O que diz o presidente do TEDH?
O Presidente do TEDH
interveio contra o populismo que tenta restringir os poderes do tribunal (https://eclj.org/geopolitics/echr/la-cedh-critiquee-jurisprudence-immigration).
A sua intervenção é
política e por isso merece uma resposta política. Pretende ser um actor na
política e como tal merece resposta.
Em primeiro lugar, o TEDH
não foi criado por obra e graça do Espírito Santo. e ainda menos por juízes.
mas por actores políticos através de uma convenção internacional. Os mesmos
actores que criaram o TEDH podem extingui-lo quando entenderem, e por
maioria de razão podem modificar os seus poderes, nomeadamente restringindo-os.
A função dos juízes é obedecer
a normas que não criaram, não a de criar normas. Mesmo que a pura aplicação
do direito não exista, mesmo que todos reconheçam alguma margem de criatividade
na justiça, não há Estado de Direito se todos os poderes - todos
incluindo os judiciais - não tiverem contra poderes.
O Estado de Direito não é
uma criação democrática mas aristocrática. É em Roma e nas repúblicas
aristocráticas, Veneza, Génova, Suíça que se encontra a sua origem, não nas revoluções
democráticas. A sua relação com a democracia é por definição problemática. Quem
acha que o relacionamento entre a democracia e o Estado de Direito é pacífica
sofre do simplismo que gosta de acusar nos outros.
Os direitos do homem não
são implicação lógica do Estado de Direito. Talvez o presidente do TEDH
ache que o legislador constitucional português é medíocre mas eu acho que foi
bem avisado ao determinar que Portugal é um Estado de direito democrático
assente na dignidade da pessoa humana.
O primeiro requisito de
um Estado de Direito é o cumprimento da lei. Grócio dizia que um dos mais
imprescindíveis princípios do Direito é o de que ninguém pode ser
beneficiado por violar a lei. Quando um tribunal diz que alguém que tentou
imigrar legalmente e foi recusado não tem direitos, mas quem violou o Direito
ao entrar ilegalmente na Europa adquire por isso direitos, está a violar um
princípio fundamental do próprio Direito. O seu fundamento são uma concepção
dos direitos do homem contrária à própria ideia de Direito.
Os direitos do homem são
sob o ponto de vista intelectual uma teologia menor, um sucedâneo do
cristianismo. Como todas as imitações, tenta esconder a sua origem e
envelhece mal. Que uma pessoa estude direitos do homem não me revolta. Que os
estude quando desconhece a filosofia escotista do ens infinitum e por
isso é ignorante da sua filiação já é um problema de insuficiência.
Um dos princípios da
interpretação é a sinépica, ou seja, a ponderação de resultados. Quando juízes
dizem que um criminoso que está ilegalmente na Europa, tem ódio aos europeus e
à sua cultura, pratica crimes contra eles, mas por ter fornicado em território
europeu e nele ter tido filho passou a ter direito a nela ficar em nome dos
direitos do homem, e não se considera responsável por ponderar os riscos que
ele cria para os europeus, perdeu a noção de sophrosine em que assenta
toda a possibilidade do Direito.
Finalmente esquece-se que
perante o descalabro não foram os juízes a salvar os povos. Os juízes na
Alemanha nazi passaram alegremente da defesa do Estado de Direito para a das
leis raciais. Não há memória que a maioria se opusesse a Hitler. Publicamente
foram bispos aristocratas como von Galen e Konrad von Preysing ,e pastores como
Bonhoeffer e católicas como Sophie Scholl que se opuseram. Veja o senhor presidente
que confio mais em bispos e em aristocratas para dar a vida por mim que no presidente
do TEDH. Salvo se ele fizer declaração pública
em que afirme estar disposto a dar a vida por mim. Que a dê então.
Cada vez que alguém usa a
palavra «populismo» está a demonstrar um desprezo pelo povo que só se justifica
se estiver seguro da sua árvore genealógica. Se um plebeu despreza o povo tenho
de me vergar porque ele melhor conhece a sua família. Se o Senhor Guyomar for
plebeu inclino-me perante a sua razão de ciência. Mas não se diga democrata.
Mitterrand tinha muitos defeitos, mas sabia História. E disse que os tribunais
destruíram a monarquia e agora vão destruir a República. Se o presidente do
TEDH acha que Mitterrand era populista posso até conceder em parte. Mas assim
só prova que não conhece História ou não ouviu Mitterrand.
Veremos o que fará quando
os narcotraficantes venezuelanos e os fundamentalistas iranianos pedirem asilo
à Europa e mais uns milhares de pessoas que a odeiam serão nela acolhidos em
nome dos direitos do homem. Nessa altura sugiro que montem as suas tendas à
volta dos juízes para eles descobrirem como é refrescante conviver com outras
culturas. E quando um for roubado e outra violada tentarão fazer como fez uma
juíza em França quando a sua casa foi ocupada ilegalmente: ela conseguiu em
dias a desocupação que não está ao acesso do cidadão comum em anos. Mas a
violada não terá a paz restituída e o furtado que reze por não ter sido
degolado em nome de Santa Bárbara.
Se o TEDH não se preocupa
com a segurança dos europeus, os europeus não se preocuparão com a
segurança do TEDH. O TEDH foi constituído por europeus para cuidar dos seus
direitos. O TEDH acha agora que foi constituído por obra de graça do Espírito
Santo para cuidar dos direitos de todo o mundo. Julga-se bafejado, mas não é pelo
Espírito de certeza, nem por tantas outras coisas mais importantes que os direitos
do homem. Caso o TEDH não saiba do que falo, veja o David do Miguel Ângelo e
verá o que lhe falta.
O Estado de Direito não
é um valor absoluto. A democracia não é um bem absoluto. Os direitos do
homem não são um bem absoluto. Caso o fossem não haveria qualquer contradição
entre eles. Ora é o próprio presidente do TEDH a ter medo do que o voto popular
vai ditar em relação à Convenção Europeia dos Direitos do Homem. Cuidassem mais
dos direitos dos europeus em vez de se pretenderem universais, sofrendo da pior
espécie de etnocentrismo, o que não se vê a si mesmo, do pior erro de direito,
esquecendo a ponderação de bens, de uma cultura que é bem mais estreita que as
suas pretensões. Criaram alergias junto dos povos europeus que não sabem como
curar porque não vêem além dos manuais de Direito - estreita ranhura.
Não esperem dos povos que
legitimam a sua existência e ordenado um respeito que não lhes dão, uma
gratidão que por eles não sentem, e uma identificação quando lhes negam a
identidade. De pouco robusta filosofia, julgam que um especialista pode cuidar
do geral e exigem respeito da sua posição hierárquica quando negam hierarquias.
Conhecedores de uma vulgata sem ontologia, de divindades sem rosto e
encantamentos sem magia, abandonaram os povos que os criaram para os defender e
não sabem História bastante para saber que os do Parlamento de Paris, depois de
darem triste destino aos seus concidadãos, desse destino partilharam. Assim elimina
a História os que negam o seu poder. E em profiláctica assim obedeçam os servidores
a quem têm de servir, seus soberanos, os povos.
Alexandre Brandão da
Veiga
XXX

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