A Begoña é uma Begoña
Eu não digo que Begoña é
uma corrupta. Isso só os tribunais podem dizer. Os tribunais existem para dizer
coisas feias sobre as Begoñas.
E não sendo eu tribunal
não faço isso com a Begoña. Com a Begoña apenas faço ontologia. E mais nada.
Olho para a Begoña e nada mais me apraz fazer. Nem olhar.
A Begoña tem a elegância
no andar de um halterofilista. Vê-se que vem de uma família onde carregar pesos
é o estado natural.
Eu não sei se ela levanta
pesos ou faz musculação. O marido da Begoña deve saber. Mas eu nunca quis estar
dentro do marido da Begoña. E para ser sincero também nunca quis estar dentro
da Begoña.
Viver com uma Begoña
parece ser um prazer para o seu marido tanto quanto é uma inevitabilidade para
a Begoña. Da minha parte posso atestar que, se é pecado cobiçar a mulher do
outro, nunca pequei por causa da Begoña. A Begoña deixa-me imaculado.
Entendamo-nos: a Begoña é
só para ela e para o marido dela. Mais ninguém tem de ter Begoña. São ambos
ateus e quando os vejo também eu tenho a vontade de descrer em Deus. O mundo em
que eles vivem não foi criado por Deus mas por Begoña.
Não há maior Begoña que a
Begoña. Se uma pessoa quiser saber o que evitar pode apontar: ali está uma Begoña.
O próprio marido da Begoña se casou com a Begoña sabendo que era uma Begoña. Não
foi enganado. O contrário do que dizem que Begoña faz. Mas o que se diz sobre a
Begoña esquece o essencial: ela é uma Begoña e o próprio registo civil o
atesta. De onde ela veio a família era Begoña e ela seguiu sendo Begoña.
A Begoña vai a tribunal
querendo demonstrar que é impoluta. E se ela quiser que a chame de impoluta
assim a chamo a ela e à mãe dela se ela quiser. Mas vai ser o próprio tribunal
a notificá-la como Begoña e vai dizer que, mesmo impoluta, será sempre uma Begoña.
A Begoña tem uma ontologia própria, feita à sua medida e concitando o consenso.
Mesmo os amigos acham que ela é uma Begoña e o tribunal, o mais alto que a pode
chamar, é de impoluta.
Eu tinha Begoña se a
tivesse. Mas o marido, que a tem, não tem Begoña. De onde se prova que não tem
Begoña quem quer, mas quem pode. E outras nascem Begoña. E quanto a essas nada
há a fazer. Begoña ficam. Aviso para o mundo, que quando se nasce Begoña, o
melhor que teremos a ensinar ao seu marido é de manter as fronteiras. Mas é
natural que os maridos das Begoñas acabem incontinentes. Ele está sempre próximo
da Begoña e ficamos nós felizes por não sermos nós.
O rapaz tem mais Begoña
que algum dia eu merecerei ter. Ninguém merece tanta Begoña quanto ele. Quando
vê o seu circunflexo perfil pensa que deveria ter Begoña e o mundo fica feliz
por ele ter esgotado essa quota de Begoña e não sobre mais para os outros. Ter
a beleza de Tirésias e o destino de Sísifo só para quem podia não ter Begoña
mas ficou com toda. É um grande defensor dos direitos humanos, que lhe dão
votos e também os da sua Begoña. E as coisas que a Begoña lhe dá não temos nós
de o fazer. A Bogoña é um alívio para o resto da humanidade, portanto.
Não posso dizer que o
rapaz se coloca acima de qualquer Begoña, porque desconheço as suas posições na
matéria, e não sei se o seu afã pela Begoña é plural. Mas tanto um como outro
são corajosos. A Begoña por estar com ele e ele por se deitar com Begoña.
Ninguém se aproxima tanto da Begoña quanto ele e até ao momento parece mesmo
ver nisso um modo de vida. Que fique com a Begoña quem não arranjou melhor na
vida. Menos lares estragados. Não desejo a ninguém viver com a Begoña. Mas acho
que a Begoña merece o rapaz.
Agora em Ceuta a
população diz que a mãe dele não tinha Begoña. Que ele é filho de uma sem
Begoña. Parece-me natural, a mãe dele não tem o dever de ser lésbica e talvez
ele precise de uma Begoña porque vem de quem não a teria. Mas que importa isso?
Desde que ele fique com toda a Begoña do mundo e fiquemos nós sem ela.
Vamos nós sem Begoña, e
contentes por isso. Mais leves. Ele qui-la, paga-a. E ela que se dê por
contente que alguém lhe dê um preço. É questão que a gente de Ceuta omitiu
sobre a mãe do seu marido, mas que esperamos que este acolha no preçário da sua
alma. Se a sua Begoña não tem preço é questão de a colocar no mercado.
Alexandre Brandão da
Veiga

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