sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

O Islão civilizador

Neste modo de pseudo-exotismo que invade a Europa ouve-se falar com frequência no papel civilizador do Islão. Talvez seja bom ter um quadro mais adequado da coisa. E perdoem-me aqueles que se queixam que falo mais de História que de política, mas tenho pena que sejam aqueles que falam de política que mais se aventuram num terreno em que são ignorantes, o da História.


O islão é criação de sarracenos. O sul da Arábia, a Arabia Felix, era na altura zona de civilização sofisticada (o mesmo se poderia dizer dos árabes da grande Síria na época helenística e império romano, como os nabateus e iturianos, por exemplo). Não um grande centro de criação de civilização, mas zona que sofreu as múltiplas influências do Egipto, do Império Romano e mais tarde bizantino e das correntes do tráfego do Oceano Índico. O sul da Arábia, embora não centro de expansão da civilização, era região efectivamente civilizada no século VII d. C., quando surge o islão.


No entanto, o corpo central da península arábica, onde nasce o islão, é zona desprezada pelo sul da Arábia, que a considera bárbara, e pelos grandes impérios circundantes, o persa e o bizantino. É a zona dos sarracenos, povos nómadas ou semi-nómadas, de fraca criação cultural.


Ao contrário do que se diz, o islão não civilizou o espaço cristão, mas foi o inverso que se passou. O cristianismo é seis séculos mais antigo que o Islão. Maomé é influenciado pelo cristianismo, crê-se que de tipo nestoriano, e pelo judaísmo. Na sua base religiosa, na sua matriz cultural de base, o Islão deve ao cristianismo e não a inversa.


Continuemos, com o risco de chocar os bem-pensantes. Quando o islão se torna conquistador, muito prematuramente, não partiu para conquistar hordas bárbaras. Conquista dois impérios de brilhante civilização, muito superior à sua: o império bizantino cristão e o império persa mazdeísta e com uma forte minoria cristã nestoriana, nomeadamente. Quando o islão conquista este espaço não tinha estruturas nem administrativas, nem culturais, nem políticas preparadas para governar tão vasto império. Vai beber ao império cristão e ao persa o seu desenvolvimento civilizacional. Não é por acaso que São João Damasceno, santo ortodoxo para o Oriente e para os Latinos, foi grão-vizir. Os sarracenos não tinham outra alternativa.

O mérito do primeiro império muçulmano foi fazer uma síntese de duas grandes civilizações, o império cristão bizantino e o persa. Entrou em zona mais civilizada que a deles, a eles deve a sua civilização.


O mesmo se passa com o segundo grande movimento de expansão do Islão, o turco-mongol (esqueço agora o islão relativamente marginal, como o dos curdos, e afegãos). Quais são os seus pontos de invasão? A Índia, zona mais civilizada que as hordas turco-mongóis. Ou a Europa e Bizâncio, zonas que civilizaram, em conjugação com a civilização árabe, os turcos. Mais uma vez, a força de conquista islâmica não se abateu sobre povos primitivos, mas sobre povos ainda mais civilizados. Foram os conquistados que civilizaram o Islão e não o inverso.


Vejamos um terceiro ponto de actuação do Islão. Na África norte ocidental e em geral da África negra. O Islão trouxe alguns paradigmas de civilização novos para esses povos, sem dúvida. Mas eram povos marginais às grandes correntes históricas e não o deixaram de ser. Mouros e núbios já tinham sofrido a influência de impérios egípcio, púnico, romano, pagãos, cristãos. De marginais que eram, marginais ficaram.


E um quarto ponto, a Europa. O domínio tártaro, turco-mongol, em suma, da Rússia. O tempo do governo da Horda de Ouro não é tempo de expansão cultural na Rússia. O domínio turco nos Balcãs fez dos Balcãs a zona mais pobre e subdesenvolvida da Europa. A Hungria divida entre turcos, Habsburgos e o principado da Transilvânia, tem a sua zona mais pobre na dominada pelos turcos. E o principado só se desenvolve quando sai do protectorado turco para passar a mãos austríacas.


O Islão teve como efeito a miscisgenação de culturas já por si desenvolvidas e teve o mérito de criar grandes espaços de circulação de culturas. Comunicação e miscisgenação são as suas palavras-chave. Mas nunca elevação.


Vejamos o contra-teste. O cristianismo parasita uma grande civilização como a romana. É natural. Qualquer religião começa por parasitar um espaço já circundante. Mas quando se expande para zonas primitivas, ou mais primitivas, cria o grande cristianismo irlandês, do séc. VI, a conquista da Germânia pagã, das regiões eslavas e magiares faz surgir países com uma imensa cultura. Não viveríamos na mesma cultura sem os nomes de Leibniz, Gauss, Alberto Magno, Dürer, Bach, Tolstoï, Liszt, Brahms, Cantor, Kant... A lista é sem fim. O cristianismo entra nas Américas e um continente com civilizações de desenvolvimento irregular, desde o mais primitivo ao civilizado, passa a fazer parte de um mesmo padrão civilizacional. Tirando um período que vai do séc. VIII até ao XI a superioridade civilizacional do Islão em relação a certas zonas do cristianismo (não em relação a Bizâncio) inexiste. Ou seja, apenas durante quatro séculos. O cristianismo teve seis séculos em que teve o papel de comunicação e miscisgenação seguidos de mais de mil anos de elevação civilizacional e dos quais mais de seis séculos de notória superioridade civilizacional.


A rede de comunicações mais vasta do mundo foi criação europeia, cristã, as maiores fontes de miscisgenação foram europeias cristãs, e as maiores fontes de elevação civilizacional foram europeias, cristãs. Mais nenhuma cultura transformou o descendente de camponês alemão em Mozart e Bach, ou o nobre caçador russo em Turgueneev ou Tolstoï.

Adivinho uma objecção do leitor. O islão elevou turcos, mongóis e tártaros. A resposta é bem algo mais complexa. O judaísmo e o cristianismo, bem como o hinduísmo e as religiões chinesas tiveram semelhante papel. Mas os turco-mongóis pertencem ao imenso buraco negro que é a Ásia Central, constituído por povos simpáticos quando não tem poder, mas que deixaram na História não pensamento nem glória, mas apenas impérios guerreiros e destruição das quatro grandes fontes de cultura da humanidade: a Europa, o Levante, a Índia e a China. Se o leitor pretender viajar de acordo com a física turca que use um burro e esqueça o avião, se pretender fazer cálculos de acordo com a matemática mongol que use os dedos e não um computador. E a cozinha huna é bem simples. Coloque o leitor carne crua entre as pernas durante um dia até a amolecer enquanto cavalga e depois delicie-se com esse petisco. Convenhamos: elevar turcos e hunos não é tarefa difícil.


Se invoco esta questão, tenho de o lembrar mais uma vez, não é por prazer em escavar o passado. É que os indigentes da História passam a vida a invocar farrapos da mesma, mal pintados, de falsa textura e mau fabrico, falsificações e conclusões forjadas, apenas para assentar a sua prática de um irenismo desrespeitoso da Europa. Que se desrespeite a Europa não os preocupa. Estão habituados a viver no desrespeito. No que me toca eu não me habituarei nunca a isso.


A História não é qualquer coisa que já se passou. É o que se está a passar. E quem tem uma visão esfarrapada da História apenas pode ser uma vivência do dia a dia indigente. O discurso político que visa adocicar minorias sub-proletárias na Europa lembrando-lhes gloriosos passados faz-me lembrar o fidalgote mal instalado e pouco provido que é lisonjeado pelos seus avoengos. Sem mérito neles, e convenhamos, com avoengos não tão gloriosos quanto isso. Se insisto nesta ideia é porque semi-alfabetizados, incapazes de fazer grandes viagens no tempo ou no espaço, insistem do alto dos seus púlpitos na grandeza civilizadora do islão como forma de manipulação da acção e da decisão políticas. Se alguma consolação podemos ter é que destes farrapos a História não reza e não temos por isso de rezar por eles.



Alexandre Brandão da Veiga

1 comentários:

a interneta estupidifica né? disse...

no sentido que dá pancadas que afetam a moleirinha

faltou o estupor no islão civilizador

o islão tem muitas facetas

e a noção de civilização idem
o islão civilizou os numidas e os persas?
civilizou as tribos politeístas da Arabia feliz ma nã muito?

se criar uma cruzada milenar com centos de culturas obliteradas é civilizar

então o cristianismo ganha ao islão
mas não por muito