domingo, 13 de maio de 2007

Fátima




Fátima toca-me. Sempre tocou. É uma experiência que vai para lá da explicação. Com a força própria das coisas profundas, é esperança de uma verdade que irmana e dá sentido.
(Também) Naquele adeus imenso, reconheço a felicidade de ter fé. Mas, para além dessa dimensão pessoalíssima, comovo-me com a expressão – presente e vívida – da alma portuguesa.
O povo impôs Fátima. E resistiu. Calma e serenamente, foi determinando o caminho. Venceu a generalizada desconfiança inicial. Superou a instrumentalização e a propaganda do Estado Novo. Aguentou os extremismos militantes da revolução. E, hoje como sempre, não cede à sempre latente arrogância da nossa inteligentsia.
Popular e oficial, palco de testemunhos de religiosidade muito diversos, encruzilhada de encontros fundadores entre peregrinos, espaço de liberdade na relação com as próprias aparições, Fátima é, afinal, uma extraordinária manifestação de fé.
Singular, entre os cultos marianos. E absolutamente portuguesa, no sincretismo da sua espiritualidade.

Fátima é sobretudo uma fala ao coração, um estremecimento da alma. Refiro-me a essa coisa rara e que supera todos os apetites de milagres, todas as experiências místicas de que se ufanam outros santuários, essa coisa única que revela Portugal a si mesmo e o que na sua alma existe de inconfundível: a Procissão do Adeus.
(…)
… quando na Cova da Iria irrompe o cântico nostálgico: De Vós me aparto ó Virgem… ó Fátima Adeus… Virgem e Mãe, Adeus… Fátima transforma-se num imenso cais, o cais de todas as lágrimas que os Portugueses verteram nos quatro cantos do mundo, onde andaram sempre a despedir-se sem nunca saberem bem onde era a sua terra. Vasto mundo, mundo nunca nosso e do qual sempre fomos. Quem quiser saber o que é a unidade sentimental do povo português vá à Procissão do Adeus, a Fátima, e veja aquela doce arte de chorar juntos sem nenhum motivo muito evidente: «Acaso sois português, que tanto chorais?» (Lope de Vega).
Frei Bento Domingues, A Religião dos Portugueses, pp. 61-62

Fátima sente-se. Ou não.

2 comentários:

Carla Condesso disse...

E aquele novo museu de cera com a VIDA de CRISTO é um espanto. Parece que estamos em Jerusalém !!!!

Pedro disse...

Independentemente de se acreditar ou não nas visões, de se ser católico ou de outra religião ou culto, o que é inegável é que quando se entra no Santuário de Fátima se sente uma atmosfera especial