quarta-feira, 2 de abril de 2008

Um país às esquerdas

Esta semana o “Economist” refere-se a um estudo em que se conclui que nos EUA, nos últimos 35 anos, há uma forte ligação entre ser-se de direita e ser-se feliz. O estudo parece ter todos os predicados, com análise de efeitos de causalidade, correlação espúria, utilizando variáveis de controlo e outras coisas raras. Pelo menos é isso que diz ou parece dizer a noticia. Os “conservative” vão mais à igreja, estão mais casados e têm visões mais positivas do mundo e isso torna-os mais felizes. Os “liberal” são uns pessimistas, com visões negativas do mundo e menos ligados à vida social. O estudo não me é muito favorável, pois se fosse americano dos EUA seria classificado como “liberal” (até por razões ligadas à economia pois os “conservative” são proteccionistas). Mas isso não interessa aqui, até porque sou muito optimista. Mas quando vemos o espírito negativo de muitas análises sobre Portugal, apetece concluir por extrapolação que este é um país às esquerdas. E isso ainda tem uma ulterior base de suporte. É que os pessimistas têm muitas vezes sugestões de cura, as quais implicam a maior parte das vezes, implicita ou explicitamente, a intervenção de algum agente externo, o que revela uma falta de crença na força dos indivíduos em escolher o que é melhor para eles.

PS: este post foi escrito antes de ler o do M A Figueiredo. Se calhar estão relacionados.

6 comentários:

Nuno Gouveia disse...

Caro Pedro Lains,

Corrija-me se estiver errado, mas não são os "liberals" americanos que são contra a Nafta e os acordos de comércio livre? A política económica dos "fiscal conservatives", não seria aqui na Europa denominada ultra-liberal?

Cumprimentos,

Manuel S. Fonseca disse...

Frequentei as casinhas da esquerda o bastante para dizer que muitas vezes paira por ali, entre a salinha de estar e o caótico quarto, uma enorme dificuldade para se conviver com a beleza e, sobretudo, com a felicidade.

Em muito avarandado de direita pode até acontecer que na piscina se dispa tudo mas, com alguma frequência, o preconceito e a rigidez na relação com o “outro” são mais inamovíveis do que os muros de um castelo.

E, no entanto, como disse o poeta:

“A vida é bela, sem dúvida:
sobretudo por não termos outra,
e sempre supormos que amanhã se entrega
o corpo que já ontem desejávamos.”

Jorge de Sena, Exorcismos

Alvaro Santos Pereira disse...

Pedro,

Concordo contigo. Um dos problemas que os radicais de esquerda têm é o seu pessimismo inato, a sua insatisfação permanente, as suas reclamações constantes.
Se chove é porque chove. Se o céu está azul é porque podia estar mais azul. Se o crescimento económico acontece é porque não crescemos mais ou porque os ricos continuam ricos.

Durante décadas, a esquerda mais militante tornou-me mais e mais militante, mais azeda, mais pessimista. E sem razão. O mundo nunca teve tanto desenvolvimento, nunca se reduziu tanto as taxas de pobreza, nunca houve tanta esperança do milagre económico do desenvolvimento se espalhar para todas as partes do mundo. Há muito por fazer, mas vivemos tempos de esperança.
O azedume da esquerda militante é anacrónico e desfasado. É exactamente por isso que a candidatura de Barack Obama é tão importante. Porque, exactamente, consegue demonstrar que ser-se de esquerda não significa ser-se um desesperançado. Como ele, diz, é preciso ter a audácia da esperança.

Abraço
Alvaro

João Luís Ferreira disse...

Parece-me anacrónico falar de esquerda e direita em matéria moral. O dia-a-dia desmente-o. Parece-me que é uma discussão alimentada por uma certa esquerda que se recria e se idealiza fora de qualquer realidade. Esta ideia serôdia de haver uma superioridade moral e cultural da esquerda é patético. Como a ideia de que a direita é conservadora e patrimonialista, passe o neologismo abusivo, não tem já qualquer sustento. Quando passar mais uma geração será assunto com que ninguém perder um minuto que seja. Por enquanto continuam a ser dois anacronismos que se alimentam entre si. E parece-me que os que se dizem da esquerda estão mais preocupados que os que se dizem da direita em alimentar esta distinção de que sempre se nutriram para se justificaram. Talvez, até, a direita seja uma invenção da esquerda.

Pedro Lains disse...

Caro Nuno: O NAFTA foi iniciado por George Bush e assinado por Bill Clinton e acabou por passar nos 2 parlamentos com votações divididas entre os 2 partidos, isso quando os republicanos eram menos radicais. O novo Bush parou-o, tanto quanto eu saiba. Os "fiscal conservatives" são responsáveis pelo regresso ao défice público com que Clinton tinha acabado. Mas tem um bocado de razão pois eu forcei a nota. A divisão entre proteccionistas e free traders nos EUA passa também por interesses regionais ligados aos sectores que mais sofrem ou beneficiam com uma coisa ou outra.

Caro Manuel e Álvaro: obrigado pelos comentários.

Caro João: nunca cheguei a perceber porque é que as pessoas negam a divisão entre esquerda e direita, sendo como é uma divisão com raízes históricas que remontam ao início do parlamentarismo. Para mim é um facto histórico e nada mais. Já passou pelo menos por 10 gerações e vai continuar pelo menos por mais, digamos, 5?

Abraços

Cândida disse...

desculpa lá mas a política k se foda!