domingo, 24 de maio de 2009

Do Expresso: «Geração Maizena»


“O Dr. Paulo Rangel tem que comer muita papa Maizena antes de chegar aos calcanhares do Dr. Basílio Horta!”…

A frase deu manchetes e primeiras páginas coloridas. Mas, como tudo o resto, logo foi esquecida. E talvez não devesse.

Manuel Pinho pôs-se na posição do ancião, senhor do juízo último sobre o estatuto dos demais. Nesse palanque, estabeleceu uma hierarquia entre Paulo Rangel e Basílio Horta. E alvitrou que, para vencer a distância, Paulo Rangel deveria crescer.

Se fosse vista por um estrangeiro, a cena soaria muito estranha. É claro que não saberia o estrangeiro que uma certa geração se julga dona e senhora da democracia portuguesa.

Embora tenha acedido ao poder há muito pouco tempo, Pinho depressa passou para o lado dos que tratam a democracia como coisa sua. E, como todos os conversos, a sua defesa é veemente e implacável. Rangel é apontado como o usurpador. E, ainda por cima, um usurpador atrevido, já com veleidades de comentar adultos quando, na menoridade dos seus 41 anos (!), mal deixa os cueiros.

Esquecer depressa demais esta história é, afinal, recusarmo-nos a perceber uma das mais sérias patologias da nossa democracia. O seu fechamento em torno de alguns, poucos, identificados geracionalmente com aqueles que fizeram o 25 de Abril, antes deste, a resistência ao Estado Novo e, depois, o PREC e o 25 de Novembro.

Paulo Rangel não fez nada disso. Por uma razão simples: era uma criança. Enquanto os outros preparavam ou faziam a revolução, ele aprendia a ler e a contar.

Apesar disso, ou talvez por causa disso, é, seguramente, uma lufada de ar fresco na nossa política recente. É diferente, bem preparado, gosta da reflexão tanto quanto da acção, vem da sociedade civil, tem uma carreira profissional sólida. Não precisa da política, mas gosta dela. Entrega-se-lhe com sentido cívico e com ela firma um compromisso moral.

Aliás, é bom notar que Paulo Rangel não é o único. É apenas um dos poucos que conseguiu romper a blindagem do regime. Mas há mais, muito mais. Gente válida, com sucesso nos seus percursos profissionais. Gente interessada na coisa pública e genuinamente empenhada em causas colectivas.

Estão por aí, em todo o lado, disponíveis para um país que lhes vira as costas. À espera de um sinal, de uma abertura, de uma razão para intervir. Da política, não querem benesses, nem estatuto, nem dinheiro. Tudo isso arranjariam noutro lado. Da política apenas gostariam de ter a oportunidade de participar na construção de um país capaz de futuro e ambição.

São a Geração Maizena. E estão aí. Arredados dos corredores do poder. Pelos Drs. Pinhos desta vida.

7 comentários:

Sofia Rocha disse...

Sofia,
É verdade, temos comido muito disso.
Tem o sabor do óleo de fígado de bacalhau.

Anónimo disse...

(...) Paulo Rangel (...) é apenas um dos poucos que conseguiu romper a blindagem do regime. Mas há mais, muito mais. Gente válida, com sucesso nos seus percursos profissionais. Gente interessada na coisa pública e genuinamente empenhada em causas colectivas.

Estão por aí, em todo o lado, disponíveis para um país que lhes vira as costas. À espera de um sinal, de uma abertura, de uma razão para intervir. Da política, não querem benesses, nem estatuto, nem dinheiro. Tudo isso arranjariam noutro lado. Da política apenas gostariam de ter a oportunidade de participar na construção de um país capaz de futuro e ambição (...)

Quem também anda por aí -
e comeu muita papinha Maizena - e está muito bem preparado e tem uma carreira profissional de sucesso é o dr. Santana Lopes - que a dr.ª Sofia, se não me falha a memória, serviu tão lealmente no governo.

Diogo Vasconcelos disse...

Excelente post, Sofia.

Anónimo disse...
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Pitagoras disse...

É de estranhar que sendo esta geraçao tao valorosa e que pelos vistos, teria algo de positivo a dar a este país "Estão por aí, em todo o lado, disponíveis para um país que lhes vira as costas. À espera de um sinal, de uma abertura, de uma razão para intervir.".

Se esta gente é assim tao excelente, porque é que estao à espera de intervir. Que sinal será esse que estes tanto aguardam? Porque têm eles próprios a iniciativa de intervir na "coisa pública"? Por ventura acharao mais confortável escrever blogues em vez de fazer política?

Talvez esta geraçao "excelente" afinal nao seja assim tao diferente do português comum. Gostam de ficar sentados a ver a banda a tocar, criticando a música, à espera que que venha alguém mandar parar a música e pedir-lhes encarecidamente que tomem o palco.

Pois lamento desiludir-lhes mas isso nao vai acontecer. Se querem tocar música vao ter de subir ao palco e tirar os instrumentos da mao de quem os segura agora. Politicamente falando, é claro.

De boas intençoes está o Inferno cheio e Portugal farto. Fiquem sentadinhos lá nos gabinetes a postar que vao ter de esperar muito até que venha o D. Sebastiao...

Anónimo disse...

Muito bem observado, ó Pitágoras. Como anda a dizer o outro, assino por baixo.

Andre disse...

"Não precisa da política, mas gosta dela. Entrega-se-lhe com sentido cívico e com ela firma um compromisso moral."

Com tanto sentido cívico e compromisso moral podia começar por não dizer mentiras em relação á sua filiação no partido neo-fascista CDS/PP.



"Paulo Rangel não fez nada disso. Por uma razão simples: era uma criança. Enquanto os outros preparavam ou faziam a revolução, ele aprendia a ler e a contar."

Que anedota.
Deve ser por isso que Rangel disse nas comemorações do Dia da Liberdade, que confessa que o seu “«background» era mais de renovação do que de revolução”, ou seja, mais esperança no marcelismo do que na Revolução de Abril.
Um verdadeiro democrata!

E agora está á caça de umas jantaradas em Bruxelas.
Como eu o percebo.
Francamente Sofia fico sem saber quem devia comer Mayzena se Rangel ou se você.