quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Da Visão: Obrigado Obikwelu

1 - Obikwelu não é um português como os outros. Não o digo porque tenha nascido nigeriano. Nem porque só tenha chegado ao seu país de adopção com dezasseis anos já feitos. Não o digo (apenas) porque tenha passado muito mais dificuldades do que a maioria dos seus concidadãos: a emigração para um país distante, com uma língua incompreensível, de costumes estranhos; a miopia de um Benfica e de um Sporting que o rejeitaram quando dava os primeiros passos; a total ausência de apoios oficiais nos primeiros tempos; a dureza do trabalho nas obras; as noites passadas com as bancadas do Estádio do Restelo como único tecto. Não o afirmo sequer porque se tenha revelado senhor de uma contagiante simpatia, de uma perseverança sem par e de um sentido de responsabilidade pouco comum.
Obikwelu não é um português como os outros porque, ao contrário da maioria de nós, é português por opção. Obikwelu é português porque se afeiçoou a um país que, em boa verdade, fez muito pouco para o merecer. É português porque se sente agradecido a um país que se limitou a tratá-lo, antes dos seus dias de glória, com ligeiramente menos desprezo do que as autoridades nigerianas. E é português porque teve a fortuna de aqui encontrar exemplos de generosidade individual que, a bem dizer, existem felizmente em todos os cantos do Mundo.
Francis Obikwelu é, nesse sentido, muito mais português do que a maioria de nós. A sua cidadania é uma cidadania do desejo, da liberdade e da escolha. E como há meses escreveu Miguel Poiares Maduro (a quem devo a inspiração para este texto) num magnífico post, «a verdadeira e saudável identidade não existe no sangue nem se adquire onde se nasce: constrói-se, em relação com os outros através da adesão a uma comunidade. É uma identidade que não nos é dada nem oferecida mas que conquistamos. Só essa identidade é crítica e reflexiva e, como tal, positiva. Uma identidade que se abre e se define pela inclusividade e não pela exclusividade.»
Por tudo isto, porque é mais português do que nós, porque é mais responsável que a esmagadora maioria de nós, porque simboliza, muito melhor do que o país que escolheu para ser seu, os valores do trabalho, da persistência e da abnegação, Obikwelu não deve desculpas a ninguém. Na hora da derrota, como na hora da glória, é o país que continua a dever-lhe muito. Exemplos destes não medram exactamente por aí aos pontapés.
2 – E como um exemplo nunca vem só, o Expresso deste fim-de-semana dava conta da vida extraordinária de Demba Diabaye, um jovem senegalês que, entre setecentos outros alunos que cursam Estudos Portugueses na Universidade de Dakar, se apaixonou por Garrett e rumou a Lisboa para recolher informações para a tese de Mestrado. Como o dinheiro não abunda e ninguém se lembrou de apoiá-lo, sobrevive vendendo bugigangas nas praias da Caparica. Demba tem um sonho: «ser embaixador da língua portuguesa no Senegal». O país de Garrett é que, pelos vistos, não está disposto a contribuir para concretizá-lo.

4 comentários:

joão maurício disse...

Obrigado, Obikwelu.
Obrigado, Norton, pela sua mensagem de gratidão - sempre uma boa fonte de inspiração.

Wemans

Pedro Norton disse...

e já agora...obrigado João

Sofia Rocha disse...

Pedro, o Obikwelu não entranhou a portugalidade. Se o tivesse feito, não se sentiria responsável, e muito menos pediria desculpa.
Ser responsável é, entre nós, uma coisa muito estranha.

Táxi Pluvioso disse...

Obikwelu só existe porque a polícia de então não tinha os meios de agora para controlar os ilegais.