domingo, 5 de abril de 2009

L’Heure d’Été de Olivier Assayas


Filmado de modo realista, Tempos de Verão, na tradução portuguesa, trata um grande tema cinematográfico– a memória– ficando-se por um registo mais sociológico quando poderia ter sido mais poético e com isso um deleite espiritual.

O filme narra a história de uma família no período anterior e posterior à morte da personagem central– a mãe (Hélène Berthier). Esse tempo da narrativa consubstancia-se em torno de um lugar– a casa da família, nos arredores de Paris–, um viveiro de recordações e evocações de um espírito, o do pintor Paul Berthier (tio de Hélène) que ali viveu e trabalhou, com um jardim cheio de recantos e mistérios capaz de construir todo o imaginário infanto-juvenil de que nos nutrimos toda a vida.

A mãe e a casa são os lugares da memória. A morte de uma, a mãe, condena a outra, a casa. Ao fim de um tempo segue-se a dispersão e o fim de um lugar.

A expressão– hora de verão– sugere tempos felizes, intensos, vividos na intimidade e no convívio que trazem identidade. Hora de verão tem um perfume edénico, a presença de uma experiência plena e vitoriosa, memória da perfeição, de não haver quando nem onde.

O amor de Hélène, perpetuou a vida do tio, preservando nos seus lugares, e com o uso que as coisas vivas têm (gastando-se, envelhecendo, estragando-se, etc.), dois quadros de Corot, um painel decorativo de Odilon Redon com marcas de humidade, uma escultura quebrada de Degas, uma secretária e uma vitrina desenhadas por Majorelle, um armário por Joseph Hoffmann, entre outras peças que os museus cobiçavam para maior grandeza do Estado.

Para os filhos, espalhados por Paris, Estados Unidos e China, nada daquilo era mais importante do que o dinheiro que lhes faltava para as suas vidas consumidas pela vertigem do tempo. Como Hélène bem sabia, tudo seria vendido e com ela morreriam também a casa e as memórias de um tempo feliz, uma e todas as horas de verão.

Vendida a casa, esvaziada dos seus bens e pulverizada a memória, chega, então, a profanação final. Os netos decidem comemorar os últimos momentos dando uma festa de adolescentes e transformando o que antes fora um “templo” num abrigo de “sem terras”. Vemo-los chegar nas suas motas carregando garrafas de gin, vodka, whisky, cerveja, coca-cola, comida, sacos cama, computadores e iPods, colunas e vemo-los espalhados pelas salas fumando droga, bebendo, jogando à bola, ping-pong, dançando, correndo, perdendo-se na casa vazia e pelos jardins... No ar não se ouvem, o canto dos pássaros, nem concertos de música clássica. Ouvem-se ensurdecedores raps suburbanos. Uma sensação de desolação niilista percorre a sequência. Porém, uma certa tristeza evidente na neta parece conter um gérmen de redenção. Como no princípio do filme, ela acaba a correr pelos jardins não com os primos nem o irmão, mas com o namorado. O filme termina com os dois a escalar um muro, num sinal de esperança como se a hora de verão não estivesse perdida.

Mas além da casa e da mãe, havia Eloïse, a governanta, uma sombra que tudo fazia mover. Eloïse acabou “presa” num apartamento social de um sobrinho, mas continuou a ir depositar flores na campa de Hélène. Obreira no silêncio e na discrição, ela era a vida da casa enquanto a mãe era a sua memória vivida como um sonho. Pilar oculto de uma tradição punha flores e limpava a pedra tumular de Hélène. Viveu a perda sem se perder.

5 comentários:

Horácio disse...

Excelente comentário!

joão maurício disse...

Digo o mesmo!
JW

Sofia Rocha disse...

Que os cemitérios são, sobretudo nos países do sul, lugares de peregrinação, de obra, de culto, já o sabemos. Vemo-lo aqui. Podemos vê-lo em versão frenética no início de "Volver" de Almodovar.
Parece que é tarefa de mulheres, zelar pela memória, limpar a morada dos mortos.

Carlos Moura Carvalho disse...

Parabéns pelo comentário. Sensível, objectivo, esclarecido.

César Valença disse...

O film é poético ,tem grande qualidade estética,elegantemente melanCcólico."Prustiano" e realista