terça-feira, 1 de abril de 2008

Revolução Social

A TESE, uma ONG liderada pelo João Meneses, quer surpreender-nos com o primeiro Congresso de Inovação Social organizado em Portugal. Vai conseguir, e somando o entusiasmo com que se espera esta data à feliz coincidência do blogue fazer anos, fale-se um pouco de relevância social. Melhor dito: de política social. Não para festejar o congresso ou celebrar o aniversário, mas para discutir o conceito. Por uma razão relevante neste espaço: a política social divide quase sempre esquerda e direita. Em seis ideias chave, tento resumir o assunto... e responder aos comentários ao meu último post (apesar de fora de tempo, confesso que bem tentei responder logo na altura, mas a informática menteve-me longe do diálogo todo este tempo)...

Primeiro: políticas sociais são ferramentas que procuram gerar respostas eficazes a necessidades concretas de pessoas ou grupos de pessoas. Ou seja, essas políticas são tanto mais eficazes quanto mais capacidade revelarem para produzir alterações sociais que resolvam essas necessidades.
Segundo: A grande revolução social que se seguiu à II grande Guerra não se explica apenas pela ideias iluminadas de alguns ideólogos da esquerda. Resume-se à constatação real de que, com os recursos acumulados à época, era tecnicamente possível declarar que nenhuma pessoa do mundo teria de viver pobre. E essa constatação não deu apenas gás à dinâmica social dos anos 60. Ela elevou a esquerda ao estatuto de doutrina visionária. Nesse mesmo momento, recorde-se, a direita insistia em modelos assistencialistas focados na suavização da pobreza que, é fácil ver hoje, pouco valiam ao lado de uma doutrina que prometia alterar o estado de coisas. Que oferecia a revolução e a mobilidade social através de ferramentas empenhadas em redistribuir essa tal riqueza que, bem dividida, era suficiente para que ninguém fosse pobre.
Terceiro: Os excessos dessas boas intenções não se fizeram esperar, e surgiram logo ali homens capazes de contestar essas ferramentas bondosas com o argumento de que elas privavam de liberdade um grande número de pessoas. Esse facto estava, igualmente, à vista de todos. E aqui surge o argumento: nesse exacto instante em que, por exemplo, Hayek e William Wilson se degladiavam ideologicamente, a política social ficou cunhada de património da esquerda. Na verdade, de um mau património em que esquerda teimosamente insistia contra uma mais natural defesa da liberdade individual e do mérito de cada um.
Quarto: Sucede que essa teimosia da esquerda - somada a esse ângulo muito reduzido da argumentação da direita - não resolviam o essencial. Muita gente em todo o lado e a cada momento precisava - e precisa ainda - de gatilhos que as empurrem para fora das situações frágeis em que se encontram. Isto é, nem a esquerda de Rawls nem a direita de Berlin resolveram o problema essencial - como retirar pessoas da pobreza sem travar liberdades individuais. Ou seja, que novas ferramentas seriam essas que, simultaneamente, geravam mudanças sociais forte e duradouras sem impedir a liberdade de ninguém? A resposta não demorou: a fusão das ideologias. Não é sacrilégio: foi assim mesmo que aconteceu, e disso falava eu no tal post "Que bom esquerda e direita serem parecidas".
Quinto: Na verdade, não se verificou nenhuma fusão real. O que aconteceu foi que surgiram alguns raciocínios menos preocupados com as fronteiras (até aí tradicionais) entre esquerda e direita e mais concentrados em produzir políticas sociais que produzissem de facto essas mudanças. E muitas delas não eram de esquerda nem de direita - eram apenas eficazes. E isso não significava, como se escreveu em alguns dos comentários a esse meu post, que estivessem a submeter-se a qualquer cálculo eleitoralista. Elas estavam apenas em busca de soluções capazes de produzir mudanças sociais, viessem elas da esquerda ou da direita. E é aqui que entra o NEXTREV, o Congresso da inovação social.
Sexto e último: O Congresso não é de esquerda nem de direita - ele responde a um apelo mais amplo que tem sido liderado por um britânico com nome de rock star: Geoff Mulgan, que preside a uma instituição também com nome de festival: Young Foundation. Mas a música de Mulgan é forte: ele foi conselheiro político de Tony Blair em Downing Street, como antes tinha sido consultor em inovação social do então membro do parlamento Gordon Brown. Ele foi próximo de um génio da teoria social (Julian le Grand) que nunca quis saber se as suas ideias sociais eram de esquerda ou de direita - preocupou-se apenas em produzir ferramentas que funcionassem. Que retirassem os pobres da pobreza, os iletrados do analfabetismo, as crianças da violência, os doentes da morte. O desafio que este congresso nos lança é esse: usar a inovação para descobrir as novas ferramentas sociais que funcionam. E por isso é bom quando direita e esquerda se aproximam - sem isso, nunca se falaria de inovação social. Ainda estaríamos a aqui a discutir um congresso que falaria em direitos universais de uma qualquer constituição..
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3 comentários:

Pedro Lains disse...

Quando pensamos quão antiga é politica social na Europa (Poor laws em Inglaterra, Bismarck na Alemanha), mais razão damos a este post.

Manuel S. Fonseca disse...

Martim,
A lucidez e a lógica do post merecem louvor e saudação. Há um ponto da argumentação que me interessa particularmente, e cito: “Isto é, nem a esquerda de Rawls nem a direita de Berlin resolveram o problema essencial - como retirar pessoas da pobreza sem travar liberdades individuais.”
Concordando, acrescentaria que a velha dicotomia está enferrujada. Por exemplo, no Brasil, na belíssima cidade do Rio, o que retira a liberdade a muito brasileiros (alguns riquíssimos, mas vivendo em pânico diário) não é a existência, mas sim a ausência de “políticas sociais”. Será que a existência de um conjunto de políticas sociais de esquerda teria suavizado a abissal diferença social, evitando assim o alto grau de violência urbana e o medo permanente inscrito no inconsciente colectivo? É ou não verdade que a prossecução de políticas que negligenciaram a intervenção social fechou um significativo conjunto de cidadãos em condomínios vigiados por metralhadoras e cercados às vezes por arame farpado? Ou seja, não foi a tentativa de retirar pessoas da pobreza que limitou as liberdades individuais, mas sim o contrário. Venha de lá esse Congresso.

Pedro Lains disse...

No outro dia ouvi Lula na televisão a passear por uma favela do Rio, e dizia: temos de trazer o Estado para aqui, para acabar com esta situação de pobreza e banditismo. Tal qual Fontes Pereira de Melo terá dito relativamente ao Algarve dos anos 1860, onde ainda reinavam bandos armados. Moral da história: primeiro passa-se anos a dar mais Estado e depois anos a tirá-lo. Não se pode dizer que não haja com que nos entretermos.