quarta-feira, 7 de abril de 2010

Traição vence ironia


Estou em estado de choque com a ideia de haver portugueses dispostos a hastear a bandeira espanhola nas suas casas. Acompanho as suas razões: não equipar o território nacional de estruturas que garantam a independência de serviços básicos na saúde, na educação, nas comunicações, na segurança interna ou externa é abalar, gradual e subitamente, os alicerces de uma nação que levou oito séculos a construir. Nesse sentido, não se pode colocar uma elvense perante o dilema de ter um filho espanhol saudável ou um filho português doente ou nado morto. Trata-se de uma questão de coesão nacional que é ainda mais sensível na raia onde se mede, com impacto directo, a geoestratégia das políticas de Lisboa.
Habituei-me, desde sempre, a respeitar a solidez das bonitas muralhas de Elvas, mesmo em frente do terraço da casa dos meus Avós. Contava-se então que as mães das crianças espanholas, que não queriam comer a sopa, diziam: «Mira que vienem los portugueses». Mas não são os mitos por aggiornar que me deixam atónita perante o que se passa em Valência do Minho nestes dias. O hino, a bandeira ou a língua não podem entrar nas negociações da logística de atendimento ao público ou na agenda política circunstancial.
Gosto do tom de pirataria que envolveu a colocação das bandeiras monárquicas nos Paços do Concelho e no alto do Parque. Mas tratou-se de um desafio respeitoso uma vez que, pela Lei, todas as bandeiras portuguesas, desde o século XII, são consideradas oficialmente como bandeiras nacionais. (Por isso, em 2009, a CML perdeu a causa quando quis remover a bandeira azul e branca de Real Associação de Lisboa, no Largo de Camões). Mas o que agora se passa é uma falta de respeito pelo nosso País e pela nossa história. A ironia do protesto cede perante um verdadeiro acto de traição à Pátria.

10 comentários:

joão wemans disse...

Muito bem!

Anónimo disse...

No fundo o que isto denota é que o povo está desnorteado e sem vislumbrar alternativas político partidárias. E não admira, perante os sucessivos escândalos de corrupção noticiados, sem qualquer consequência.Por outro lado foram eles mesmos, o povo, os que agora protestam, que elegeram os actuais governanates, portanto queixem.se é deles mesmos em primeiro lugar...

Quanto ao mais, nada garante que se fossem espanhois viveriam melhor, e, de resto os galegos querem é ser portugueses, se se fizesse hoje ou amanhã um referendo na Galiza era assim.

Enfim, siga a banda, que os cães de Danton têm feito um bom trabalho, é pena é não se virarem e morderem também nos pastores...

Com os melhs. cumpts.,
CCInez

miguel vaz serra....... disse...

Como cientificamente provado, o português tem um gene único no mundo que dificulta por vezes os transplantes de órgãos vindos de outras zonas do planeta. Ninguém me disse, mas eu penso que é o gene da vitimização. Atinge tudo e todos, governos, ex-governantes, farmacêuticos, professores, médicos, a Rosa Maria da Praça da Figueira, até mesmo o transexual operado na china que sai mais barato que frequenta muito a Sociedade Portuguesa de Autores, mas á noite.
Eu como tenho muita família espanhola, sempre me habituei á língua, á bandeira e á cultura. “Me da igual”. O orgulho nunca deu de comer a ninguém e prefiro comer castelhano a ser roubado luso.
As bandeira do reino vizinho até têm umas cores alegres, portanto deram um certo “salero” á enfadonha Valença e ao Fado das velhotas vestidas de negro espreitando pelas janelas, fechadas, e de cortinas á volta da cara para pensarem ,elas, que ninguém as vê.
De Espanha nem bom vento nem bom casamento, diziam as avós…..Eu casei-me algumas vezes lá e fui sempre feliz!!!

joão wemans disse...

Convém não ser tão categórico.
- Lembro-me de um Miguel que foi atirado pela janela...

Anónimo disse...

Atenção que ao parece as bandeiras em Valença foram hasteadas em edíficios públicos, não em casas particulares. Seria interessante que houvesse passantes ou autoridades que tivessem filmado in loco o acto com o telemóvel, por ex., para memória futura. Haverá aqui, se assim for, uma vergonhosa manobra de contra.informação para, aproveitando o descontentamento das populações, introduzir falsos sentimentos iberistas na opinião pública...

Não me admirava nada, a Maçonaria que domina o Partido Socialista , sempre almejou o iberismo , e já o Grão Mestre M. Lima foi um dos grandes paladinos do antipatriotismo e do iberismo.

Com os melhores cumpts.,
Carlos C.Inez

miguel vaz serra...... disse...

Do categórico ao gráfico. João, fica-lhe mal o seu grafismo. O meu apelido nem é Vasconcelos nem muito menos sou traidor e odeio janelas principalmente se estão sujas como a maioria das montras lisboetas.Nem Juan Carlos é Filipe. Numa União Europeia que caminha para uma união política, parece-me mal essa conversa. Imagine a Itália a separar-se toda outra vez. Romanos contra Milaneses e Genovenses a querer voltar às origens.
Umas das coisas que interiorizei nos 12 anos vividos em Madrid e em que sempre fui bem recebido e mimado pela sociedade castelhana apesar de ser um inimigo Luso, foi de que o humor é o Pai da boa convivência entre os povos. Todos sabemos que isso não faz parte da maneira de ser Portuguesa em que geralmente nos rimos muito com a desgraça dos outros, mas não aceitamos as “gracinhas” quando nos toca a berlinda.
Quem me conhece sabe que sou muito brincalhão, irónico e alegre. Não tolero a loucura dos outros porque não sou Psiquiatra, mas de resto I am a very easy going man.
Quando me ler, agora já sabe. Não leve a peito. A vida é uma novela e tal a escrevo. Se assim não fosse o louco seria eu e já tinha matado alguns á saída da AR e isso nunca aconteceu.
E vou-lhe ser sincero. Fartei-me de rir quando li o seu desejo de janela porque ainda não há muitos meses, ouvi um senhor bem conhecido da nossa praça mandar sair pela janela uma SENHORA daquelas com letra muito grande numa situação sem comentário possível por várias razões, uma das quais a minha educação e sentido de privacidade dos outros mesmo que não o mereçam.
Como diria o nosso Vasco Santana, “janelas há muitas” !!!!!

joão wemans disse...

A um arquitecto, talvez não fiquem assim tão mal quer o "grafismo", quer o "desejo de janela".
Miguel, obrigado pela importância que dá às minhas gracinhas.
Agora a sério: só quis dizer que o povo é volúvel.

Kruzes Kanhoto disse...

Pois. Mas o "país" do litoral não respeita o "país" do interior e quando assim é não admira que este se vire para o país vizinho e que afinal até lhe fica mais próximo...

Flávio Gonçalves disse...

Escrevi sobre este tema, numa perspectiva geopolítica e história, no último número do semanário "O Diabo".

Desconhecia a existência deste blogue, após ter lido uns quantos dos vossos "postais" posso garantir que ganharam mais um leitor atento.

Inez Dentinho disse...

Seja Bem-vindo Flávio Gonçalves.