segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

Ainda Portugal, o Mar ainda Nosso e a Traição dos Políticos (ainda nossos?)

Santana Lopes teve mais uma oportunidade de ouro para mostrar a fibra de que é feito, para mostrar não ser um político como todos os outros, para estar à altura do sonho de si mesmo. Santana Lopes, uma vez mais, a todos desiludiu. Não sabemos se a si mesmo se desiludiu, mas a nós, a todos aqueles que ainda tinham uma réstia de esperança que sempre fosse afinal de si mesmo sempre fez crer, desiludiu profundamente, terrivelmente, irremissivelmente.






Allan Sekula (1998-2000)


No Parlamento, sobre a famigerada questão da ratificação do ainda designado Tratado de Lisboa, as afirmações de Santana Lopes foram de uma pobreza confrangedora. Não por ter vindo agora negar quanto havia anteriormente houvera defendido no que respeita ao referendo ao respectivo Tratado mas por não ter sabido compreender e distinguir quanto é do interesse de Portugal e quanto é apenas do interesse conjuntural de um conjunto de políticos europeus actuais. Não, não são os sofismas no que respeita ao referendo que é significativo. Significativo é não ter sabido elevar-se à condição de verdadeiro político e, considerando os verdadeiros interesses de Portugal, espezinhados no Tratado, não apenas no que respeita à via Federalista impulsionada, mas, sobretudo e bem mais grave, no que respeita à vergonhosa cedência dos nossos direitos soberanos sobre a nossa Zona Económica Exclusiva, tivesse tido a coragem, para não dizer já a sabedoria, de se manifestar inequivocamente contra. Independentemente da forma de ratificação, por referendo ou parlamentar, independentemente dos pequenos interesses partidários, quanto se esperava, quanto se podia esperar, era ouvir a palavra de um Político que, analisando, avaliando e ponderando os interesses de Portugal acima de todos os demais, como verdadeiro Português, repudiando, sem temor nem hesitação, sem sofismas nem falsas reverências, o mesmo tratado. Afinal, nada disso. Afinal, como notou Vasco Pulido Valente, o «menino guerreiro» cresceu. Cresceu e já não se distingue do mais vulgar dos políticos.

Entretanto, ao Presidente da República, depois de todas as muito celebradas iniciativas sobre o Mar, ao Tratado e ao esbulho dos nossos direitos soberanos sobre a nossa ZEE, à muito justa e oportuna homenagem ao Rei D. Carlos e à sua paixão pelo mesmo Mar, não se houve senão, como soe dizer-se, um ensurdecedor silêncio. Ao Presidente da República, a quem cumpria o dever de defender, por inerência e razão de ser, quanto é de todos, de todos os portugueses, quando nenhum português, de per si, isoladamente, possibilidade tem de o defender, retira-se para o seu belo Palácio de Belém e todos ignora. Pouco importa quem clame contra tal enormidade, pouco importa a voz dos pescadores portugueses (cf. DE 08/01/08), pouco importa a voz seja de quem for. Convergência estratégica oblige, ou seja lá o que for, tudo resvala, aparentemente, na couraça da mais pura indiferença pelos interesses nacionais. Sem uma explicação, sequer. Talvez porque quem clama contra tal consideração alguma mereça, talvez porque a traição não se explica, executa-se. Seca e abruptamente, sem mais.
Allan Sekula (1998-2000)
Mas somos portugueses, i.e., homens de esperança e, por consequência, como homens de esperança, sabendo que o Presidente da República tudo isto sabe também, esperança temos ainda de virmos a ouvir uma última palavra sua que ilumine o triste crepúsculo em que nos encontramos, refutando quanto suposto está em epígrafe.
Mas, senão viermos a ouvir...


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