segunda-feira, 14 de maio de 2007

Um perigoso equívoco (parte II)

Ainda a propósito da saudável discussão que travei com o Gonçalo , socorro-me de uma crónica certeira assinada no DN de Domingo por Nuno Brederode Santos:
«Muitos dizem que, na política portuguesa, nada mexe, nada muda, tudo se arrasta. Falta-nos a cavalgada, os factos à desfilada. Carecemos do swing que nos faça arribar deste torpor. Mas os dias da queda da Câmara Municipal de Lisboa desmentem com estrondo esta ideia.Na quarta-feira, já quase no final do programa de fim de tarde da SIC Notícias Opinião Pública, uma senhora telefonou e, apresentando-se como funcionária da CML, leu a carta que desta recebera no próprio dia. Era a convocação para uma manifestação de apoio a Carmona Rodrigues nas instalações camarárias do Campo Grande. Uma hora depois, todos os canais transmitiam em directo o discurso de um presidente surpreendido e emocionado com a "manifestação espontânea" de que estava a ser alvo.Na quinta-feira, o gabinete do presidente informava não ter podido "concluir" o processamento burocrático das renúncias para informação do Governo Civil da perda de quórum na câmara, o que já só seria possível na sexta-feira. Mas, na sexta-feira, o mesmo gabinete informou pelo telefone os vários partidos de que era necessária cópia do bilhete de identidade de todos os renunciantes (entendimento este que não foi partilhado pelo Governo Civil) - coisa que era detectável logo na entrega, e não a "concluir". Fê-lo, aliás, com assinalável displicência, num arrastamento langoroso que foi desde a hora de almoço (comunicação ao PCP, segundo Ruben de Carvalho, na SIC Notícias) até ao fim da tarde, após o encerramento do expediente (comunicação ao PSD, segundo os jornais). Contudo - e parecendo vergar-se aos protestos dos partidos - acabou por fazer chegar a documentação ao Governo Civil pelas 21.30 (conforme fax da Lusa lido durante o mesmo jornal da SIC Notícias).Tudo isto sugere que Carmona Rodrigues não enjeita a hipótese de se candidatar de novo, mas assumindo todas as cautelas a que tem direito. Para tanto, fomenta o aplauso inorgânico e estuda os seus trunfos. Uma multidão "não assimilada" poderia entusiasmar-se com o discurso antipartidos e ser o seu exército. Com a vantagem de serem os que, por impossibilidade económica, não saem para férias, pelo que valorizam umas eleições em Julho (e não em 24 de Junho). Para a enquadrar e para a logística de campanha contaria também com aquele funcionalismo municipal que tem mobilizado em seu apoio. O que provavelmente pressupõe o pagamento atempado dos salários e, para isso, fazer ainda aprovar os dois empréstimos de curto prazo (trinta milhões) de que dá conta o DN de sábado. E, certamente mais atento do que eu, terá lido nas palavras indulgentes de Paulo Portas que uma tal aventura poderia resolver os problemas do CDS, poupando este, ou a um resultado decepcionante, ou a arriscar o seu líder num complicadíssimo protagonismo pessoal. Se nem sempre a circunstância faz o homem, sempre, de um modo ou de outro, ela o revela. Carmona Rodrigues terá sido, um dia, o engenheiro, o apolítico, o independente a quem repugnariam os aparelhos e os tacticismos partidários. Apesar de, nas pausas desta conversa antiga, já levar duas aventuras de autarca e uma de ministro - e sempre à boleia de um partido. Mas hoje nada tem, como agora melhor se viu, do que insinua: nem querubim de Botticelli nem Bambi órfão de mãe. Ele já lançou mão da demagogia, abusou da burocracia e fez suas as piores tácticas dilatórias. Promoveu equívocos e jogou nas ambiguidades. Já trocou mandamentos por conveniências, deveres por ambições. Talvez ainda esteja a aprender a rua, mas conhece como poucos os truques de gabinete, os silêncios das gavetas e as guerras de papel das chancelarias. Não tem nada a aprender com os aparatchiks que a vida nos pôs no caminho. O seu apoliticismo é apenas uma impreparação. A sua independência, que tão longamente foi uma vantagem, é agora uma contingência. Mas a ambição, maior do que o braço estendido, está-lhe nos ossos. Não consegue travá-la. Terão de ser os outros a fazê-lo. Talvez também nisso consista a resignada máxima das gentes solidárias: "Temos de ser uns para os outros."»
Na «mouche». Digo eu.

1 comentários:

Zé Ninguém disse...

Perdoe o despropósito mas gostava de o "ver" em comentários, dislates e despautérios a esta rubrica, mais tarde Tea,Scones and Books, para toda a gente...

http://absolutamenteninguem.blog...- junho2007.html

Até à Proxima