domingo, 10 de agosto de 2008

De Homero a Campolide

Ainda a propósito (e se calhar já a despropósito) do sequestro e morte matada no BES de Campolide, eu escrevi isto e o Gonçalo respondeu-me assim. No fim, dizia que a nota dele era só um pequeno esclarecimento que eu certamente lhe perdoaria. Para que conste: ao Gonçalo eu não perdoo, agradeço. O comentário dele era muito melhor do que o post contestado e abriu-me o apetite para dar corda ao meu acrisolado espírito de contradição.
E onde é que o Gonçalo discorda de mim?! Simples e claro: rejeita a minha leitura dos poemas homéricos enquanto cantos de natureza violenta e cruel. Propõe, antes, que eles sejam uma filosófica síntese do ser na qual julgo reconhecer matriz platónica.
Discordamos? Não sei. Sei sim que temos, pelo que leio, uma relação emocional distinta com esses poemas primordiais. O que me interessa nos poemas homéricos é o luxo dos pormenores e da linguagem. Os adjectivos e as litúrgicas descrições. A Ilíada e a Odisseia são um faustoso e superlativo continente de factos e de personagens.
Talvez seja possível encerrá-las numa síntese ética ou filosófica. Algumas das mais brilhantes mentes de vários séculos de Ocidente fizeram-no. Pois, mas também se pode pôr Maradona, Eusébio ou Pelé a jogar xadrez. O espectáculo deve ser virtuoso, não creio é que seja exaltante. Por isso me parece que quem melhor leu essas narrativas fundadoras foram alguns poetas, de Alexander Pope e Butler (que as traduziram) a Borges que ironicamente as comentou. Das melhores traduções inglesas de Homero disse Borges: “Discursos e espectáculo: esse é Pope. Também é espectacular o ardente Chapman, mas o seu movimento é lírico, não oratório. Butler, em troca, demonstra a sua determinação de eludir todas as oportunidades visuais e de resolver o texto de Homero numa série de notícias tranquilas”.
Nesse espectáculo "homérico", às vezes delirante, outras vezes anacrónico, de batalhas e de traições, nas fabulosas invenções e charme de espírito, eu vejo uma poética do conflito. Cada um dos heróis da Ilíada é, por si só um campo de batalha. Poucos heróis há, no cânone ocidental, tão vilões como Ulisses. E quantos poetas, depois de Homero, o voltaram a utilizar – Virgílio, Ovídio, Dante, Shakespeare – propondo diferentes combinatórias da sua argúcia e perfídia, convertendo-o numa figura transgressiva.
Imoral? Amoral, diria eu. Como os jovens brasileiros, gentis com a vizinhança, um deles filho extremoso, ambos crentes, como Agamémnon, de que é possível roubar a escrava a Ulisses, sem com isso deixar de ser agathos, qualificativo que, na linguagem de Homero, quer dizer, o que é corajoso, ágil, poderoso na guerra e na paz. Ou seja, aquele que é bom.

6 comentários:

Gonçalo Pistacchini Moita disse...

Manuel, (não) respondo em três pontos. O primeiro para lhe dizer que, tal como eu não presumo que o seu acrisolado espírito de contradição seja o responsável pelo espírito combativo e heróico dos personagens homéricos, também o Manuel não deveria presumir que o meu espírito mais filosófico possa ser o responsável pela racionalidade que objectivamene informa estes poemas. Quanto a isto, porém, a resposta não cabe aqui.
O segundo ponto para lhe dizer, no entanto, que erra quanto à matriz platónica. Admiro profundamente Platão, que, tal como eu, aliás, vive entre a poesia e a filosofia. Mas a minha matriz é suareziana. Não porque pense como ele, mas porque é sobretudo com ele que melhor tenho conseguido pensar.
O terceiro para, retribuindo os agradecimentos, dizer-lhe que me deu coragem (boa e bela !) para aqui trazer, proximamente, algumas notas sobre histórias dos antigos gregos - cuja leitura tanta falta faz nos nossos dias. De Homero a Campolide, portanto: Voltaremos a falar. :)

Miguel Poiares Maduro disse...

Só pela última promessa do Gonçalo já valeu a pena o vosso debate. É que depois disto fiquei com água na boca,
Miguel

joão maurício disse...

Tenho acompanhado com gosto esta troca de impressões.
Atrevo-me a lançar uma ideia: a de que a falta de grandeza de alguns acontecimentos comtemporâneos provém da dificuldade em aceitar fazer ESCOLHAS.
Não sabendo ESCOLHER, as pessoas não sabem bem "ao que vão", nem as outras sabem bem ao que elas vêm.
O que nos choca neste assalto é a ESCOLHA das forças policiais de acabar com o assalto (o para que foram criadas e treinadas), mais do que a "escolha" irreflectida dos assaltantes de "querer" uma coisa visivelmente impossível.
Julgo, pelo pouco que conheço deles, que os Clássicos são um exemplo altivo de enfrentar as vicissitudes do Mundo com dignidade, fazendo ESCOLHAS e aceitando as sua consequências.

João Wemans

Miguel Poiares Maduro disse...

Caro João,

Enquanto académico tenho há vários anos o desejo secreto de escrever uma Teoria da Escolha. É ela que está no centro das decisões sociais porque quase tudo na vida são recursos escassos que exigem escolhas. No fundo, a economia tornou-se a ciência social dominante porque foi a única que desenvolveu uma teoria da escolha. A metodologia económica tornou-se o paradigma metodológico por isso mesmo.
miguel

joão maurício disse...

Caro Miguel,
Obrigado pela atenção prestada a um observador desconhecido- tenho a meu favor um trunfo : sou-o com Amizade.
Fico a aguardar esperançado, que o desejo se concretize e que possamos ler em breve a sua Teoria da Escolha.
João

Manuel S. Fonseca disse...

Gonçalo,
há conversas que nunca acabam, Escolho, para seguir o que diz o João, ficar à espera (com os meus platónicos erros e a minha desapiedade visão de Aquiles e Odisseus) do seu próximo post sobre os olímpicos gregos.