quinta-feira, 4 de setembro de 2008

IV. Khomiakov, L'Eglise latine et le Protestantisme au point de vue de l'Eglise d'Orient, Xenia Editions

São Histórias diversas as herdadas pelo mundo latino católico que gera o dito Ocidente e a que gera o mundo ortodoxo grego, eslavo. São ritmos históricos diversos, embora com sincronismos que não podem ser esquecidos. A queda do Islão na Península Ibérica coincide com a vitória de Dimitri Donskoï contra os turco-mongóis. O islão num e noutro extremo da Europa é expulso para permitir a plena realização da Europa. A Renascença entra na Rússia não muito mais tarde do que entra em Portugal. E Pedro II traz para a Rússia a modernização numa altura em que um outro Pedro, este o II de Portugal, tenta fazer a mesma coisa. Estranho mistério, este, o de dois países extremos da Europa se ignorarem de forma tão ostensiva, quando a nostalgia das estepes tem tantas afinidades com a do mar, e a ternura da poesia russa sempre encorpada pela virilidade, lembra tanto alguma da poesia portuguesa. Pushkine e Camões poderiam ser primos afastados.

A verdade é que esta deriva não pode ser esquecida na união entre ortodoxos e “ocidentais”. Esquecê-lo não seria apenas falta de realismo, seria ignorar dados essenciais de como a economia da salvação se manifesta na História. Qualquer união terá de ter em conta este facto.

Mas a outra questão é eminentemente eclesial, no seu fundo. Khomiakov insiste na natureza, não conciliar ou colegial da igreja, como frequentemente se diz que os ortodoxos defendem, mas, algo bem mais profundo, como uma união de amor, independente da hierarquia. Segundo este princípio, pouco espaço sobraria para o papado senão um protestantismo latino, uma rebelião, um fratricídio moral, como ele gostava de o chamar. No fundo, e embora Khomiakov não enfrente expressamente o problema, trata-te da conciliação entre a mensagem de Cristo a Pedro como Pedra (“Tu és Pedro” de Mt 16,18 e “eu estarei no meio de vós” (Mt, 18, 20, se bem me lembro).

A solução não pode ser política apenas porque geraria uma mera aliança, e aqui Khomiakov tem toda a razão. Não pode ser de mera tolerância, porque esse é o grau zero da hostilidade. Sendo de caridade mútua já se deu um passo. Mas é evidente que estamos em época algo diversa, e por isso Khomiakov não pode ser criticado em termos anacronísticos. Passaram entretanto duas guerras mundiais, o Vaticano II, os protestantes foram mudando desde o século XIX a sua visão da igreja católica (embora ainda hoje em dia tele-evangelistas americanos lembrem que, se os colonos fugiram para a América, foi para fugir à perseguição católica... da Inglaterra (?)), os ortodoxos embora de forma mais lenta vão mudando da sua perspectiva em relação à modernidade. Na fronteira da Polónia começa a haver ligações entre ortodoxos e católicos, e sobretudo Bento XVI, de forma discreta, mas muito eficaz, tem dado como prioridade ao seu pontificado a ligação aos ortodoxos, muito mais estiolada que a que existe com os protestantes, que se conjugaram no mesmo lado das mesmas guerras mundiais.

Também o mundo ortodoxo deixou de ter a pureza original que Khomiakov gostava de nele encontrar. Crítico dos uniatismos como mero negócio político, não poderia adivinhar as ligações que existem hoje em dia entre os ortodoxos e os monofisitas coptas em alianças não menos “políticas” para usar a sua expressão. Os críticos dizem que Khomiakov compara a igreja ortodoxa como deveria ser com as ocidentais como elas são, o que seria injusto. Nem refere o conceito bizantino de “symphonia” entre o poder político e religioso como justificação. Bem sabe o que ele significou. E como, se é verdade que existe uma união entre ortodoxos, esta muitas vezes foi lassa, pouco enérgica. Ou como na verdade os poderes políticos dominaram de forma muito pesada muitas vezes os poderes religiosos no mundo ortodoxo. Com todas as desvantagens do Património de Pedro, a Igreja Católica soube servir-se dele para ter uma autonomia bem maior em relação aos poderes políticos, embora não tenha sido isenta de domínios políticos (da França, do Império). Foi paradoxalmente o facto de assentar também como poder político que lhe permitiu transcender fronteiras. Mas a ortodoxia construiu-se sobre impérios (bizantino, búlgaro, russo). A igreja católica sobre os seus escombros, e coube-lhe a ela ajudar a reconstruí-los.

O mundo é outro, mas o problema teológico mantém-se. Não nos mesmos termos. De um lado a teologia católica tenta perceber melhor o filioque na perspectiva dos ortodoxos (Bruno Forte), do outro, há mais noção dos problemas ocidentais na Rússia do que por vezes se tende a pensar. Ninguém está inocente nesta matéria, e ninguém está inerte. Política, diálogo, tolerância, caridade, oração, pensamento teológico, inspiração, nada é demais para atingir esse objecto de união.

Khomiakov revela-se um grande erudito, nomeadamente da teoria da religião, mostrando capacidade de análise simbólica que só se volta a encontrar muitas vezes no século XX com Kerenyi ou Jung. A sua erudição é vasta e segura, embora obviamente dominada pelo espírito da época. Considerando o mundo eslavo herdeiro do mundo iraniano, quando em boa verdade é mais primo dele que filho, retira daí consequências que podem ser discutíveis (como a etimologia da palavra Bog, Deus). Pouco releva para o que nos interessa. Mais importante que tudo isto é o facto de Khomiakov dever ser levado a sério.

Hoje em dia querem-nos fazer acreditar que todas as culturas são maravilhosas, ricas, profundas, sem nos explicar em que o são. Os bem-pensantes aproximam-nos de altaicas presunções, doentia obsessão de asiáticos com a prosápia de serem europeus, nem que seja à força. Da parte que me toca continuo a preferir as grandes culturas, que efectivamente o são, às medíocres. A russa é uma grande, uma imensa cultura, que diz mais sobre o que a Europa é na sua riqueza que mil tratados sobre a igualdade presuntiva e presunçosa das civilizações. Hoje em dia mandam-nos compreender todas as culturas, mesmo quando são repugnantes em muitos aspectos e esquecemo-nos de ter um olhar de abertura ao que pensam e sentem os ortodoxos, que vivem ao lado de nós e na mesma casa em suma. As suas queixas não são nem destituídas nem plenas de razão. Perceber a parte de justiça de cada um delas pressupõe ouvi-las previamente.


O mais importante é ter em conta que a visão ortodoxa sobre si mesma e sobre o dito Ocidente da Europa não pode ser desmerecido ou tratado com condescendência. Não se trata de povos turco-mongóis, adoráveis, mas intranscendentes e sem produção cultural superior. Trata-se de gente com uma capacidade criativa superior e bem nutrida na sua capacidade crítica. Por isso, ler Khomiakov é uma bela lição para qualquer pessoa educada no cristianismo latino ou protestante. Faz-nos pensar que também nós estamos por vezes instalados na imutabilidade e no conforto de lugares comuns, em oposições cujos termos de base por vezes funcionam em círculo fechado. Khomiakov faz-nos abrir esse círculo, só por esse facto já lhe devíamos estar gratos.


Alexandre Brandão da Veiga

http://en.wikipedia.org/wiki/Aleksey_Khomyakov
http://www.editions-xenia.com/livres/khomiakov/index.html

1 comentários:

joão maurício disse...

E eu fico-lhe grato por mais uma bellíssima lição!
De facto, "a nostalgia das estepes tem tantas afinidades com a do mar" ...
Esta nossa Europa, cansada e triste por via de protestantismo e mercantilismo, precisa do influxo
espiritual que persiste no fundo das almas eslava e lusitana. - Recordo com saudade um emigrante
(julgo que da Ucrânia) que, à saída da Missa
em S.Pedro de Sintra, nos saudou beijando a mão à
minha Mulher, e dando a bênção aos nossos filhos.

João Wemans