terça-feira, 5 de junho de 2007

No meu Instituto

Trabalho numa instituição universitária pública de investigação de alguma reputação nacional e visando ter também alguma reputação internacional. No outro dia, estava aqui um colega de uma outra universidade portuguesa a almoçar e reparou que todos nós almoçamos com alguma pressa e que rapidamente subimos para os nossos gabinetes para trabalhar. Ficou espantado, alegremente, com a nossa "cultura de trabalho". Mal sabe ele que esta "cultura" no fundo deixa é tempo livre para o tempo livre. Mas, no meio disto tudo, vêm os feriados e as pontes. São uma verdadeira praga! De repente, não está cá metade do pessoal dos serviços (é exagero, claro, mas é o que parece). E, perante este cenário, olha-se à volta e também se nota que Lisboa está meio vazia. O que se passa? Passa-se neste país o mesmo que lá fora? Não sei comparar pois não consigo estar em dois sítios ao mesmo tempo. Mas parece haver algum exagero nacional nestas interrupções laborais. Será que os "portugueses" estão a trabalhar menos horas do que deviam? Este assunto é sério em termos macroeconómicos, pois ele afecta verdadeiramente a nossa produtividade (e, logo, a nossa competitividade). Olivier Blanchard disse um dia que Portugal precisava de baixar os salários nominais em 20% para recuperar a competitividade perdida pela valorização cambial trazida pelo Euro (http://econ-www.mit.edu/faculty/download_pdf.php?id=1295). Se calhar o país precisa é de velar mais pelo cumprimento das horas de trabalho. Um dia alguém terá de fazer as contas para perceber se haveria ganhos de produtividade substanciais a derivar de uma maior assiduidade laboral. Começo a pensar que sim. (Uma nota: o facto de escrever este post em horário laboral não afectou a minha produtividade de hoje...)

7 comentários:

Jorge Buescu disse...

Caro Pedro, não sei se compreendi a sua afirmação seguinte: "Mal sabe ele que esta "cultura" no fundo deixa é tempo livre para o tempo livre."

Isto significa exactamente o quê: que as pessoas se despacham a almoçar para ir para o gabinete ler o jornal? Que se despaham a trabalhar para irem para casa às 17h? Pedia-lhe que explicasse melhor esta afirmação, por favor. Obrigado.

Pedro Lains disse...

Caro Jorge,
Está a gozar ou a falar a sério? Se calhar o probema é com o significado de tempo livre. Na verdade, como tenho 2 filhas de 3 e 5 anos, o tempo não é tão livre assim. Mas como elas também gostam de praia, acabamos por enontrar pontos em comum.
Agora a sério: a ideia de académicos sempre aflitos arrastando atrás de si livros por ler, trabalhos por acabar e sem tempo para a vida familiar tem cada vez menos adeptos no meio em que trabalho.

Jorge Buescu disse...

Caro Pedro: não estava a gozar. Estava a falar a sério, e agradeço o esclarecimento.

Eu sou um académico, e correspondo a 100% à descrição que faz: sempre aflito arrastando atrás de mim livros por ler, trabalhos por acabar e com pouco tempo para a vida familiar.

Pedro Lains disse...

Corrijo a rota e proponho que façamos como os jornalistas: a nossa vida não serve para notícia. Resta o problema que coloquei: é capaz de haver ausência do trabalho a mais (passe-se o eufemismo) neste país. Se for esse o caso, a produtividade do trabalho é afectada. Não pensei nisto hoje, já vinha matutando esta há algum tempo...

LH disse...

Pois é Sr. Pedro Lains é precisamente por causa dessa mentalidade de fazer o mínimo - mas recebendo sempre o ordenado, no máximo previsto, claro, - e de não "arrastar livros" que os incompetentes cientistas e investigadores da treta deste país na àrea biológica e florestal não descobrem maneira de combater o nemátodo e a doença dos pinheiros!

Nuno Lobo Antunes disse...

Na Instituição de que sou Director Clínico, não existem feriados municipais, apenas os nacionais, e Terça-Feira de Carnaval trabalha-se. A ordem de prioridades é muito simples: Em primeiro lugar estão as famílias que nos procuram, em segundo lugar o interesse da Instituição, em terceiro o dos funcionários que lá trabalham. Elementar,,,

Sofia Galvão disse...

Há coisas elementares, efectivamente.
Consciência institucional, sentido de missão, autoridade, disciplina, exemplo... Existindo, a cultura é uma. Inexistindo, outra, completamente outra.