quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

O conformismo ou o mundo como ele está

Detemo-nos frequentemente com pensamentos negativos. Detemo-nos na construção de paradoxos que nos conduzam a becos sem saída. Vivemos no esgotamento de um modelo de sociedade que ainda luta denodadamente por persistir. As duas posições (a que visiona o seu e esgotamento e a que o tenta sustentar) conduzem a uma luta destrutiva e, se bem virmos, os combates actuais são baseados em presunções de intenções, denúncias e calúnias e não em diálogos ou em confronto efectivo de ideias.

O espectáculo da política é isto. Só se propõe o que é inócuo e vazio, o que está dentro dos limites aceites pela crítica ou as violências que estão dentro dos limites suportáveis pelas pessoas, as quais, se foram tornando imunes e indiferentes a essas agressões. O liberalismo social, que uns defendem, conduz a que uma desagregação da sociedade e das suas estruturas, resulte no voluntarismo, no isolamento e na violência. Consiste na atomização do homem movido apenas pela sua vontade e não por valores em que lhe seja permitido compreender a sua situação de indivíduo, por um lado, e de ser de convívio por outro. A vontade como primado de toda a acção é esse mesmo isolamento. Por outro lado, o homem isolado, enfraquecido, torna-se um ser acossado, egoísta, desconfiado, incapaz de reconhecer o outro e de se reconhecer a si mesmo através dos outros. Nesse estado é reduzido a uma existência numérica, pura quantidade, igualitarizada e insignificante na vida económica onde a ausência de uma possibilidade de construção de qualquer empreendimento o torna um simples escravo dependente do Estado.
Falo do homem comum que é aquele que, ligado a uma tradição e às elites com que se identifica, torna fortes e livres as sociedades. Não falo das oligarquias, nem das tiranias que se edificam no mancomuno entre o poder político e o poder económico. O poder económico casado com o poder político são o oxigénio de que, oligarquias e tiranias, se alimentam, como também as democracias degradadas em demagogias. A nobreza do Povo está na identidade do homem comum com uma consciência pátria. Mas a nobreza de um Povo também está na sua capacidade de subjugar os tiranos, os oligarcas e os demagogos, em nome da liberdade de ser o que são e recusarem ser o que se lhes quer impor que sejam.
Importa ter coragem de afirmar hoje de que é que depende construirmos os caminhos da liberdade, humanamente concebível como libertação. A nossa primeira proposta é afirmar que o mundo não é uma realidade predeterminada e, por isso, o saber que conduz à consciência individual não é definido por decreto ou por imposição de qualquer doutrina filosófica, artística ou científica. A segunda afirmação é a de que cabe à família o papel principal na educação dos mais novos escolhendo os valores em que os deve iniciar, o lugar e a forma de os instruir e ensinar para os preparar para a vida adulta. A terceira afirmação é a de que cabe ao Estado garantir a liberdade dos indivíduos na sociedade onde estes convivem e conflituam.
Um dos erros da contemporaneidade é a presunção de que, depois de tudo o que já houve, não há nada de novo por que lutar. É uma idade do conformismo activo. É a época em que uns, a maioria, pergunta aos outros, em minoria: aonde existe esse outro modelo de política ou de regime de que esses outros falam, e ficam satisfeitos por não haver. Perante o unanimismo conveniente de quase todos os Estados actuais, os que estão em minoria são refutados não pelo pensamento mas pela chamada realidade pragmática. O argumento mais estúpido a que os mais estúpidos podem recorrer, como quem diz: isso que estão a defender não existe. Eis a resposta do conformismo. Mesmo quando se trata de um conformismo travestido de vanguardismo. Seria ele o triunfo da sociologia (falsa ciência) sobre o pensamento. Mas não é porque o pensamento é sempre pensamento de um ideal e os conformistas só acreditam em falsos idealismos, ou seja, em idealismos que são desejos que partem de um sentimento derrotado de inferioridade pessoal, social ou cultural. Querem apenas inverter a sua posição no mundo como ele está. Não têm um ideal comum que transcenda os seus interesses imediatos. Raciocinam como quem quer justificar um roubo: o roubo da realidade ao seu destino ideal. O fim da evolução, pela presunção de se ter atingido um estado perfeito, é a nova alienação, o novo totalitarismo. O que tem de grave é que apenas pretende perpetuar uma forma de poder que esvazia os indivíduos e os escraviza não física, mas mentalmente. Leva a um grave esclavagismo que é o que destrói a humanidade do homem. Não conduz à revolta mas à passividade, à indiferença: ao conformismo. O mundo como ele está, é a vitória do conformismo. E é nisso que ficaremos, se nos deixarmos impassíveis e de cócoras perante o espectáculo degradante da demagogia política.

1 comentários:

joão wemans disse...

Excelente!
É mesmo assim, e por isso andamos tão infantilizados; tão "experientes" por um lado, tão ignorantes e assustados por outro.
Sugiro que vejam, para desfastío, um filme avassalador : "Sophie Scholl - os últimos dias".
Aí se percebe o que é SER alguém, assumindo, sim, TODAS as consequências...