quarta-feira, 23 de abril de 2008

Cuidado com a tolerância...



Há pouco mais de 500 anos, no dia 19 de Abril de 1506, alguém afirmou ter visto o rosto de Cristo iluminado sobre um dos altares da igreja do Convento de São Domingos, em Lisboa (ao lado do actual Teatro D. Maria II), o que foi imediatamente interpretado como sendo um sinal da misericórdia divina anunciando aos crentes o fim de um longo período de pestes e de seca.
Ao seu lado, porém, alguém perguntou, prudente, ou incrédulo, se não poderia talvez tratar-se de um simples reflexo de sol... Mas logo se arrependeu de tal pergunta, pois que, rapidamente identificado como sendo um cristão-novo, foi imediatamente agredido pela multidão que, descontrolada, o espancou até à morte.
A inflamada promessa de 100 dias de indulgências a quem matasse os hereges, ali então feita por um padre dominicano, libertou irremediavelmente a fúria da multidão que, nos três dias que se seguiram, nessa triste semana santa, percorreu a cidade agredindo, roubando, violando e matando cerca de 3.000 presumíveis judeus (os quais, desde 1497, se vinham “convertendo” ao cristianismo).
Só o envio das tropas reais entretanto determinado por D. Manuel, que não se encontrava em Lisboa, conseguiu pôr cobro aos tumultos, tendo-se depois punido os responsáveis, confiscado os seus bens, condenado à morte o dito padre dominicano e encerrado o Convento durante alguns anos.
Foi por ocasião dos 500 anos deste terrível acontecimento que a Comunidade Israelita de Lisboa, em 2006, propôs à Cãmara Municipal a colocação, no mesmo largo de São Domingos, de um memorial evocativo da chamada “matança da Páscoa”. A Igreja católica imediatamente se associou a esta proposta, manifestando o desejo de juntar-lhe um outro memorial, nomeadamente do gesto de "purificação da memória" e de reconciliação naquele mesmo local deixado, no ano 2000, por D. José Policarpo.
Estando ambas as comunidades de acordo, foram entregues os respectivos projectos na Câmara Municipal de Lisboa, então presidida por Carmona Rodrigues, mas as propostas não tiveram qualquer seguimento (vá-se lá saber porquê...), até ao momento em que a actual presidência da Câmara, tendo tido conhecimento delas, unanimemente se associou à iniciativa, à qual quis juntar uma placa alusiva ao acontecimento e um mural que propõe Lisboa como cidade da tolerância.
Foi assim inaugurado, ontem, no largo de São Domingos, em Lisboa, o Memorial às Vítimas da Intolerância, evocativo do massacre judaico de 1506. A cerimónia foi presidida pelo presidente da Câmara Municipal de Lisboa, António Costa, pelo Cardeal-Patriarca de Lisboa, D. José Policarpo, e pelo Rabino da Comunidade Judaica de Lisboa, Eliezer Shai Di Martino, que podem ver-se na fotografia, acima, simbolicamente soltando algumas pombas da paz. A eles se juntaram representantes das diferentes comunidades religiosas e de imigrantes da cidade, como mais detalhadamente se poderá ver aqui, aqui e aqui.
A propósito desta “tolerância”, porém, de que Lisboa ali quer ser sinal, é bom notar que aquelas pombas da paz (aliás representadas no memorial católico por referência à arca de Noé, que tanto na tradição judaica, como na cristã, mostra toda a humanidade como sendo uma só família), surgem, hoje, em Lisboa, como verdadeiros cavalos de Troia.
De facto, desde a reconstrução de Lisboa iniciada pelo Marquês de Pombal, todos os sinais da vida religiosa têm vindo a ser sistematicamente afastados para as ruas secundárias e menos “iluminadas” da cidade. Aqueles memoriais, assim, são agora o único elemento religioso visível no eixo central que vai do Terreiro do Paço à Avenida da República. Essa é também a sua importância.
A lógica moderna, de facto, é a do totalitarismo do exterior sobre o interior, do objectivo sobre o subjectivo, do público sobre o privado. Sendo isto tantas vezes dito, porém, o facto é que eu nunca tinha dado conta desta inexistência de qualquer “publicidade” religiosa no centro da vida da cidade. A inexistência, na verdade, tem esse efeito – não se vê. E não se vendo é fácil fingir-se que se tolera. A verdade, porém, é outra: não se vê justamente porque não se tolera.
É por isso que este primeiro sinal de uma existência religiosa que a Igreja católica conseguiu firmar neste eixo público central da cidade de Lisboa (várias vezes tentado, sem êxito, ao longo dos últimos, pelo menos, cem anos), tem um duplo teor negativo, à maneira do cavalo de Troia: se ali entrou, em primeiro lugar, foi por ter sido proposto por uma comunidade religiosa que não a católica; se ali entrou, em segundo lugar, foi por lembrar actos de intolerância, os quais, de um modo geral, continuam a querer atribuir-se à existência religiosa – e sobretudo à católica – no espaço público.
O facto, porém, é que entrou, pela sábia mão de D. José Policarpo que, tal como Ulisses, soube imaginar outras formas para a resolução do conflito. E este, creio-o bem, é um verdadeiro sinal dos tempos. Nos próximos 200 anos, se não me engano, veremos as comunidades “locais” serem de novo impregnadas, no seu seio, por um espírito religioso com o qual terão de saber abertamente conviver. Para tal, no entanto, terá de ser vencida a intolerância que, em nome de um homem-deus, há muito que não permite que, em público, expressemos profundamente as nossas convições.

2 comentários:

joão maurício disse...

Muito bem!
Diz aqui, de forma sucinta e ponderada, muitas verdades de que andamos fugidos.
No que respeita aos tristes acontecimentos de há 500 anos, faz bem em lembrar que os autores da barbárie foram castigados de facto - em tempos mais recentes não tem acontecido a outros criminosos, cujos muitos ainda "andam por aí" ou são lembrados com saudade pelas várias "inteligentsia" fazedoras de opinião.

João Wemans

Inez Dentinho disse...

Esta vontade expressa de marcar actos de intolerância no espaço público é uma forma de denegrir a Igreja Católica.
Não o podendo fazer no presente - a quem o País, o Estado e os mais fragilizados devem a sobrevivência - rebusca-se no passado, nem que tenha sido há cinco séculos, nem que os autores tenham sido devidamente penalisados, nem que o Papa João Paulo II já tenha pedido perdão por todas as perseguições religiosas levadas a cabo pelos Católicos.
Aparentemente, o espaço público serve para «não deixar esquecer» o que correu mal em vez de evocar exemplos, homenagear contributos inestimáveis ou simbolizar a gratidão pelos serviços que o Estado ñão sabe, não pode, nem faz - apesar de os proclamar como seus na Constituição da República Portuguesa.
Não quero branquear a História. Todos sabemos que Inquisição foi a forma violenta mas embrionária do futuro poder judicial com a desejada instauração de processos, organização da defesa etc. Antes disso, a Justiça directa, feudal ou popular. Não considero esta violência necessária. Pelo contrário. Mas há que enquadrar os assuntos e procurar a memória inteira.
Que tal um monumento às perseguições de hoje nos territórios da Palestina?