quarta-feira, 3 de setembro de 2008

III. Khomiakov, L'Eglise latine et le Protestantisme au point de vue de l'Eglise d'Orient, Xenia Editions

A verdade é que o problema da união das igrejas é simultaneamente um problema histórico e religioso. Uma verdadeira religião da Incarnação não pode ver a coisa de outra forma. É aqui que Khomiakov, com a sua imensa erudição, claudica. Tivera publicado apenas o seu primeiro ensaio seria bem mais difícil contestar muito do que diz. A partir daí publica novos ensaios e descobre o fundo do seu pensamento. Padece do preconceito tipicamente ortodoxo da imutabilidade do dogma na sua enunciação. O ortodoxo basta-se com os primeiros concílios ecuménicos e não mudou dogmas. Não juntou nomeadamente o mal afamado filioque. A sua mensagem mantém a pureza da mensagem apostólica. Seja. Isto vê-se particularmente quando critica a teoria de Newman do desenvolvimento.

É assim tão simples? Que haja apenas uma revelação, de uma vez por todas, todo o cristão, esquecendo apocalípticas revelações, o tem de aceitar. Mas que se diga que um ortodoxo é o único depositário da verdade intacta porque intocada é coisa que já pode merecer reparos. É que se Constantinopla I afirmou claramente que Niceia não podia ser alterado, a verdade é que Niceia existiu – depois dos Apóstolos. A relevação da verdade tem desenvolvimento histórico. Na enunciação é certo. Depois de Niceia, mesmo depois de Éfeso ficaram claras a incorrecções de expressão, mesmo os riscos de tão ortodoxa e católica figura quanto São Cirilo de Alexandria. Mas a História não é apenas um processo intelectual, ou mesmo espiritual, de enunciação (mesmo aqui o ortodoxo congelou a enunciação com os primeiros concílios ecuménicos). O próprio desenvolvimento histórico em si mesmo desvela à humanidade a economia da salvação e consequentemente, o que dela não pode ser desligado, o dogma. De tanto insistir na imutabilidade Khomiakov acaba por ter uma versão idealista da História, e acaba na armadilha do idealismo alemão que tanto admirava, mas criticou.

Historicamente existem desenvolvimentos diversos do cristianismo no Ocidente e no Oriente. É evidente. E não se contam desde o cisma de Photius que não foi tão definitivo como se diz, nem tão novo quanto se afirma. O cristianismo nasce no império romano e em zona helenizada. Região bem diversa da zona latina. Por mais fortes contactos que tivesse havido entre as duas partes do império, e mais forte fosse a circulação de pessoas, bens, ideias, mesmo de religiões (o caso do mitraísmo e das religiões mistéricas são bons exemplos disso), a verdade é que se trata de duas partes do império. Uma latina para o bem e para o mal, outra helenizada.

Se bem pensarmos, estranho é que sequer tenha havido um cristianismo latino. Mais: que o cristianismo tenha dado à língua latina filósofos e uma profundidade filosófica que antes nunca teve. A originalidade filosófica em língua latina começa com o cristianismo. Antes temos romanos muito cultos, profundos conhecedores da cultura grega, mas que não merecem citação entre os gregos e que não deixam marca no próprio pensamento ocidental mais profundo (salvo, e que excepção, na linguagem com Cícero, por exemplo, e a versão poética de ética com Séneca).

Mas não é com a queda do Império Romano do Ocidente, e muito menos com o cisma dos séculos IX a XI que se separa um e outro cristianismo. Os gregos não sabiam latim e os latinos pouco sabiam de grego. Se isso não lhes impedia a comunhão, permitiu que se gerassem malentendidos (pessoas e hipóstases, por exemplo são difíceis equivalências). Que a essa dificuldade profunda original se juntassem contextos históricos diversos, de queda no ocidente e sobrevivência a oriente, de germanização a ocidente e miscisgenação oriental em Bizâncio, apenas para dar uns exemplos, apenas mostra que esta diversa História não pode ser desconsiderada mesmo na perspectiva da economia da salvação.

1 comentários:

joão maurício disse...

Gostei muito de ler mais esta pequena mas rica e interessante lição. Obrigado.

João Wemans