terça-feira, 11 de março de 2008

educação e estatísticas

O Pedro Lains lembrou - e bem - que basta olhar para as estatísticas da educação para verificar que, trinta anos depois, estamos melhor. É verdade. Mas creio que o ponto não é esse. O ponto não é apenas onde estamos, mas outrossim onde poderíamos e deveríamos estar. E a esse propósito, estou convicto de que as estatísticas - pelo menos as que medem a democratização do ensino, a frequência e a disseminação dos graus- não ajudam muito.
É fácil atingir os 100% de escolaridade, se se exigir tão-só a presença física. É fácil completar o básico se não houver nunca reprovações e se se reconhecer a experiência de vida como qualificação automática.
O problema é ter quase 100% a saber ler, escrever e contar. O problema é ser capaz de criar uma classe média do conhecimento. O problema é dotar aqueles que têm menos apetências teóricas ou académicas de instrumentos profissionais úteis. E isso não se mede nas estatísticas. Pelo menos naquelas que tomam como referência as taxas de abandono ou os graus de escolaridade. Só nos rankings que medem o domínio da matemática, da língua materna, da língua estrangeira é que pode comparar-se. E aí Portugal está mal, muito mal. E não se vêem medidas para melhorar. Mais graus não significam mais conhecimento. Mais alunos não significa mais competência. As estatísticas, já se sabe, também servem para disfarçar aquilo que, hoje, nos primeiros anos da faculdade, nas caixas de supermercado, nas viagens de táxi e nas avarias domésticas se revela e documenta ostensivamente. Um país à beira do analfabetismo funcional.

E aqui o desenvolvimento.

2 comentários:

Pedro Lains disse...

Caro Paulo (que também saúdo):

Precisamente. Não podemos deixar que os actuais problemas ofusquem os avanços do passado, assim como não podemos deixar que os avanços do passado ofusquem os actuais problemas.

Tal constatação não é fútil. Com efeito, a análise da actual situação leva a conclusões de um tipo se tivermos em consideração o facto de ela assentar sobre uma fase de expansão do sistema educativo. Se estivéssemos tão mal como estamos num sistema consolidado, o diagnóstico tinha de ser pior.

Este tipo de considerações tem ainda mais extensões, sendo a mais importante relativa ao argumento de que Portugal “gasta” tanto em educação, em percentagem do PIB, quanto o resto da OCDE, o que é certo. Todavia, como esse investimento tem uma história de 50 ou 60 anos (sim, remonta à década de 1940 e ao Estado Novo), os valores acumulados em capital físico (boas escolas, ginásios, bibliotecas) humano (bons professores) ou institucional (boas avaliações), são menores. Cada aluno português tem uma dotação de cada uma destas formas de capital muito inferior a cada aluno sueco. Portugal precisa de investir na educação acima da média.

Reconhecer o que acima se diz não quer dizer que se defenda despejar dinheiro sobre a educação, pois é preciso ter em atenção a capacidade de absorção do sistema, a qual depende da história passada, etc., etc., etc.

sofia rocha disse...

Concordo com a opinião expressa de Paulo Rangel relativamente ao papel das estatísticas. O que estas escondem é que temos um país em que existem boas escolas públicas e privadas em Lisboa e no Porto ( Coimbra ainda vai fazendo figura para estes efeitos) e é só. Nisto, como no resto, andamos a duas velocidades. Temos algumas ilhas de excelência e o resto é o imenso mar salgado. Somos mais, muito mais, a frequentar o ensino, mas tenho dúvidas se seremos melhores. Penso que se tentou um certo "nivelamento médio" que deu o resultado que está à vista. Mas não foi só com a educação. Não é exactamente o mesmo princípio que foi aplicado ao acesso à saude, por exemplo? Ou seja, o velhinho princípio do acesso gratuito e universal a estes bens. Por mais que nos custe, talvez seja o momento de concluirmos de que não há gratuidade que chegue para tanta universalidade...