O ismaelismo como experiência de civilização I
Tenho uma simpatia especial pelo sufismo e pelo ismaelismo, e de certa forma pelo xiismo em geral. Mas as minhas simpatias não são critério senão para mim, não para os outros. O mais importante é verificar quais os traços civilizacionais que caracterizam o ismaelismo e o mundo islâmico em que nasce e cresce. DAFTARY, Farhad, The Ismāʽīlīs. Their History and Doctrines, Cambridge University Press, Cambridge, 2007, mostra que sob o ponto de vista civilizacional os ismaelitas demonstram traços comuns do mundo islâmico.
Todas
as denominações islâmicas perseguem as outras, e os de outras religiões:
1)
A
hostilidade e perseguição pelas dinastias e grupos muçulmanos (pp. xv-xvi). Os wahabis
destroem as tumbas de xiitas na época moderna (p. 86). O xiismo em geral é perseguido
pelos Omíadas (p. 48). O muito tolerante califa Harun al-Rashid persegue os xiitas
(p. 89). À sua morte, os ismaelitas de Alamut festejam (p. 356). Os Nizaris
eram um alvo para os outros muçulmanos (p. 24). O califa al-Mansur em 758 toma
medidas contra os xiitas (p. 79). Abu’l-Khattab, xiita, é preso e crucificado
(p. 85). No século VIII o imã tem de se esconder para fugir às perseguições dos
abássidas (p. 95). Em 900 o califa al-Mutahid mandou um exército de dois mil
homens contra os Qarmatis (p. 110). Um dos juristas sunitas consegue instigar o
povo de Rayy contra os ismaelitas (p. 111). No século X os ismaelitas do
Khurasan e da Transoxiana foram severamente perseguidos (p. 113). Quando no
século XII os sunitas sucedem aos fatímidas destruíram sistematicamente as
bibliotecas destes no Cairo (p. 5). No século XI o sultão Mahmoud de Ghazna
invade Multan e massacra os ismaelitas (p. 116). Os ismaelitas do Norte de África
são massacrados pelos sunitas no século XI (p. 183). Perante o sucesso da
propaganda ismaelita no século XI o califa abássida al-Qadir (991-1031) tomou
medidas retaliatórias (p. 185). Em 1044-1045 os sunitas massacraram ismaelitas
em Bukhara da Ásia Central (p. 203), e há novos massacres em Balkh no actual
Afeganistão (p. 206). O sucesso da propaganda ismaelita, em especial no Iraque
e na Pérsia, no século XI levou a uma reacção hostil dos abássidas (p. 209).
Nos anos de 1990 os sauditas perseguiram fortemente os Sulaymanis de Najran
(uma facção de ismaelitas) (p. 298). Os Ayyubids do Egipto, durante o domínio
de Saladino, deixaram os líderes Hafizis fazer luto publicamente no Cairo para
melhor os identificar, prender os seus membros e confiscar as suas propriedades
(p. 254). Esta dinastia de Saladino impôs o sunismo como religião de Estado e
com as suas perseguições tornou o ismaelismo clandestino (p. 261). Tanto os seljúcidas
como Saladino queriam a extinção do xiismo nas suas várias modalidades (p.
316). No século XII ismaelitas matam-se entre si (p. 372). No século XI os abássidas
atacam os ismaelitas (p. 318). Também no século XI há perseguições contra os ismaelitas
(p. 320). Os assassinatos pelos ismaelitas incentivaram o seu massacre (p.
329). Quando no Iémen o ismaelismo foi substituído pelo sunismo como religião
de Estado os ismaelitas foram severamente perseguidos (p. 263); também na Síria
foram perseguidos (p. 261). Os Ayyubid, a família de Saladino, são os mais
perigosos inimigos dos ismaelitas, os Nizaris sírios (p. 369). Nizaris mortos
por ordem de sunita no século XIII (p. 384). Em 1125 os habitantes de Amid
matam um grande número de Nizaris (p. 347). Em 1129, em Damasco, a população,
em maioria sunita, mata mais de 6000 ismaelitas e rouba as suas propriedades (p.
348). No subcontinente indiano há perseguições periódicas de ismaelitas (p. 385).
Em 1271 os sunitas Baybars, sultões mamelucos do Egipto, prendem um chefe ismaelita
porque o suspeitam de colaboração com os cruzados (p. 401). No século XIII no Iraque
os sunitas perseguem os xiitas (p. 370). No século XIII os sunitas mantêm a tradição
de periodicamente matar ismaelitas (p. 374). Mais uma vez em ambiente multicultural
a maioria religiosa sob a suspeição de duplicidade. Depois da queda de Alamut,
Estado ismaelita, há uma perseguição geral dos ismaelitas pelos sunitas (p. 404).
Sob os otomanos os Nizaris da Síria levam uma vida sem peripécias (p. 408), o
que se pode explicar por serem irrelevantes na altura. As perseguições contra
os Nizaris em ambiente sunita muito hostil (p. 412). No século XIV no Norte da
Pérsia, quando Kiya Sayf al-Din Kushayji é abertamente Nizari, suscita as
reacções hostis dos governantes vizinhos (p. 415). Em 1592 os Nizaris são
perseguidos (p. 415). No século XIV na Pérsia um sufi influenciado pelo ismaelismo
é condenado à morte por juristas sunitas (p. 421). No século XV há líderes sufi
exilados (p. 427). No Norte de África do século X os sunitas odeiam os fatímidas
(p. 141). Em 1598 o xá Abbas I continuou a política dos seus predecessores de
perseguição contra os sunitas, a maioria das ordens sufis e alguns movimentos radicais
xiitas (p. 437). Os Timuridas do século XVI, sunitas perseguiram os ismaelitas
do Badakhshan (agora no Afeganistão) (p. 452). Os ismaelitas são perseguidos na
India Mogol (p. 284). Só com a decadência do império mogol em 1707 os ismaelitas
derem desenvolver-se com alguma liberdade. (p. 285). No século XVII os sunitas
perseguem até à extinção o xiismo no Deccan (p. 456). No subcontinente indiano
Muhammad de Ghazna perseguiu os ismaelitas do Sind e destruiu o seu Estado de Multan
(p. 200). Mesmo na Índia entre os séculos XIV e XVI os sunitas perseguem os ismaelitas
(pp. 277-279). No Iémen do século XVI os ismaelitas são perseguidos pelos sunitas
otomanos (p. 280). No século XVII na India períodos de pacificação
intercalam-se com períodos de perseguição (pp. 282-283). A História dos ismaelitas
é uma de perseguições, em suma, por outros muçulmanos (p. 504) (convenhamos:
nem cristãos nem hindus tiveram muitas ocasiões de os perseguir).
2)
Também
os outros xiitas perseguem os ismaelitas (p. 262). Da mesma forma, a partir do
momento que assumem o poder na Pérsia perseguem os sufis e os sunitas (p. 435),
os ismaelitas são objecto da hostilidade dos duodecimanos (p. 435). Os xás da
Pérsia no século XVI perseguem fortemente os ismaelitas (p. 422). Amri é cegado
por ser herético (também a p. 422). No fim do século XVII um ismaelita é cegado
e executado por um duodecimano (p. 462). Em 1817 uma multidão de duodecimanos
ataca um imã ismaelita (p. 463). As comunidades Nizaris da Pérsia são
perseguidas pelos duodecimanos no século XIX (p. 490). No século XX ainda os
ismaelitas são objecto da hostilidade dos «ulama» duodecimanos (p. 492).
3)
Os
ismaelitas também perseguem. Há perseguição pelos fatímidas dos sunitas no
Egipto de século XI (p. 192). A criação da figura do Mahdi não surge como forma
de superar a «sharia», mas antes a de legitimar o uso da espada para impor o
ismaelismo (p. 119). No Egipto no início do século XI os fatímidas perseguem os
drusos (p. 188). O califa al-Kakim tinha uma política contra os dhimmi,
cristãos e judeus (p. 180). Os fatímidas usaram a Sicília como base para raids
contra as cidades costeiras da Itália e da França, assaltando Nápoles e Salerno,
e com os seus raids contra as costas lombardas e da Lombardia obtêm um
tributo anual dos bizantinos (p. 144). Em 934 o califa fatimida manda vinte
navios contra a Itália saquearam Génova (p. 144). Em 967 os fatímidas obtiveram
dos bizantinos poder de impor a «jizya» aos cristãos da Sicília (p. 145). Há
frequentes raids de kabiles na Calábria e da Apúlia (p. 145). O líder
Nizari chamou a Alamut vários teólogos (supõe-se sunitas) e mandou queimar os
seus livros (p. 376). Um xiita duodecimano tem medo dos ismaelitas (p. 379).
4)
Os
governantes referidos pela imprensa como particularmente tolerantes no islão
também não estão isentos. O califa abássida al-Radi (934-940) manda executar o
sumo sacerdote dos zoroastrianos porque achava que este era cúmplice de um xiita
(p. 150). O imperador mongol mandou executar em 1610 um xiita duodecimano persa
(p. 168).

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