domingo, 10 de fevereiro de 2008

Prémio Avestruz 2008: Parte 1

João Botelho deu mais uma das suas essenciais entrevistas para o futuro da Humanidade, desta vez no "Expresso". A propósito da "director´s cut" que ultima para "Corrupção" (há alguém que não dilate as pupilas com o frémito da antecipação?), resolveu conceder-nos o privilégio dos seguintes pensamentos:

- "(em Portugal), a pressão do mercado não existe". Para ele, que é alimentado a colher de prata fundida pelas expectativas de uns milhões de desgraçados que não reconhecem - pobres abéculas - a deificação do seu imenso talento. E continua: "Esse é o nosso privilégio, aquilo que nos deixa valorizar a contemplação em detrimento da acção, aproximarmo-nos das artes puras e fazermos filmes mais marcados pela poesia do que pela prosa, numa abstraçção que é só nossa". Raro ouvir palavras tão exactas: o privilégio é, de facto, dele - a dor é que é geral, e pública - e a abstracção tão sublime que ninguém a alcança (excepto um redactor do "Positif", dois estagiários do BFI e um par de críticos do dito "Expresso").
Há mais:

- "Nunca filmei uma cena de sexo para excitar adolescentes, filmei-a para fazer vomitar adultos". Primeiro: é assim tão terrível fazer uma cena de sexo para excitar adolescentes? (Se o senhor João Botelho reentrar na sua biblioteca mental, irá constatar que todo o cinema é, em certa medida, feito para excitar adolescentes, pelo menos desde o início dos anos 50). Quanto ao fazer vomitar adultos, é uma auto-avaliação demasiado intrigante para ser comentada.

- Mas não terminou: avisa que o seu próximo filme "A Corte do Norte", uma adaptação da obra homónima de Agustina Bessa-Luís, "está para a Madeira como o 'Mau Tempo no Canal' está para os Açores". Novas palavras para quê? É um artista português.


1 comentários:

Pedro Lains disse...

O que mais me espanta é a capacidade de sobrevivência desta espécie. Nisso ela mostra de facto génio.