quarta-feira, 28 de maio de 2008

Simplesemente grotesco




No recente terramoto de Sichuan terão perdido a vida mais de 65.000 pessoas. De entre estes, estima-se que cerca de 10.000 fossem crianças. Razão pela qual a comissão de planeamento provincial daquela região resolveu autorizar as famílias que tenham perdido filhos a «conceber» um segundo (abrindo assim uma excepção à regra geral de «uma família, um filho»).
Não tenho sequer comentários para este horror «burocrático». É o planeamento socialista levado a um absurdo que ofende. É simplesmente grotesco.

5 comentários:

Helder Figueiredo disse...

Tenho 4 filhos, e escolhi tê-los.
Também me choca este tipo de realidade que desejava que não houvesse. Um filho não substitui outro, cada um é por si próprio.
Às vezes penso que o Mundo ensadeceu de vez... e de repente chegam sinais de que ensadeceu mesmo

Gonçalo Pistacchini Moita disse...

Meu caro Pedro
É de facto chocante essa planificação chinesa indo até ao íntimo da realidade familiar. E, no entanto, a média de filhos dos homens livres ocidentais anda muito próxima da dos oprimidos cidadãos asiáticos. E a minha pergunta é (reconheço que provocadora): Não será a nossa liberdade, tal como a dos chineses, planificada, ainda que com outras formas e com muito maiores subtilezas?

Sofia Rocha disse...

Percebo o choque do Pedro, que é o meu. Tem razão o Gonçalo quando fala das subtilezas que nos empurram para o filho único. Qualquer mulher com ambição de ter uma carreira profissional bem sucedida ( sobretudo no sector privado) já foi confrontada com a questão...

Manuel Rocha disse...

Vocês estão cobertos de razão...mas que deve fazer a governança quando se depara com uma população em progressão geométrica e os recursos em progressão aritmética, estagnados ou mesmo em regressão ? Esperar que "sudanize" ?

Manuel S. Fonseca disse...

Com o Pedro, e sem entrar em grandes intimidades a que sempre nos esquivámos, estou certo de partilhar duas coisas: o mesmo gosto por um certo tipo de humor, a mesma decente compaixão pelo sofrimento alheio. É por isso que comungando do horror pelo absurdo que o Pedro relata, me parece irrelevante qualificá-lo ideologicamente. Nem creio que o problema da China, nos dias que correm seja o de uma prática política genuinamente socialista.
Há um pragmatismo na política chinesa que muitos autoritarismos à esquerda e à direita não desdenhariam.
E há também uma expectativa dos resultados da China do futuro de que as democracias e os liberalismos querem ser cúmplices privilegiados, custe o que custar. Salvaguardo, por pudor, neste último caso, a expressão "terramotos incluídos".
Este comentário saíu-me desalmadamente pessimista, mas é o que dá sermos, como dizia o poeta Jorge de Sena, "Gloriosos, virtuosos, geniais, / mas burros, sacanas, surdos, parvos" e ainda assim "mais que humanidade mal lavada".