o mundo árabe, que enchem prateleiras infindáveis naquela megastore. É o caso dos DVDs como “Arabs and Terrorism” ou “The War of Labanon”, um DVD que envolveu dois anos de fimagens com todos os intervenientes nos conflitos libaneses. Feitos, o primeiro, de forma voluntarista (“laptop diplomacy”) , o segundo, com os meios e o profissionalismo típicos da Al Jazeera. Ou ainda obras cinematográficas como “Divine Intervention”, de Ellia Suleiman, melhor filme estrangeiro de Cannes 2002 e “Bosta” (autocarro, em árabe), o grande êxito popular de Philippe Aractingi



A nossa televisão passa uma versão demasiado simples de um mundo complexo. “West” versus “the rest”, como diz Robert Fisk, esse repórter “bigger than life”, baseado em Beirute, correspondente do Independent no Médio Oriente e autor dos mais completos livros sobre a história contemporânea desta região. Para quem quiser começar recomendo “a biblia”, “The Great War of Civilization” que começa com as peripécias deliciossas da primeira entrevista feita a Bin Laden, nas montanhas afgãs, era este ainda um “Mujahadim” (“lutador pela liberdade”) .

Seria excelente se as TV’s portuguesas passassem este tipo de produções. Em matéria de conteúdos internacionais, temos o “60 minutos” e pouco mais. É certo que exibem óptimos documentários (“a excelência do jornalismo”, proclama Mário Crespo), mas convenhamos que é um versão limitada do mundo.

4 comentários:

Gonçalo Pistacchini Moita disse...

Diogo
Sou daqueles que só conhece essas paragens pelas reportagens dos telejornais, pelo que foi uma agradável surpresa esta sua descrição. Obrigado.
Quanto à música dos cassamentos a entrar pelos quartos de hotel a dentro, porém, e sendo sem dúvida melhor do que o barulho das bombas, já me calhou disso em Braga e é absolutamente desesperante. Espero que lhe tenham mudado o quarto.

seteluas disse...

Viva Diogo!

Excelente estreia. Beirute sera sem duvida um dos meus proximos destinos de ferias. Um pais extremamente inovador e para alem disso com alguns dos mais fantasticos costureiros do mundo ;-).
Quanto a melhor revista do mundo.... ainda nao estou convencida:...

Horácio disse...

Bom retrato da antiga “Suíça do oriente”. Não percas o “Peresopolis”, trata – se de uma pequena pérola.

Manuel S. Fonseca disse...

Vamos lá depressa dar a Deus o que é de Deus. Quem falou, e falou bem, do Caramel foi o João Luis Ferreira e não eu. Deve-lhe o Diogo e devemos-lhe todos essa dica.
Ficamos agora a dever ao Diogo uma das crónicas mais optimistas e mais cheias de amor por uma cidade e pelo seu povo já escritas na Geração de 60. São "two shots of happy" muito bem medidos. Eu levanto-lhe a minha flute.