sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

O ismaelismo como experiência de civilização I

 

Tenho uma simpatia especial pelo sufismo e pelo ismaelismo, e de certa forma pelo xiismo em geral. Mas as minhas simpatias não são critério senão para mim, não para os outros. O mais importante é verificar quais os traços civilizacionais que caracterizam o ismaelismo e o mundo islâmico em que nasce e cresce. DAFTARY, Farhad, The Ismāʽīlīs. Their History and Doctrines, Cambridge University Press, Cambridge, 2007, mostra que sob o ponto de vista civilizacional os ismaelitas demonstram traços comuns do mundo islâmico.

Todas as denominações islâmicas perseguem as outras, e os de outras religiões:

1)    A hostilidade e perseguição pelas dinastias e grupos muçulmanos (pp. xv-xvi). Os wahabis destroem as tumbas de xiitas na época moderna (p. 86). O xiismo em geral é perseguido pelos Omíadas (p. 48). O muito tolerante califa Harun al-Rashid persegue os xiitas (p. 89). À sua morte, os ismaelitas de Alamut festejam (p. 356). Os Nizaris eram um alvo para os outros muçulmanos (p. 24). O califa al-Mansur em 758 toma medidas contra os xiitas (p. 79). Abu’l-Khattab, xiita, é preso e crucificado (p. 85). No século VIII o imã tem de se esconder para fugir às perseguições dos abássidas (p. 95). Em 900 o califa al-Mutahid mandou um exército de dois mil homens contra os Qarmatis (p. 110). Um dos juristas sunitas consegue instigar o povo de Rayy contra os ismaelitas (p. 111). No século X os ismaelitas do Khurasan e da Transoxiana foram severamente perseguidos (p. 113). Quando no século XII os sunitas sucedem aos fatímidas destruíram sistematicamente as bibliotecas destes no Cairo (p. 5). No século XI o sultão Mahmoud de Ghazna invade Multan e massacra os ismaelitas (p. 116). Os ismaelitas do Norte de África são massacrados pelos sunitas no século XI (p. 183). Perante o sucesso da propaganda ismaelita no século XI o califa abássida al-Qadir (991-1031) tomou medidas retaliatórias (p. 185). Em 1044-1045 os sunitas massacraram ismaelitas em Bukhara da Ásia Central (p. 203), e há novos massacres em Balkh no actual Afeganistão (p. 206). O sucesso da propaganda ismaelita, em especial no Iraque e na Pérsia, no século XI levou a uma reacção hostil dos abássidas (p. 209). Nos anos de 1990 os sauditas perseguiram fortemente os Sulaymanis de Najran (uma facção de ismaelitas) (p. 298). Os Ayyubids do Egipto, durante o domínio de Saladino, deixaram os líderes Hafizis fazer luto publicamente no Cairo para melhor os identificar, prender os seus membros e confiscar as suas propriedades (p. 254). Esta dinastia de Saladino impôs o sunismo como religião de Estado e com as suas perseguições tornou o ismaelismo clandestino (p. 261). Tanto os seljúcidas como Saladino queriam a extinção do xiismo nas suas várias modalidades (p. 316). No século XII ismaelitas matam-se entre si (p. 372). No século XI os abássidas atacam os ismaelitas (p. 318). Também no século XI há perseguições contra os ismaelitas (p. 320). Os assassinatos pelos ismaelitas incentivaram o seu massacre (p. 329). Quando no Iémen o ismaelismo foi substituído pelo sunismo como religião de Estado os ismaelitas foram severamente perseguidos (p. 263); também na Síria foram perseguidos (p. 261). Os Ayyubid, a família de Saladino, são os mais perigosos inimigos dos ismaelitas, os Nizaris sírios (p. 369). Nizaris mortos por ordem de sunita no século XIII (p. 384). Em 1125 os habitantes de Amid matam um grande número de Nizaris (p. 347). Em 1129, em Damasco, a população, em maioria sunita, mata mais de 6000 ismaelitas e rouba as suas propriedades (p. 348). No subcontinente indiano há perseguições periódicas de ismaelitas (p. 385). Em 1271 os sunitas Baybars, sultões mamelucos do Egipto, prendem um chefe ismaelita porque o suspeitam de colaboração com os cruzados (p. 401). No século XIII no Iraque os sunitas perseguem os xiitas (p. 370). No século XIII os sunitas mantêm a tradição de periodicamente matar ismaelitas (p. 374). Mais uma vez em ambiente multicultural a maioria religiosa sob a suspeição de duplicidade. Depois da queda de Alamut, Estado ismaelita, há uma perseguição geral dos ismaelitas pelos sunitas (p. 404). Sob os otomanos os Nizaris da Síria levam uma vida sem peripécias (p. 408), o que se pode explicar por serem irrelevantes na altura. As perseguições contra os Nizaris em ambiente sunita muito hostil (p. 412). No século XIV no Norte da Pérsia, quando Kiya Sayf al-Din Kushayji é abertamente Nizari, suscita as reacções hostis dos governantes vizinhos (p. 415). Em 1592 os Nizaris são perseguidos (p. 415). No século XIV na Pérsia um sufi influenciado pelo ismaelismo é condenado à morte por juristas sunitas (p. 421). No século XV há líderes sufi exilados (p. 427). No Norte de África do século X os sunitas odeiam os fatímidas (p. 141). Em 1598 o xá Abbas I continuou a política dos seus predecessores de perseguição contra os sunitas, a maioria das ordens sufis e alguns movimentos radicais xiitas (p. 437). Os Timuridas do século XVI, sunitas perseguiram os ismaelitas do Badakhshan (agora no Afeganistão) (p. 452). Os ismaelitas são perseguidos na India Mogol (p. 284). Só com a decadência do império mogol em 1707 os ismaelitas derem desenvolver-se com alguma liberdade. (p. 285). No século XVII os sunitas perseguem até à extinção o xiismo no Deccan (p. 456). No subcontinente indiano Muhammad de Ghazna perseguiu os ismaelitas do Sind e destruiu o seu Estado de Multan (p. 200). Mesmo na Índia entre os séculos XIV e XVI os sunitas perseguem os ismaelitas (pp. 277-279). No Iémen do século XVI os ismaelitas são perseguidos pelos sunitas otomanos (p. 280). No século XVII na India períodos de pacificação intercalam-se com períodos de perseguição (pp. 282-283). A História dos ismaelitas é uma de perseguições, em suma, por outros muçulmanos (p. 504) (convenhamos: nem cristãos nem hindus tiveram muitas ocasiões de os perseguir).

2)    Também os outros xiitas perseguem os ismaelitas (p. 262). Da mesma forma, a partir do momento que assumem o poder na Pérsia perseguem os sufis e os sunitas (p. 435), os ismaelitas são objecto da hostilidade dos duodecimanos (p. 435). Os xás da Pérsia no século XVI perseguem fortemente os ismaelitas (p. 422). Amri é cegado por ser herético (também a p. 422). No fim do século XVII um ismaelita é cegado e executado por um duodecimano (p. 462). Em 1817 uma multidão de duodecimanos ataca um imã ismaelita (p. 463). As comunidades Nizaris da Pérsia são perseguidas pelos duodecimanos no século XIX (p. 490). No século XX ainda os ismaelitas são objecto da hostilidade dos «ulama» duodecimanos (p. 492).

3)    Os ismaelitas também perseguem. Há perseguição pelos fatímidas dos sunitas no Egipto de século XI (p. 192). A criação da figura do Mahdi não surge como forma de superar a «sharia», mas antes a de legitimar o uso da espada para impor o ismaelismo (p. 119). No Egipto no início do século XI os fatímidas perseguem os drusos (p. 188). O califa al-Kakim tinha uma política contra os dhimmi, cristãos e judeus (p. 180). Os fatímidas usaram a Sicília como base para raids contra as cidades costeiras da Itália e da França, assaltando Nápoles e Salerno, e com os seus raids contra as costas lombardas e da Lombardia obtêm um tributo anual dos bizantinos (p. 144). Em 934 o califa fatimida manda vinte navios contra a Itália saquearam Génova (p. 144). Em 967 os fatímidas obtiveram dos bizantinos poder de impor a «jizya» aos cristãos da Sicília (p. 145). Há frequentes raids de kabiles na Calábria e da Apúlia (p. 145). O líder Nizari chamou a Alamut vários teólogos (supõe-se sunitas) e mandou queimar os seus livros (p. 376). Um xiita duodecimano tem medo dos ismaelitas (p. 379).

4)    Os governantes referidos pela imprensa como particularmente tolerantes no islão também não estão isentos. O califa abássida al-Radi (934-940) manda executar o sumo sacerdote dos zoroastrianos porque achava que este era cúmplice de um xiita (p. 150). O imperador mongol mandou executar em 1610 um xiita duodecimano persa (p. 168).

 

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