quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Um " género particolare"

Ontem ao final dia, enquanto recolhia a roupa no cimo de um prédio de oito andares em Lisboa, veio-me a lembrança desse filme sublime de Ettore Scola, " Una giornata particolare".
Sophia Loren é nesse filme uma mulher ignorante e gasta, pelo tempo, pela prole numerosa, pelos filhos, pelo marido, pelas provações.
Vive num apartamento estreito, num prédio construído para a classe operária na Itália dos anos trinta que vive o furor da ditadura de Mussolini.
Esse filme mostra-nos um dia, apenas um dia, da vida dela. A vida numa gaiola, e do passáro que dela foge, por instantes. Um descuido, porta aberta e um assomo de liberdade.
A vida daquela mulher é uma imensa rotina de tarefas e de serviço, serve a família, que se serve dela.
Cultiva em casa um livro de recortes de Mussolini, o grande homem, idolatra-o, enquanto cozinha e limpa. Que para a festa vão os outros, vestidos de gala e a esperança escarrapachada na cara.
Quando o vizinho, lhe aparece, dignifica-se-lhe um certo viço. Esconde o buraco da meia, embora use chinelos e compõe a melena em frente ao espelho, apesar da bata.
Ensaia danças sensuais latinas, ri, desafia a autoridade das vizinhas que vestem de preto.
No alto do seu prédio, entre os lençóis, ensaiando desajeitada as asas e pensando que estava pronta para o voo, descobre a impotência do acto. O vizinho, elegantemente, não é homem para tanto.
No final desse dia o passáro volta para casa e para a gaiola. Afinal, não conhece outra mão, que não seja aquela que abre a gaiola, que a limpa, que lhe fará uma festa de vez em quando, que lhe dá de comer e que no final volta a fechar a portinhola.
Não é um ser pensante. É um útero ambulante. Um útero que não milita nem na extrema direita, nem na esquerda.
É um " género particolare". Deve ser a isto que se referem quando se fala na questão do género.

7 comentários:

Horácio disse...

Excente post!

Horácio disse...

Excelente post, dizia eu.

Diogo disse...

O ciclo do petróleo por Jon Stewart

Jon Stewart do Daily Show explica-nos, de forma concisa e com extraordinário sentido de humor, o ciclo do petróleo. Uma alfinetada de mestre no capitalismo de mercado:

«O Congresso americano deu às indústrias petrolíferas 500 milhões de dólares para pesquisa. E deu 2.7 biliões de dólares em perdões fiscais. Embora uma empresa como a Exxon Mobil tenha 7.6 biliões de puro lucro apenas no último trimestre, ou seja três meses!

Poderão achar a ideia do governo usar biliões de dólares dos contribuintes para subsidiar estas indústrias como a antítese do capitalismo de mercado livre e privado. Estão enganados!

Há uma explicação muito simples para as companhias de petróleo já tão obscenamente ricas, receberem dinheiro do governo. Chama-se o “ciclo do petróleo”.

Começamos com a família americana. Gente trabalhadora que adquiriu uma inclinação para motores poderosos e televisões plasma. Através de um processo natural chamado “pagamento de impostos”. Os vencimentos destas pessoas são desintegrados e reabsorvidos por uma entidade chamada “governo”. O governo consome estes fundos e transforma-os em “subsídios. Alguns dos quais vão para gigantescas e lucrativas companhias petrolíferas. Esses fundos são usados para procurar novas fontes de petróleo e tirar partido da dependência do petróleo destas pessoas para assim obter lucros. Estes lucros são então armazenados em contas “offshore” nas ilhas Caimão de modo a evitar um processo chamado “pagamento de impostos”, o qual foi discutido anteriormente. O governo dá, então, às petrolíferas mais dinheiro.»

Vídeo (legendado em português) – 3:40m

Manuel S. Fonseca disse...

É o dia de Sophia, a Loren. E o dia de uma transfigurada interpretação de Mastroiani. Inspirador, como se vê pelo "género" do post.Grande filme.

Sofia Rocha disse...

Obrigado a todos. Ao Diogo, devo dizer no entanto, que a desgraçada no meio de lavar tanta roupa não tinha tempo para se preocupar com o petróleo.

Miguel Poiares Maduro disse...

Do género particolare ao génio particular da Sofia...

Sofia Rocha disse...

Miguel, como é que se agradece um elogio destes?