terça-feira, 20 de novembro de 2007

A Velha Questão Escolar

Deixando-me embalar pelo enlevo do que Platão chamava a doxa (essa lamentável opinião baseada nos sentidos), tenho tendência a alinhar pelos que sustentam que estamos numa época de decadência do sistema escolar. Sobre isso mesmo algumas vezes se tem escrito na Geração de 60, com destaque para alguns posts francos e directos do Pedro Norton.
Esta nota do Miguel, chamando a atenção para um tratamento estatístico do ratio entre e investimentos e resultados escolares em Portugal, coincidiu com uma “leitura oblíqua” de que, para já e até melhor digestão, não sou mais do que mensageiro. Peço, por isso, alguma contemporização no fuzilamento sumário a que, e já perceberão do que falo, elitistas e mathusianos me destinem.
Um estudioso francês, Éric Maurin, que leva alguns anos a escrever sobre a matéria, acaba de publicar o livro “Nouvelle Question Scolaire. Les Bénéfices de la Democratisation”. Tese central: a democratização da escola, baseada no princípio de uma escola comum para os estudantes até aos 16 anos, constituiu o cerne do desenvolvimento das políticas escolares escandinavas, anglo-saxónicas, chilenas, australianas e francesas, para, digo eu, utilizar os exemplos que vale a pena.
Segundo Maurin, os estudantes que passaram por esta experiência tiveram destinos sociais muito mais positivos do que teriam se essas políticas não tivessem sido adoptadas. Et pour cause as sociedades que primeiro democratizaram o seu ensino são aquelas onde os salários das classes médias mais progrediram.
Maurin afirma que este “modelo democrático” tem os seus detractores. Há, para começar, uma crítica elitista. Os tópicos centrais do ataque elitista, em primeiro lugar, consideram utópico dar a todos o mesmo tipo de educação e, em segundo lugar, deduzem que a uniformidade proposta pela “democratização” tem como consequência necessária e universal a baixa generalizada de exigência.
A segunda e mais consistente linha de contestação do modelo democrático é a da crítica malthusiana. Segundo eles, a multiplicação dos diplomas gerado pela democratização não é em geral acompanhada pelas necessidades da economia, o que gera desemprego e desilusão nos jovens diplomados, assunto para que, de resto, a Imprensa portuguesa tem chamado a atenção na última semana face ao aumento do desemprego em Portugal entre os nossos licenciados de fresco. (Sou sensível ao argumento e reconheço que há aqui muitas razões para nos fazer, a nós e a Maurin, pensar).
Em suma, elitistas e malthusianos chumbam categoricamente o processo de democratização que guia a politica de educaçao da maior parte do Ocidente há cerca de meio século.

O resiliente Maurin prova, com dados estatísticos, os méritos do sistema em vigor:

1. As gerações que beneficiaram da politica de democratização inseriram-se melhor na sociedade, têm melhores carreiras, melhores empregos e melhores salários do que as gerações anteriores.

2. Experimentemos o exemplo da Suécia (reconheço que já em Luanda, nos anos 60, sonhava com, chamemos-lhe assim, o exemplo sueco). Antes dos anos 50 a Suécia tinha um sistema escolar elitista. Só uma minoria fazia o secundário – em escolas de elite, bem entendido – após selecção com base nas notas da primária. A partir dos anos 50, institui-se a escola única obrigatória para todos. Resultado estatístico: houve uma redução das desigualdades entre crianças e aumentou o nível médio da classificação escolar dos alunos.

3. Sigamos para Inglaterra. A adopção da escola única teve lugar em 1960. Mas a sua adopção não foi universal. Foi adoptada progressivamente, de região em região.. Nas regiões que primeiro adoptaram o modelo, melhoraram, por esta estrita ordem, o nível dos alunos, a facilidade de entrada no mercado e os salários que vieram auferir

4. O contra-exemplo alemão. Na Alemanha, os estudantes vão, em função das aptidões reveladas na avaliação, para a Hauptschule ou para a Realschule. Dito de outro modo: há uma orientação dos que têm resultado mais fracos para escolas profissionalizantes. Submetidos os estudantes germânicos, nos últimos anos, ao teste de PISA (avaliação comparada, cuja principal finalidade é produzir indicadores sobre a eficácia dos sistemas educacionais de diferentes países, avaliando o desempenho de alunos na faixa dos 15 anos, idade em que se pressupõe o fim da escolaridade obrigatória nesses países), a Alemanha, e presumo que algum ministro da admirável senhora Merkel (não é piada, é mesmo admirável), entrou em estado de choque: a Alemanha está atrás de todos os países europeus acima referidos e, quel horreur, sistematicamente atrás dos franceses.

Deixo a quem sabe e a quem pratica o trabalho de humilhar o optimismo de Maurin.

4 comentários:

Pedro Norton disse...

Manel,
A questão da democratização do ensino impõe-se, do meu ponto de vista, não tanto porque os resultados globais sejam melhores (não tenho elementos que me permitam rebater ou confirmar as estatisticas que invoca) mas sobretudo porque um ensino elitista e de acesso condicionado me parece ser um sistema absolutamente iníquo. Acredito que não há regime liberal que não se funde na igualdade de oportunidades e que não pode haver verdadeira igualdade de oportunidades sem a democratização do ensino. Na parte que me toca, tenho esta questão por adquirida.
Dito isto, não vejo nenhuma contradição entre esta defesa da democratização do ensino e a promoção, na escola, de uma cultura de exigência, rigor e mérito (leia-se: com «chumbos» e «expulsões»). Será isto pedir o melhor de dois mundos?
A questão que levanta a propósito da crítica malthusiana é de ordem diferente. Do meu ponto de vista, não está aqui em causa a democratização do ensino mas a forma (pública, privada ou mista) de assegurá-la. E é sabido como os sistemas de ensino hiper centralizados como é o nosso têm a tendência para ignorar os «sinais» do mercado (neste caso empregador)contribuindo muitas vezes para uma desadequação entre a oferta e a procura.

Anónimo disse...

Querido Manuel,

Venho aqui deixar uma nota de tristeza por não perceber rigorosamente nada do que se escreve neste blog.

Não podemos falar de boa comida, bom vinho e boas companhia? ou do Fialho, em Évora? Ah! Esse estava no post sobre a ( suposta) morte de Deus, certo?):

E sobre astrologia? Não há ninguém que queira falar comigo sobre o meu livro de cabeceira ( para além dos "Epigrams de oscar Wilde" e do "J'irai craché sur vos tombes" de B. Vian)o muitissimo bom "tratado das esferas" da minha amiga helena Ribeiro , um tratado sobre Astrologia Clássica, muitissimo interessante?

Ou quem sabe sobre a Teoria do Caos?

Algo que uma modesta mente compreenda, merci bien,
aanes

Manuel S. Fonseca disse...

Pedro,
Faço notar a minha tendência para incursões às horas de drácula, o que significa que quando aqui chego já venho a arrastar os pés. Mas ainda com o fôlego suficiente para lhe dizer que o casamento da democratização escolar com a "cultura de exigência" que integra chumbos, expulsões e quadros de honra, é um dado adquirido comum.
Ana,
Obrigado pelo desafio do Fialho, que sendo uma "catedral" pode não ser onde melhor gastronicamente se oficia em Évora. Ah, e nada de vires para aqui desestabilizar a elevação intelectual de um blog onde se dança em cima das mesas. Um beijo e não julgues que isto aqui é Brighton ou que nós temos os bigodes do Jurgen!!!

Anónimo disse...

Manuel,

Onde se come bem afinal em Évora?!!!

Hoje acordei de ressaca e tive um choque ao ver que numa das nádegas tinha uma tatuagem com um coração a dizer "I love Jurgen- Brighton 2007". Não faço ideia do que tera acontecido.

Bjinhos, bjinhos,
aanes