segunda-feira, 6 de julho de 2009

O gesto não é tudo


Sabemos que o Governo responde à Assembleia da República; que deve estar quieto e calado no Parlamento; que não pode bater palmas e que só usa da palavra quando o Presidente assim autoriza. Lembro até que, enquanto espera para entrar no Plenário, o Executivo tem apenas uma salinha junto à escadas das traseiras, onde mal cabe se lá for por inteiro. Sabemos que o respeito institucional é devido e regulado por um Regimento rigoroso e concreto. Dito isto, não entendo a demissão do Ministro.
Estava lá a assistir à sessão quando se deu o incidente. Não com o rigor das imagens - que não vi em directo - mas com o enquadramento do episódio. Alguém falava enquanto o PCP zurzia no Ministro Manuel Pinho sobre a causa dos mineiros. As funcionárias do Parlamento - que ali se sentam à frente, de costas para o Governo, para tomar nota dos àpartes - não paravam de escrever. O Ministro bufava. Irritou-se e respondeu ao deputado Bernardino usando as mãos, segundo me pareceu, para simular a ideia de teimosia.
Não entendo a gravidade da situação. Todos os dias assisto a intervenções parlamentares verdadeiramente indecorosas, sem que nada aconteça. O tom é muito ordinário. Há considerações pessoais ofensivas em vez de argumentação política. E o objecto das insinuações é calunioso. Nada acontece.
Um Ministro que nunca foi Deputado e faz um gesto tauromáquico resulta num intérprete que tenta ser acessível à linguagem local. Manuel Pinho não podia, pelo Regimento, ter aquela liberdade de expressão. Mas, por exemplo, por via do mesmo Regimento, o deputado José Eduardo Martins já pôde dizer o que aqui não repito quando se dirigiu, há meses, ao Deputado Candal.
Já Pinho foi demitido na hora, por um PM em pânico com o que «parece mal», sem apelo.
Estamos cativos da forma, como os anjos que caiem quando chegam à cidade e perdem as maneiras da província. A possidoneira confunde-se com boas maneiras. A palavra «delicado» ou «indelicado» repete-se no léxico dos comentadores. Ficamos nisto, como se fossemos todos Paulas Bobones na busca de um estar social único, de uma aprovação exterior que nada tem a ver com a formação que nos é pedida.
Admito que o gesto não é bom. Seria péssimo se feito com uma só mão ou sob a forma de um palavrão. Não pertenço à imensa maioria dos sensíveis que José Sócrates anteviu. Os meus filtros são mais atentos a outro género de atitudes. Entretanto debate que trata de política e de posturas políticas - passa ao lado.

13 comentários:

Piotr Kroptkine disse...

São sempre horas de dizer que os toureiros e forcados portugueses pegam todos de empurrão.
Senão, porque cortam as pontas aos Touros?...
En España é que é.

Alexandre Brandão da Veiga disse...

Até porque me parece injusto que se diga que o senhor perdeu a cabeça.

Não perdeu nada, antes ganhou. E o que ganhou foi ele que o pôs.

Não é pela descortesia que foi punido, porque essa é moeda corrente, Tendo sido ele a põr o que pôs e em si mesmo, apenas posso concluir que o pecado não é a descortesia, mas... o onanismo político.

Luis Melo disse...

Com o episódio de ontem na AR, em que Pinho fez "chifres" dirigindo-se ao deputado Bernardino Soares, o ex-Ministro da Economia despediu-se do governo garantindo acesso à Liga dos Campeões.

O acto inédito de ontem, teve o condão de dar a Pinho mais 10 pontos (!!) na Superliga "incompetente-mor" e isolar - quando faltam poucas jornadas para o fim da competição - o ex-dono da pasta da economia no topo da classificação.

Diogo disse...

Por outro lado,

Jon Stewart – O financeiro norte-americano Bernie Madoff montou um esquema de Ponzi na prisão

Jon Stewart: Bernie Madoff tem um emprego na prisão?

John Oliver: É interessante, está a trabalhar por conta própria e, na verdade, três dias depois de ter chegado à prisão, lançou um fundo prisional que estava a render duas pívias por cada maço de tabaco investido. É óbvio que a taxa de retorno era ridícula e foi logo exposta como uma grande fraude. O que significa que agora há um grande número de reclusos trabalhadores que nunca verão as centenas, e em alguns casos milhares de pívias com as quais contavam.

Jon Stewart: O Bernie Madoff tinha um esquema de Ponzi de pívias na prisão? No esquema de Ponzi, fica-se sem dinheiro e não se pode pagar às pessoas. É finito. Mas com todas as pívias que deve às pessoas, ele não pode… dá-las?

John Oliver: Não, Jon… escuta, é complicado. A maioria das pessoas não compreende. Deixa-me explicar em termos para leigos. Essas pívias não são reais, o que eles estão a comprar é a promessa de uma pívia, que depois Madoff acumulava e comprava. Ele estava basicamente a vender derivativos de pívias.

VÍDEO

Paula disse...

Eu estava a assistir, pela RTP2, ao debate na AR, quando vi actuação infeliz do ex-ministro da economia Manuel Pinho. Pensei logo- isto vai dar "bronca"- mas,o que me indignou e que considerei desrespeitoso, não foram os gestos do ministro, mas sim, o facto de o plenário estar quase vazio. As imagens que passavam na televisão, mostravam os lugares vazios, mas ninguém falou nisso, nem a comunicação social. A concentração foi apenas e toda, para os gestos de Manuel Pinho. No dia 08-07-2009, decorria na AR mais uma reunião plenária, onde estavam a ser discutidas algumas propostas de Lei, entre elas a nº 280/x - Lei dos Portos, ou a 281/x - Lei da Navegação Comercial Marítima e outras, e a sala estava praticamente vazia! Pois é, eu estava lá e vi. Dos 230 deputados eleitos pelos cidadãos, estariam presentes, pelas 17h30, cerca de 70. Exactamente, 70!! e o programa ainda nem ía a meio. Os lugares vazios, de todas as bancadas, nem sequer tinham indícios de o seu ocupante estar ausente apenas para um "coffe brake", pois até os ecrans dos computadores estavam desligados! Alguns dos presentes, estavam lá, de facto, de corpo presente, mas, completamente ausentes do que estava a ser debatido, dito ou comentado pelos oradores. Foi muito triste!Infelizmente, apesar de ter sido denunciada, há vários meses atrás, a ausência dos deputados e os "truques" de alguns para que não lhes fosse marcada falta- é que a acumulação de faltas injustificadas dá perda de mandato- a verdade é que parece não existir vergonha nenhuma,pois voltou tudo ao mesmo. Isto sim, tem que ser denunciado e criticado.

carla disse...

A demissão do Ministro parece-me um bom exemplo de responsabilização política, a seguir no futuro. Desvalorizar este tipo de comportamento é abrir a porta para nivelar por baixo as intervenções parlamentares, descredibilizar (ainda mais) a Assembleia da Républica e o Governo, muito importante, dar um mau exemplo aos cidadãos. Seguramente há grandes questões de fundo a resolver no debate parlamentar. Seguramente este tipo de intervenção, de uma forma ou outra, não é inédito. O que não é comum é associar uma consequência a um comportamento que se repugna. E isto, só pode ter um efeito positivo na sociedade em geral.

trotsky disse...

Tanto quanto me recordo, depois deste gesto condenável de Manuel Pinho, José Sócrates finaliza a sua intervenção, tomando a palavra Francisco Louçã.

Posteriormente, durante a resposta de José Sócrates a essa intervenção de Francisco Louçã, tenho ideia que este último faz o gesto de "ceguinho / tapadinho" dirigido a José Sócrates.

Uma coisa não justifica a outra, mas alguém consegue colocar aqui essas imagens do "pregador exemplar" Dr. Louçã?

trotstky disse...

Encontrei entretanto o link para o tal gesto de Francisco Louçã no youtube (ver 7 min e 44 seg)

http://www.youtube.com/watch?v=eJYtII96RaM

Saudações trotskistas

Anónimo disse...

Marrar (sem aspas a suavizar)no povo é o que não tem faltado; e não são só estes: outros doutra cor política que sejam eleitos vão prosseguir - tão certo como dois mais dois serem quatro- a mesma política de desnacionalização e de destruição da industria e agricultura nacional, a par do endividamento externo crescente...

Eh touro! Falta-nos infelizmente o toureiro (no séc. passado tivemos um, o Prof. Salazar)para espetar as bandarilhas certas!

Com os mlhs. cpts.,
CCI

Anónimo disse...

Adenda: a Marrada-mor:em 2003 a dívida externa do país era de 13,1 mil milhões de dólares, e em 2008 era apenas de ... 415 mil milhões!

( abstenho-me de escrever, porque não é preciso, dois ou três palavrões apropriadamente adjectivantes dos responsáveis por isto)

Ms. cpts.,
CCInez

Anónimo disse...

onde estão voçes meus irmãos, que se passa com o meu pais!!! que merda é essa?! que gente é essa??? onde estamos? vamos nos tornar num pais do 3º mundo....tristeza ... que os deuses vos ajudem.

Mãe Portuguesa disse...

"Não entendo a gravidade da situação. Todos os dias assisto a intervenções parlamentares verdadeiramente indecorosas, sem que nada aconteça. O tom é muito ordinário. Há considerações pessoais ofensivas em vez de argumentação política. E o objecto das insinuações é calunioso. Nada acontece."

Eu entendo a gravidade da situação. Foi tanta que as imagens, segundo dizem, correram o mundo. De qualquer forma, acho igualmente grave tudo isso que descreve e que copiei acima. Minha mãe, a quem é que nós, neste pequeno canto à beira mar estamos entregues...

Inez Dentinho disse...

Agradeço os comentários. Talvez até concorde com quem de mim discordou no que toca à urgência de nivelar por cima as intervenções políticas. Recomendo vivamente o vídeo sugerido por Diogo.
Quanto ao deputado Bernardino, a quem o gesto se terá dirigido, recomendo um «quite a corpo aberto» que, em linguagem tauromáquica, quer dizer, mais ou menos, uma «finta» à tangente, com pinta.