quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

A música da eternidade

“Não havia escola, nem cinema, nem teatro”. Xavier Camps e os amigos, protegidos pela impunidade dos 15 anos, acorreram aos Jardinets de Gràcia, em Barcelona, para ver o avião alemão que, abatido, se oferecia como espectáculo de bairro. Corria o ano de 1939 e a Guerra Civil, de Franco e republicanos, voara já, e em piloto automático, para o fim mítico e shakespeareno. Xavier e os amigos buscavam aventura e a palpável proximidade com as “metralhadoras, balas e bombas” que na sua imaginação enchiam a carlinga do alado monstro germânico.
Coincidiram, nesse dia, nessa hora, com a câmara de Robert Capa que sobre eles disparou com suavidade e discrição, ferindo-os para a eternidade.
As fotos de Capa estiveram perdidas 69 dúbios anos. Guardou-as com nobre reserva o general mexicano Francisco Javier Aguilar González. Descobertas agora e apresentadas pelo “NY Times” e pelo “El Periódico de Catalunya”, as imagens de Capa reencontraram-se com os fantasmáticos protagonistas que, em 39, correram pressurosos aos Jardinets de Gràcia e aos despojos que fulminados caíram do céu.
Aqui e aqui Xavier recorda, 69 anos depois, o orgulho e ousadia que, nesse dia, o fizeram avançar para uma posteridade que a estatura tímida e a deselegância de umas calças largas e de mau tecido não podiam adivinhar.
Poderia acontecer a qualquer um de nós? Poderia ter-me acontecido? Que Capa (e se fosse o local, competente e velho Quitos fotógrafo já iríamos muito bem servidos) terá fotografado o dia em que, sôfrego, vim a correr, com o RA, ao Terreiro do Pó, no Lobito, para assistir ao ataque (a metralha e granada) à delegação da Unita, por uma unidade mínima do MPLA, num só jipinho amarelo (só quem viu sabe do que falo), comandada pelo JM, que acabou atingido com um tiro na cabeça que o imobilizou por três meses? Alguém – que outro Capa? - terá em Luanda fotografado a conveniente explosão do jornal “Provincia de Angola”, a que o JS e eu fomos os primeiros a chegar, já passava do recolher obrigatório, e que serviria depois, mutatis mutandis, como acusatório “incêndio do Reichstag” contra a FNLA?
Nunca ninguém nos avisa de que nem todas as livre escolhas de juventude garantem a música da eternidade.

3 comentários:

Armando Rocheteau disse...

Grandes memórias e um belo texto

Táxi Pluvioso disse...

Nem as escolhas da velhice. As fotos de Capa.

Pedro Norton disse...

Manuel,
Aquela dança em cima da mesa no La Chunga também dava uma bela foto...