sexta-feira, 8 de abril de 2011

Para que serve a arte?

Confesso que nunca concordei com a pudicícia que leva a traduzir “Israel” como aquele que lutou contra um anjo. Se “el” significa recorrentemente Deus, é estranho que só com Israel a tradução seja diversa. Daniel é “Deus é o meu juiz”, Miguel é “Deus é o meu rei”, Manuel o “enviado por Deus”, Parente do “ili” babilónio (Babel, Bab-ili, é a “porta de Deus”) e do Alá árabe (são todos semitas afinal) seria natural que a tradução corrente fosse a de “aquele que lutou com Deus”. Não é para todos, mas nem sempre é pecaminoso. Sendo dos episódios mais estranhos do Antigo Testamento, ainda não teve a mesma profunda análise psicológica que Job teve com Jung.

O que têm estes considerandos a ver com a arte?, pergunta o leitor mais apressado. O que tem a ver com o espaço público?, insiste o que preza as coisas directas.

Já antes o tinha confrontado com algo de muito simples, o facto de a arte ter como papel o tornar presentes as coisas. Essa a sua razão de ser e essa a sua bitola. Nesta perspectiva a arte é guerreira, invasiva. A arte é por definição bélica. Hesíodo n’”Os Trabalhos e os Dias” insiste na ideia de que a vida é luta. Camponês e guerreiro são parte da alma fundamental da Europa. São os seus símbolos perenes. A arte impõe-se-nos, luta connosco. Uma arte que não dê luta é uma arte fracota.

No entanto, qual é o discurso da arte e sobre a arte a que assistimos desde a segunda metade do século XX sobretudo? O espectador queixa-se de que não compreende ou que os outros não compreendem. O crítico fica satisfeito ou agastado pela incompreensão do vulgo. O artista sente-se incompreendido. A arte deixa de ter de ser centro de luta para ser centro de compreensão. A arte tem agora de ser compreendida, esse o centro da apreciação estética.

Quantas vezes não viu o leitor alguém sair de um filme, de uma exposição, da leitura de um livro e dizer: “não compreendi”, julgando que esse era o centro da questão. As pessoas postam-se perante a arte procurando compreendê-la. E a arte busca compreensão. A imagem antropomórfica da arte actual é a do adolescente, que procura ser compreendido. Perante uma arte com borbulhas considera-se que a postura adequada é a do assistente social. Uma arte púbere e em crise existencial atrai assistentes sociais. O curioso é que o que é problema, reconhecidamente problema, torna-se de repente mérito.

O segundo comentário a que assistimos é “gostei, não gostei”. Esse o discurso que gira à volta da arte. Nada mais. Como se a arte estivesse para ali postada para dar prazer ou não, e esse fosse o critério de apreciação último. Para o espectador comum, a arte, além de adolescente, é uma espécie de menina que é apreciada segundo um concurso de beleza. “Acho esta mais bonita, esta menos bonita”. A arte dá ao fruidor a vantagem de se sentir consumidor com poder, podendo escolher entre este sabor do gelado ou outro, entre esta cachopa ou outra. A arte não o põe em causa, a arte apenas confirma o seu poder. A teoria da escolha do consumidor invade o campo da apreciação estética.

O terceiro nível de análise do fruidor é o “este filme é melhor que outro, este escritor pior que outro, ah este disco é muito melhor que o anterior”. E por aqui se queda. A terceira postura do fruidor é a do júri de um concurso não fundamentado. O paradigma é agora desportivo. O pódio a sua maneira de hierarquizar. “E o vencedor é...”. E está tudo decidido. Nada mais há que dizer. A arte é um campo onde se encerra de vez um concurso. Quando muito pode-se esperar que reabra no ano seguinte.

O leitor mais avisado já compreendeu. Adolescentes, apreciações sumárias e não fundamentadas, poder do julgador...O paradigma da arte contemporânea é... o concurso de misses. A arte pode ser assim um percurso turístico, inessencial, em que se espera algum choro, mas em suma em nada determinante.

Isto para não falar no mercado da arte. O mecenas escolhe para o bem e para o mal como ser humano. O mercado de arte é um mecenas sem alma, apenas com licitações, em que se cria um produto vindo não se sabe de onde para dar valor não se sabe bem ao quê, com motivações que são a única coisa efectivamente palpável e cognoscível no meio desta imensa Babel.

Convenhamos: há mais dialéctica nos sorrisos de Sant’Ana, mais percurso de conhecimento, que nas infantilidades de Pollock. Há mais complexidade em Mondriaan que nas infantilidades de Andy Wharol.

Qual a alternativa que Hesíodo nos ensina? A arte é luta, como a vida. Fruto do superávite de energia que é concedido a alguns, sinal do privilégio dada à raça humana, a arte é um campo de batalha. Logo, de conhecimento. De sentimento, sem dúvida. Mas de emoção, apenas lateralmente.

Para enfrentarmos uma obra de arte temos de nos preparar como o guerreiro ou como o camponês. Juntarmos as armas e o arado e estar prontos para umas vezes ganharmos ou perdermos. O que faz a grande arte não é a maior fruição, mas a maior luta. Quando se vence facilmente é arte menor. Quando se lavra o campo sem dificuldade é mero passatempo. Pessoas sensíveis fazem massagens, não arte.

Retornemos ao espaço público, fazendo de conta que antes não falávamos dele. Que relevância têm estes considerandos para o espaço público?

É evidente que a arte tem (também) por mecenas os Estados. E os vários Estados europeus patrocinam a arte e certa arte, ou certas artes, por critérios e razões que são elas políticas. O nosso dinheiro de contribuintes é gasto em propaganda que tenta demonstrar que umas tantas culturas são europeias, ou pior ainda que não há cultura europeia, que tudo é difuso e afinal europeu é o que alguns homens querem. Resta saber quais.

Mas a relação da arte com o espaço público é bem mais profunda que a anedota do servo e o novo-rico a querer-se fazer de mecenas. É que – e isto é tanto mais verdadeiro quanto menos conhecimento de arte tem o homem no espaço público – a arte define o nosso espaço, para o bem e para o mal. A capacidade de tornar presente, a confiança na efectividade é muito determinada pela imagem da arte que nos é transmitida. Uma política cubista pode ser imaginativa, mas deixa-nos sem perspectiva. E quando o surrealismo invade a prática e o discurso político podemos começar-nos a assustar, porque o mundo de pesadelos deixa de estar contido na tela, para nos invadir a vida quotidiana.

Esta concepção da arte atravessa o discurso político. Perde-se um referendo? É simples. Os políticos foram incompreendidos. Têm de explicar a obra de arte que construíram. Construir a Europa? É uma questão de gosto. Uns gostam da Europa outros não. Assim como uns gostam de um partido outros não. E no final, no concurso de misses escolhe-se a mais bela, seja ela um partido político, seja um país asiático com presunções europeias.

Desde que explicada a arte é legítima. Contaram-me outro dia que numa exposição em Londres alguém expôs bosta de elefante, tel quel, como obra de arte. A obra é de magnitude e acredito que o autor se reveja na obra. Sou mesmo um fervoroso adepto que o faça ao ponto de nela viver. Da mesma forma que, desde que bem explicado, qualquer bosta de mamute se pode tornar em país europeu, desde que se manipule o valor da obra no mercado da arte. Faz-se propaganda, folhetos bem coloridos, e tudo se transforma no seu contrário. A contestação do contexto ficou bem a Duchamps. Era novo, fez pensar. Hoje em dia temo bem que apenas enfade... e cheire mal.

“Pai, afasta de mim esse cálice” remete para um mundo onde a arte é desnecessária. A presença é efectiva e plena. O facto de haver arte cristã é uma contradicção nos termos caso o plano divino estivesse plenamente realizado. O facto de existir é a demonstração de que é cristã na sua finalidade, mas careceu de um substrato não cristão onde assentar. Isso mesmo: o paganismo indo-europeu. Porque o cristianismo tem a maturidade de se saber um projecto. E hoje em dia qual é oficialmente? Os critérios de Copenhaga. Os tais que inspiram epopeias, alimentam dípticos e foram musas para um sem número de sinfonias. Não as incompletas, mas as desconhecidas. Instrumentos úteis, mas que, transformados em obras de arte, nos remetem para um mundo sem luta, e por isso de submissão, sem projecto substantivo, para o puro pesadelo, para o embuste e para a bosta.




Alexandre Brandão da Veiga

3 comentários:

Anónimo disse...

O paganismo indo europeu, obviamente oposto ao cristianismo, e que esteva na base doutrinal do nazismo, não creio fazer cá falta nenhuma hoje ( a menos que seja para escavacar o resto deste país e da Europa),quanto à arte actual há também os artistas que, á boa maneira Orwelliana, são mais ´artistas´ do que os outros, isto é são mais espertos, e compram de variadas maneiras jornalistas e críticos e fazem assim nomes e reputações...

Assim nem é preciso ter o trabalho de ir buscar a bosta de cavalo à box, é ir ao primeiro caixote de lixo na primeira esquina mais à mão, e está feita a exposição com sucesso (previamente) garantido...

Com os melhs. cpts.,
CCI

one hundred trillion dollars disse...

semitas são filhos de sem

hamitas filhos de ham

coisas mitológicas sem existência real ou tribal

já as línguas têm raízes
para que serve o que quer que seja
línguas mortas semi-mortas ou recicladas


para nada
enchem o vazio que os homens criam em si

daí precisarem de arte e de máscaras

e de liftings

Táxi Pluvioso disse...

Pois eu estava apressado e tive que ler o resto do post. O papel da arte, como tudo neste estado civilizacional, é vender-se. boa semana a todos