terça-feira, 15 de Maio de 2007

Mulheres Nuas

Tenho andando lamentavelmente afastado da "Geração de 60". Hoje, o Pedro, a quem algumas vezes reprovei a ausência, atirou uma pedra aos meus telhados cristalinos. Um estrondo. Embaraçosamente apanhado de calças na mão, prometi-lhe um post sobre “mulheres nuas”. É com promessas destas que se arruína uma vida, mas se firmam, espero, reputações.
Dir-me-ão que “mulheres nuas” soa a mote iníquo para um blog que busca reconduzir-nos a uma prístina elevação teórica. Vejamos: estou de acordo. A nudez requer fina luz, olhar límpido e os tempos que correm andam farruscos. Unanimemente farruscos.
Estou a queixar-me? É muito português. Choramos, choramo-nos, com humildade e ruidosas fungadelas. Avanço uma peregrina hipótese explicativa e espero que percebam, no que se segue, que não dou ponto sem nó: faltou-nos no passado, e falta-nos no presente, reconhecer o valor teórico do humor. Rimo-nos pouco, não nos rimos de nada.
Por exemplo, os países de Leste. Eles, como nós, viveram assolapados por regimes repressivos. Comunistas lá, um pálido e coimbrão fascismo cá. Comparamos e temos de reconhecer que não sabemos o que é a desgraça. Da desgraça, eles, a leste, fizeram força e vão, como já se viu, bater-nos em toda a linha. Eles desenvolveram a mais competente e atómicas das armas: riram-se deles mesmos, souberam rir-se da própria desgraça.
Dou exemplo duma piada comunista. Do país mais genuinamente divertido do mundo, a extinta República Democrática Alemã:
Pergunta – “Porque é que, mesmo nos períodos de maior carência, o papel higiénico na Alemanha do Leste era sempre de folha dupla?
Resposta alemã – “Porque tínhamos de mandar uma cópia de tudo o que fazíamos para Moscovo.
Preferiam, estão agora a dizer-me, deslumbrar-se com mulheres nuas? Estou de acordo: nem com os nossos comunistas, os mais chatos do mundo, incluindo os dissidentes, tivemos sorte. Falta-lhes teoria, a prístina e elevada teoria do riso.
Um último exemplo. No jornal diário de Bucareste (e peço desculpa se havia mais do que um) tinham um copy só para rever as provas com o nome de Ceausescu (cento e tal referências diárias era o mínimo garantido). É que Nicolai, o primeiro nome do potente presidente, se grafado com um surdo e mudo h (Nicholai), passava a significar pilinha pequena. O pormenor não é dispiciendo e a patriótica missão do copy inegável. Mas o ortográfico infortúnio de Ceausescu fazia o gáudio do povo, gerando a poética justiça que torna a vida mais leve e mais suportável.

6 comentários:

andrea disse...

Então e as mulheres nuas ????????

Manuel S. Fonseca disse...

Não perdes pela demora, caro Ricardo Coração de Leão!

tlpg disse...

Caríssimo Manuel S. Fonseca, muitos parabéns, conseguiu dar má fama às mulheres nuas.

Um abraço,
Tiago Galvão.

Andreia disse...

Subscrevo a pergunta do Andrea. "Então, e as mulheres nuas?" O que um H pode fazer na vida de um Homem! E o que um I pode fazer na vida de uma Andreia!

António Eça de Queiroz disse...

Ora,ora!..., também vim ao engano! Quanto ao recheio, o humor, só poderia pedir bis. Realmente os comunistas são genericamente chatos (haverá aqui genética?) - e isso só pode dar mau resultado, como acontece com a generalidade dos portugueses. Porque quando não são comunistas - ou qaulquer outro «ista» à escolha -, são de uma pomposidade franco-espanhola em versão rasteira que ainda irrita mais. Donde, em Portugal há muitos chatos e uma cabazada de pomposos. Que é preciso corromper com precisão e ritmo!
E no entanto, curiosamente, o povo tem imenso humor latente...
Um abraço

Zé Ninguém disse...

Ainda que a despropósito agradeço que atentem para assunto sério e de compromisso.

http://absolutamenteninguem.blogspot.com/2007/05/special-one.html