quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Confissão

Cheirava a cera, flores e incenso, a igreja que frequentava em miúda.
O confessionário ficava do lado esquerdo da porta principal. Desse tempo gostava sobretudo da leitura diária no mês de Maria que antecediam a reza do terço e que se fazia anunciar pelo bater dos sinos. Diferente de quando morria gente. Cultivava ainda uma paixão icónica, estética, pelas figuras de santinhos e santinhas que coleccionava com afinco e guardava no missal. Também os trocava quando era o caso de serem repetidos.

Não gostava da confissão. Não percebia o conceito, demasiado abstracto quando se tem oito anos. Para além de que educada a preservar a intimidade, a guardar pensamentos e ideias, não me agradava a ideia de partilhar os meus defeitos e pecadilhos com um estranho. Ainda que esse estranho fosse o pároco que me tinha dito que Sofia queria dizer sabedoria. Na minha presunção achei que o meu nome, afinal, me fazia justiça. Presunção e água benta cada um toma a que quer.

Na fila que se formava para a confissão, eu ía magicando pecados imaginários, três ou quatro. Qualquer coisa que, sob a admoestação do padre, me fizesse sentir culpada de verdade enquanto pensava no inconfessável e arrependida pelos meus actos, só um pouco de verdade misturada, para dar espessura.

Lembrei-me disto um outro dia. Não foi a primeira vez, parece que é tão costumeiro como a confissão da minha infãncia. Mesmo com 36 anos ainda acho demasiado abstracto o conceito.

Numa situação profissional formal, perguntam-me quais os meus três maiores defeitos.

Senhor Padre, disse palavrões, não obedeci à minha mãe, parti uma jarra e escondi-a debaixo do móvel, mando a minha irmã fazer as coisas que eu tenho medo de fazer.

Com que coragem é que podemos confessar que bebemos a água benta toda, mais a presunção que há nela, a pontos de pensarmos que somos melhores do que quem tem a ideia peregrina de nos fazer tal pergunta?

2 comentários:

Sofia Galvão disse...

Sofia, fez-me regressar às minhas confissões de infância, no colégio, às 5.ªas feiras porque no dia seguinte havia missa. Nessa altura, os pecados constituíam a única forma irrepreensível de faltar as aulas. Aliás, a espera, em bicha de caudal largo, garantia um tempo adicional de brincadeira, bónus muito bem vindo quando se supunha haver um direito natural a mais tempo de recreio. Depois, era o rol da praxe: mãe, irmã e jarras partidas, certamente, mas também mentiras e unhas roídas. Finalmente, o acto de contrição e a esperança recuperada da redenção. Tudo cumprido, com sorte, teríamos perdido mais de meia aula...

Gonçalo Pistacchini Moita disse...

Sofia (Rocha), ainda há pouco tempo, em Fátima, a "fábrica" dos confessionários ao lado da basílica me lembrava essa experiência escolar, que partilho com a Sofia (Galvão), em que, fosse verdade ou mentira, depois de um quarto de hora de espera, lá dizia ao senhor padre que tinha mentido, desobedecido aos meus pais e batido nos meus irmãos (normalmente era verdade). Quando por uma qualquer razão sentia em mim uma especial ansiedade ou arrependimento, lá acrescentava que não tinha feito os trabalhos de casa e/ou dito uns quantos palavrões (às vezes nem era verdade).
Do outro lado a coisa também não mudava: três avé-marias e um pai-nosso, que rezava mais ou menos demoradamente antes de voltar para a aula. O facto é que, ainda hoje, como dessa vez, em Fátima, olhava as luzes verdes e encarnadas, abrindo e fechando, junto às portas dos confessionários, coordenando o trânsito dos pecadores, sem acreditar muito em tudo aquilo. Imagino lá dentro um padre, o qual nem sequer olho nos olhos, mandando-me, mal pressinta que acabei, rezar umas quantas rezas e seguir o meu caminho. Tal como cheguei - sozinho!