terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Herodes, Salomé e o Ministro da Saúde.



Não sei se o Presidente Cavaco dançou, tal como a bíblica Salomé, de lantejoulas e umbigo à mostra perante um Sócrates evidentemente deleitado. Sei, isso sim, que num incompreensível assomo populista aquele mandou às urtigas a sensatez a que o seu cargo obriga, deu voz à «rua» e reclamou a cabeça do Ministro da Saúde. Hoje ficámos a saber que o Eng.º Sócrates aceitou finalmente representar o papel de Herodes Antípas. E serviu-lha. Numa bandeja de prata.

O disparate é grosseiro. A demonstração de fraqueza é ofensiva. E a «dispensa» do Ministro não permite duas leituras: não é possível fazer verdadeiras reformas em Portugal. Amarga conclusão. Que nem a excelente notícia da exoneração da pior Ministra da Cultura do pós 25 de Abril consegue disfarçar.

Está oficialmente aberta a época pré-eleitoral. O país segue dentro de momentos.

7 comentários:

Manuel S. Fonseca disse...

Dois brevíssimos comentários:

1. A reforma da saúde ou se faz por planificação ou por colapso. Não há volta a dar. Mas a fazer-se por planificação, o que era pelo menos a intenção, deve a dita reforma (os seus promotores, claro) fazer prova razoável da necessidade das medidas de ruptura e da eficácia dos novos métodos. A falha, neste aspecto, foi clamorosa.

2. Será legítimo, feito o balanço das relações entre Governo e Presidente, dizer-se que vamos a caminho de um indisfarçado Presidencialismo?

Pedro Norton disse...

Manuel,
1 - Num país em que passamos a vida a lamentar-nos porque nenhum governo é capaz de levar a cabo as reformas estruturais que os mais variados diagnósticos recomendam, pergunto-me se será sensato «correr» com o único Ministro que demonstrava alguma coragem para as empreender? Será que tudo se deve reduzir e sacrificar à eficaz comunicação das políticas? É esse o sinal que importa dar à sociedade?
2 -Não me parece que possamos tomar a nuvem por Juno. Mas que este Primeiro Ministro em concreto parece muitas vezes mais apostado em preservar a «cooperação estratégica» do que em prosseguir uma linha de rumo autómoma e coerente, isso parece-me indesmentível.

Joshua disse...

Pedro, desculpa, mas pareces-me completa e ingenuamente crente na bondade das rupturas hemirreformistas que deixam perplexas e inseguras as pessoas concretas.

Gostava de te ver no Interior, com uma daquelas caganeiras irremediáveis (samicas/talvez cagamerdeiras de Joane, o Parvo) por ela apanhado de surpresa, sem chauffeurs que te levassem, e a agonizar a chegada de uma ambulância.

Filho, Pedro, insiste em reformar na questão dos desperdícios e nos erros dia-a-dia de gestão ou então insiste na necessidade urgente e leal para com o povo das prescrições unidoseantes.

Quanto ao resto, reveste-te da arma do cinismo e liberta-te da secura desumana dos ultra-liberalóides sem coração nem tripas ante os choques sanitariológicos para os outros mas não para si.

Há gente sensata e sábia no Jornal das Nove, na SIC-Notícias, a dizer exactamente o contrário do que dizes e a explicá-lo bem. Salvo erro, António Arnaut, ontem mesmo, esteve irrepreensível ao levantar as falhas processuais das políticas correia-de-campesinas.

Lendo o que escreves, recordo que os 'sábios' doutores Nazi Mengele e Co. eram igualmente metódicos e frios e objectivos nas suas experiências médicas com ultrador dentro-em-Judeu. Eram, para todos os efeitos, cientistas arrojados, corajosos, criativos, cheios de boas intenções científicas e técnicas e, cereja em cima do bolo, 'excelentes-rigorosos gestores': mas não nos fodam, Pedro!

Tu ainda podes ser e parecer outra coisa.

PALAVROSSAVRVS REX

Pedro Norton disse...

Joshua,
se o objectivo for um debate de ideias educado e (se não for pedir muito) inteligente, estou sempre disponível para aprender qualquer coisa. Se a ideia é distribuir insultos, vai compreender que terá de ficar a falar sózinho.
Abraços.

Manuel S. Fonseca disse...

Pedro,
Sem mais, e por via das dúvidas, já somos dois. Nós, na Geração de 60 recebemos comentários sem qualquer restrição ou censura prévia - o que não é, infelizmente, o caso do Joshua no Palavrosaurus que se reserva o direito de admissão e aprovação de quem o comente. Fique claro, aqui triunfa o mérito dos argumentos e não a verborreia habilidosa ou de demagogia desenfreada. As minhas dúvidas sobre as reformas nada têm a ver com a absoluta necessidade de as fazer - o que só a imperdoável ignorância de quem ache que pode usar e abusar como bandeira do infortúnio dos "famélicos da terra" pode admitir. Mas sobre isso falaremos noutro momento: quando o ar estiver mais limpo.

SV disse...

Se me permite, Pedro, penso que o seu post peca por demasiado benévolo.

Nem me parece que Cavaco tenha tido, qual Salomé, de "aliciar" o Sr. Sócrates; nem acredito que tenha este último desempenhado o papel do Herodes contrafeito.

Por aproximação, talvez o beijo de Judas Iscariotes.

Pedro Norton disse...

sv, talvez tenha razão. Mas eu também não disse que o Engº Sócrates estava contrafeito. Já imaginou bem o Prof. Cavaco de lantejoulas? Não me diga que alguém pode ficar contrafeito depois de semelhante performance?