terça-feira, 4 de novembro de 2008

Lições do Snob


Há dias, a meio do serão, entrei no Snob, o bar/reduto de jornalistas na rua do Século, em Lisboa. E lá estavam - intactos - grandes amigos, gente que só conheço do écran ou da assinatura e outros sempre desconhecidos. Parte de mim sente-se ali em casa, jornalista que fui durante 18 anos. Outra parte, uma intrusa, tendo deixado de o ser há meia dúzia de anos para servir o poder. Acredito firmemente que esta sensação se pega aos meus colegas que alternam entre a genuína simpatia dos velhos tempos e as palavras subitamente medidas porque ali está alguém «de fora».
Discute-se política. Ou melhor, sem entrar em detalhes - que não me pertencem - discutem-se os telefonemas para Manuela, o que o Sarmento quis fazer e o que o Pacheco ouviu depois de falar «assim» em frente do Costa na quadratura. Lá fora, a crise financeira e a recta final da campanha para as eleições americanas não têm a mesma pimenta que a possibilidade de Santana vir a ser novamente candidato à Câmara de Lisboa, dentro de um ano.
O calor aquece a discussão. Simpaticamente, suspendem a reincidência da crítica para se indignarem, em bloco, com os media que «não foram ao Costa» pedir explicações sobre as cheias em Seterios (não tendo o autarca posto os pés na poça lá criada pela falta de limpeza das sarjetas). E, solidários, nem comentam! o painel de quatro jornalistas entretanto escolhido por António José Teixeira para discutir esta candidatura na Sic-Notícias - um esquadrão para atirar a matar «no Santana». Nele, o director do Expresso sentiu-se institucionalmente autorizado a dizer três vezes: «Não gosto do Santana! Pronto, não gosto!». Está no seu direito. Mas, por alguma razão, nunca ouviríamos Francisco Balsemão, ou qualquer outro director de uma publicação respeitável, comprometer, desta forma, a linha editorial do seu jornal, em antena aberta, na televisão.
As palavras de Henrique Monteiro autorizam-nos a pensar que a leitura errónea dos resultados de uma sondagem sobre as Eleições Autárquicas 2009, em Lisboa, publicada na edição do Expresso de Sábado passado (1/11/08), é uma manobra parcial, pouco digna daquele jornal. Na verdade, sob o título «Maioria recusa Santana Lopes», a notícia adianta - e bem - que 54% dos entrevistados preferem que o antigo Presidente da Câmara não volte a concorrer. Mais acrescenta que «já» Passos Coelho recolhe 47,3% dos apoios à sua candidatura entre «os que disseram não» a PSL. Ora basta fazer as contas: se assim é, Passos Coelho tem apenas 25% de apoio contra os 34,4% de PSL .
O ponto é que, da forma como a notícia é escrita, nessa tarde televisiva Passos Coelho é entrevistado como preferível a Santana, por «ter» 47,3% e não 25% que realmente recolheu na sondagem. No dia seguinte, na página 24, o DN explica melhor este resultado mas já não é suficiente para esclarecer o desequilíbrio forjado pelo Expresso.
O que quero dizer é que muito do que se diz - e escreve e pensa - se decide ainda pelos estados de alma de meia dúzia de acalorados que deixaram de distinguir a intimidade dos seus sentimentos legítimos do dever de informar quem tem o direito a ser bem informado.
Essa meia dúzia que vá até ao Snob, onde o desabafo parece não afectar o profissionalismo.

2 comentários:

Pedro Norton disse...

Inês,
Não é preciso invocar as palavras do HM para estar «autorizada» a pensar que há, no Expresso, «manobras» para atacar o PSL. «Manobras» essas que, pelos vistos, também existirão na SIC Notícias e nos seus «esquadrões» arregimentados para bater «no Santana».
Em democracia a questão da «autorização» para pensar, felizmente, não se coloca.
Pelo que me dispenso de pedir autorização para pensar que o Mundo não se resume a uma gigantesca e ingrata conspiração contra PSL. «Il faut chercher ailleurs».

Inez Dentinho disse...

On peut chercher ailleurs mais la on a bien trouvé.