sábado, 12 de maio de 2007

O número que marcou não está disponível

A minha mãe tem 89 anos e é surda. Quando lhe pergunto alguma coisa, responde ao lado. Protesto contra a sua surdez, ela afirma que “como” as palavras, No fundo, conversa de surdos. Traz-me triste, esta questão da incomunicabilidade. Percebo que a inteligência tem consigo, uma obrigação moral, tal como é expressa na parábola dos talentos. O que nunca ninguém diz, porventura com medo de parecer vaidoso, é que a inteligência tem um preço: a solidão. Dizia o meu amigo Jacques Brel, (nunca o conheci, entenda-se), numa entrevista que tive o privilégio de assistir: “recuso-me a ser inteligente”. Julgo perceber o que quis dizer, e no entanto…
Por favor não vomitem ao voltar ao assunto, mas a questão do aborto, parece-me exemplar. Pensei sobre essa questão dias a fio. E mudei de opinião. Cheguei à conclusão que uma sociedade de homens tem de se reger por um conjunto de valores que se afirmam, como na constituição dos EUA, como “self-evident”. Procurei ouvir do “outro lado” argumentos que me fizessem pensar. Na verdade, apenas ouvi um discurso indigente, com a elevação das “cartas dos leitores”. No fundo há três classes, (como dizia o meu filho, pessoa com quem consigo conversar): A primeira, os que têm uma posição clubista: o Sim é de esquerda, o Não é de direita. A segunda fica pelo piso -3 dos argumentos, e usa interrogações do tipo: “Mas queres ver as mulheres presas?!!!?...”. Os terceiros, embora não o formulem dessa maneira, banalizam a vida pela evidência da exuberância e "facilidade" com que surge, em detrimento do valor extraordinário da singularidade de qualquer existência. Ou seja, é tão fácil criar uma vida, que a vida em si mesma, é de valor relativo, sobretudo se não lhe apertei a mão, lhe conheço as feições ou afaguei o pelo. E depois há aquela frase extraordinária: “ Tens que respeitar a minha opinião!”. Não! Não tenho! Que a tua opinião é uma merda, o teu raciocino abaixo do percentil 5, o tempo que perdi a te ouvir irrecuperável. Não respeito a tua opinião e disso me orgulho. Não afirmo a inexistência de outros argumentos que me façam parar para reflectir. Talvez haja. Ainda não os ouvi. Mas, sobretudo, há a enorme tristeza de não conseguir comunicar. Como é possível, (e outros afirmarão o mesmo, com sentido contrário), que algo que é para mim de uma clareza total, seja opaco para outros. Penso que apesar de tudo, o treino profissional, e o meio cultural donde bebemos os instrumentos do intelecto, são fundamentais. O treino laboratorial traz uma sensibilidade que é muito difícil de transmitir a quem não teve a experiência do rigor da análise, mais ainda, da crítica científica. “ Small brother” dizia que este era um argumento da autoridade, mas não é, apenas a constatação de que diferentes treinos académicos fornecem instrumentos diferentes de análise. Nada mais frustrante, do que tentar explicar a um adolescente algo para o qual ele fecha a mente. Ele julga que eu não percebo nada da vida, eu sei que ele sabe pouco da mesma. Mas destas duas certezas subjectivas, eu sei, (por que penso), qual a verdadeira, e qual a falsa, e no entanto, não consigo transmitir essa evidência. No quotidiano, quantas vezes sinto essa impossibilidade de encontrar quem esteja disposto a ser ensinado, embora todos se afirmem dispostos a aprender. Diferença subtil, não? E caminhamos sozinhos. Por vezes seguros, que a Terra anda à volta do Sol, e, no entanto, incapazes, apesar da veemência do discurso, não só de o provar, como até, de o fazer entender. Provavelmente, porque, (e ouço a minha mãe), eu “como” as palavras.

9 comentários:

Joshua disse...

O meu pai também anda a ouvir pessimamente e eu é que me sinto inexpressivo e insuficiente nas inflexões do meu discurso: a questão que abordas é das tais que nos exige uma sensibilidade delicada, hoje em dia em perda. Também só encontro renitentes em aprender comigo e, no entanto, disponíveis para aprender, segundo a velha frase-que-fica-bem-dizer-se.

A relativização da singularidade de qualquer vida é um sinal dos tempos e emulsiona-se bem com a chamada liberdade.

A vida humana já não parece ser um absoluto defensável porque à frente se coloca o estatuto do conforto e do prazer, depois as modulações argumentárias não passam de modulações que desviam o indivíduo do empecilho da vida.

MiguelT disse...

Eu votei pelo sim, e a justificação que arranjo é o meu pessimismo acerca da natureza humana, embora (ou talvez precisamente por) noutras questões ideológicas as minhas posições poderem ser consideradas de direita.
O que me parece mais imbecil em toda esta discussão é precisamente o facto de uma determinada posição estar ligada invariavelmente a um quadrante político, e outra necessariamente ao outro.
Quanto à questão em si, penso que é tão difícil como outras questões filosóficas, como por exemplo a existência de Deus, para as quais, embora possa existir uma argumentação, essa argumentação não pode ser totalmente racional.

andrea disse...

Sim andas a comer as palavras e sim andas om pouca paciência para falar devagar.
Como em tudo é preciso tempo, por vezes mais do que suspeitariamos necessário.
Afasta-te, acalma-te, fala devagar e sobretudo mais baixo.
Vais ver que resulta.
Abraços.

Nuno Lobo Antunes disse...

Não se trata de uma questão pessoal, que aliás não teria cabimento. Apenas uma reflexão sobre a dificuldade, ( e frustração), em conseguir interlocutores no quotidiano. Não porque as pessoas sejam menos inteligentes, mas porque, muitas vezes, não têm o treino de análise que uma boa preparação cientifica introduz como instrumento do pensamento. Alguns compreenderão o que quero dizer, e não serão, necessáriamente pessoas de ciência.

SV disse...

«No quotidiano, quantas vezes sinto essa impossibilidade de encontrar quem esteja disposto a ser ensinado, embora todos se afirmem dispostos a aprender.»

Concordo em tudo com esta sua afirmação. Mas olhe que a mudança começa em casa e dizer «Que a tua opinião é uma merda, o teu raciocino abaixo do percentil 5, o tempo que perdi a te ouvir irrecuperável. Não respeito a tua opinião e disso me orgulho.» não auspicia nada de bom.

Nuno Lobo Antunes disse...

A afirmação teve o propósito de chocar, e tem a ver com o repudio pelo politicamente correcto, de que todas as opiniões são respeitáveis por igual, quando a verdade é que não são, e há de facto muitas opiniões que não respeito, e que me orgulho de tal. Isto nada tem a ver com a disponibilidade para ouvir e aprender, e até de prestar maior atenção às hipóteses que poderão parecer, de início, as mais absurdas..

Inez Dentinho disse...

Sentia-me isolada na impaciência que sinto, por vezes, ao ter de considerar a opinião - preguiçosa e contagiada - de tantos. Poupo os nervos e o tempo. Evito o desgaste e recolho-me sem escrúpulos. Considero notável este post pela alergia à mediocridade, pelo resgate do essencial e, sobretudo, por recuperar a nossa primeira e última questão: a defesa da vida.

Caol Ila disse...

si non é vero é benne trovato!...

Mas meu caro,
duas breves notas:

1- "Não porque as pessoas sejam menos inteligentes, mas porque, (...) não serão, necessáriamente pessoas de ciência."

Ignorantia mater felicitas

2- "o repudio pelo politicamente correcto, de que todas as opiniões são respeitáveis por igual, quando a verdade é que não são"
vs.
"há de facto muitas opiniões que não respeito, e que me orgulho de tal."

Não, não meu caro... esse orgulho brota da importância. Uma opinião não respeitável não é uma opinião, é uma boutade!

Anónimo disse...

o pai deste senhor:

http://ivoalmeida.blogspot.pt/2009/09/o-numero-que-marcou-nao-esta-disponivel.html

tem um problema semelhante.

Jesus, credo!!!