quarta-feira, 9 de maio de 2007

Giovanna I d’Angiò, Regina di Napoli, Ciro Raia, Tullio Pironti Editore


Os que dissertam sobre a Europa e sabem tudo sobre o que a Europa é, não é, deve ser e não deve ser geralmente têm uma visão escolar e mal aprendida do que seja a Europa. Saltam entre meia dúzia de conceitos, repetidos até à exaustão, os mesmos e os poucos que se fixaram nas suas parcas memórias.


Felizmente a Europa é bem mais rica que muitos dos seus actuais componentes, e oferece uma diversidade de experiência humanas bem mais vasta do que eles podem absorver.



Lembro-me quando nos impingiam a História de Portugal nos enchiam de uma visão algo caseira da dita. Parecia que de um lado havia Portugal, do outro Castela, nada mais. As relações com a Europa do Norte, as relações nomeadamente com a Europa mediterrânica ocidental eram deitadas ao lixo.



É evidente que numa perspectiva pedagógica as coisas se têm de simplificar. Sabe Deus o que já custa a entrar essa meia dúzia de ideias feitas na cabeça da maioria. Mas o triste é que se verificava que grande parte dos próprios professores tinham essa visão caseira. Confesso que da minha parte o pouco que percebi da História de Portugal decorreu de perceber as relações com Aragão, com a França, o Norte da Europa e o Mediterrâneo ocidental. Por mais estranho que pareça aos especialistas dos forais e sesmarias Portugal sempre fez parte da Europa.



A verdade é que nesta mesma Europa aparece uma dinastia, ramo dos Capetos, que domina o reino de Nápoles. Mais uma. Assim como um ramo domina Portugal, outro Castela, a Borgonha, os Capetos Anjous estabelecem um império elástico que abrange todo o sul da Itália, incluindo as ilhas, Hungria, Polónia, Balcãs, Provença, e feudos espalhados pela França.



Um império peculiar que conduz à ocidentalização de grande parte da Europa central, e ao fortalecimento de relações em todo o mediterrâneo europeu, e uma imensa parte da sua zona continental. O reino de Nápoles não é, ao contrário do que se possa pensar, apenas uma parte de Itália. É durante toda a Idade Média e Moderna o maior reino da Península, e a tal distância dos outros que constituiu sempre uma peça estratégica relevante, mesmo nas suas alturas mais frágeis.



É nesse reino que se instala a dinastia dos Anjous. Dessa dinastia faz parte uma rainha, rainha de pleno direito, porque lei sálica só uma França hiper-patricarcal aceitou, e alguns dos seus satélites. Quando as pessoas se querem referir a grandes rainhas pensam geralmente em Catarina II da Rússia, Isabel I de Inglaterra, a imperatriz Maria Teresa de Áustria. Mas houve bem mais mulheres que foram relevantes e grandes, cada uma à sua maneira e na sua época.



Pormenor importante, pertence a uma dinastia de uma grande beleza. Ao contrário dos reis de França, que em geral nada deviam à beleza (salvo o primo de Joana, Filipe o Belo) os Anjous, do que se percebe da iconografia da época, bem mais realista do que se julga, têm exemplares de grande beleza.



É igualmente uma dinastia de grande cultura. O avô da rainha Joana I Roberto o Sábio, faria jus ao nome. Este sul da Itália aliás já tinha visto gerações de grandes políticos e dotados de grande cultura. Frederico II de Hohenstaufen e os reis normandos da Sicília são bons exemplos disso. Joana I foi educada num meio de grande cultura, sofisticado, banhado em alguma violência, como sempre foi característico do Meridião peninsular.



Era mulher e mulher de grande beleza, e o melhor partido da época. Tudo se junta para que fosse infeliz no amor, grandemente cobiçada pelos homens a mais de um título. Viveu momentos de grandeza e humilhação extremas, teve morte violenta, ingredientes que teriam feito a alegria de uma tragédia de Racine ou uma peça de Schiller ou Shakespeare.



É a rainha que é obrigada a vender Avinhão aos papas, cidade que muito depressa se transforma no centro de cristandade. Mas para além do anedótico dos seus três casamentos e de uma vida liberta demais para o que se pensa serem os costumes da época (dizem algumas más línguas que “isto não é a casa da Joana” viria dela), da sua celebração por Petrarca, é muito difícil atestarmos se foi ou poderia ser uma grande política. As condições da época, a documentação que nos resta, tornam difíceis esses juízos.



Seja como for trata-se de uma vida plena de potencialidades de grandeza como poucas outras, em que a inteligência, a beleza, o poder, a riqueza e a fama se juntam numa só pessoa e em que ao mesmo tempo a tragédia, as dificuldades, as humilhações, a violência parecem ter impedido o desenvolvimento pleno, pessoal e público de uma pessoa excepcional.



De vez em quando aparecem da História estrelas que nascem para nos mostrar a que cumes altos pode chegar a existência humana e como nem eles estão isentos das tempestades. Discutível saber se se trata de uma grande lição política, certo que se trata de uma grande lição humana e de uma deslumbrante ilustração do que pode ser uma pessoa nas suas mais elevadas qualidades.

Alexandre Brandão da Veiga

http://www.italiadonna.it/public/percorsi/biografie/f030.htm
http://it.wikipedia.org/wiki/Giovanna_d
http://www.geocities.com/bard842/giovanna.html
http://www.cinemedioevo.net/film/cine_film_italiani_muti.htm
http://fr.wikipedia.org/wiki/Jeanne_Ire_de_Naples
http://xenophongroup.com/montjoie/angevine.htm
http://en.wikipedia.org/wiki/Angevin
http://www.crwflags.com/fotw/flags/fr-anjou.html
http://gilles.maillet.free.fr/histoire/genealogie_france/capetiens_anjou.htm





2 comentários:

Pedro disse...

Ou seja, o ideal é que a Europa deixasse de ser um somatório de povos compartimentados e de ideiais contrários, para transfomar tudo numa única entidade, e assim chamar-se povo europeu.

Zé Ninguém disse...

Tive, de repente, vontade de reler o Principe...infelizmente volto...