quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

Ano novo, política velha


O discurso do Presidente da República e tudo o que sobre o mesmo se disse evidenciam o essencial: na política portuguesa, e no que dependa de Belém e São Bento, nada mudará em 2008.
O registo contido do discurso não justifica estranheza. É óbvio que a Mensagem de Ano Novo não é o meio próprio para o Presidente da República – este ou outro – ser mais directo ou contundente. Nesse sentido, Cavaco Silva geriu bem o equilíbrio devido e possível.
Portanto, o problema foi outro. É que, apesar de apontar o dedo a alguns sectores importantes da governação e de apelar à necessidade de mais em 2008, Cavaco Silva não revelou a mínima convicção. Não tanto na crítica, em que porventura perpassaram razões para ir mais longe, mas na esperança que pretendeu fundar. O Presidente da República pontuou o seu discurso, do início ao fim, na urgência da esperança. Mas, do início ao fim, percebeu-se que não acredita na sua possibilidade.
As reacções à mensagem presidencial tornam patente a inevitabilidade da manutenção do ‘status quo’. O Governo e o Partido Socialista apressaram-se a sublinhar a absoluta sintonia de tom e de perspectivas. Aproveitando certeiramente a abertura deixada, aqui e ali, pelo Presidente da República, reduziram algumas eventuais dificuldades a disfunções ou insuficiências de comunicação, tornando o núcleo das políticas incólume a qualquer hipótese de reparo. As oposições deixaram uma tónica geral de apoio, embora variando nos argumentos e no grau, mas não revelaram centelha, nem – o que é pior – deixaram base para qualquer caminho ou horizonte.
No rescaldo de discurso e reacções, não sobrou exigência. E, por isso, não há esperança de uma vida nova.
Não faço ideia do que acontecerá nos próximos encontros semanais, entre Presidente da República e Primeiro-Ministro. Mas temo o pior. Em nome da boa cooperação institucional, e à luz de grandes desígnios estratégicos, teremos, é quase certo, mais do mesmo.
Ora, a nossa esperança dependeria de Cavaco Silva ser – em privado, como sempre seria adequado – implacável na sindicância dos temas que lançou no seu discurso. A economia, a educação, a justiça e a saúde jamais deveriam deixar de ser objecto de exame fino e tenaz. Até que houvesse resultados, até que houvesse mudança. Como as políticas de natalidade, de prevenção rodoviária ou de solidariedade social teriam de ser compromissos de primeira prioridade. Mais a gestão do novo QREN. Ou a evolução do emprego. Tudo intransigentemente acompanhado, semana após semana, impondo metas, fixando calendários, fazendo balanços.
Em paralelo, o Presidente da República deveria explicitar em privado o que não explicitou em público e ser particularmente firme na focagem da agenda política. A necessidade de concentração no essencial, a que instou sem esclarecer, teria de converter-se, agora, num escrutínio cerrado das diversas iniciativas governamentais com o claro sentido de impedir o mero fogacho político ou o recorrente circo mediático, que redundam no mais absoluto vazio e, por decorrência, numa tão fatal quanto inaceitável inconsequência.
Mas Cavaco Silva não pareceu disposto a tanto. Porque não acredita. Não sei se radica a sua desesperança no Governo ou se em todos nós, mas o facto é que o seu olhar não brilhou e a sua voz não mobilizou. O Presidente da República não gerou entusiasmo, nem foi capaz de induzir confiança no futuro. No fundo, não nos deu um vislumbre de vida nova. E era disso, disso mesmo, que nós precisávamos. Para podermos acreditar.

4 comentários:

Anónimo disse...

Muito objectivamente, o problema é que o nosso Presidente da Republica, apesar de obviamente serio e competente, acredita no mesmo modelo social que perseguimos nestes ultimos 30 anos.

Sendo esse o caso, e olhando para as variaveis essenciais como economista que é, não vê solução.

Quando aceitaremos que precisamos de começar por questionar as premissas, antes de construir novos caminhos?

Inês P. disse...

Parabens Sofia Galvão pelo seu comentário, infelizmente tão verdadeiro. Nada é pior do que a falta de esperança para o futuro do País.

Táxi Pluvioso disse...

Nos tempos salazarentos, Portugal, bem ou mal, lá ia vivendo das matérias-primas baratas vindas das colónias, apesar do boicote dos outros países.

No Portugal soarento, a elite política percebeu que não tinha capacidade para governar estas fragas e arrimou-se da teta europeia.

No Portugal socratento, os dirigentes compreenderam que a massa da Europa está a acabar e vasculham o sótão por uma solução. Ideal seria aparecer uma empresa tipo Nokia para realizar o sonho de Sócrates de um modelo nórdico. Mas ela tarda. Entretanto, aposta-se nas estradas e na unidade turística com campo de golfe. Acho que é o caminho certo. Os portugueses ficam muito bonitos vestidos de empregado de mesa. O branco faz sobressair a tez trigueira.

mariano disse...

Apenas vi a imagem desse senhor na televisão, imagem essa bem ofuscada pela cor da sua gravata.
Obrigado pelo esclarecimento de informação neste post, pois não foi nada que eu não tivesse esperado nesta intervenção de inicio de ano.
Vamos estar entregues mais um ano aos bichos, mas pior do que isso é que não tenhamos alternativas por parte da oposição. Longe vão os tempos em que na rádio se utilizava a expressão: - Vira o disco e toca o mesmo.