segunda-feira, 14 de julho de 2008

Pentimento: "No Country for Old Men"

Só agora, na volta do correio e com meio ano de atraso (tenho um problemazinho com a pontualidade) é que vi o vencedor dos Óscares deste ano, "No Country for Old Men", dos senhores irmãos Coen. Um par de comentários:

- "No Country For Old Men" não é um filme, são três. O problema é que apenas um deles funciona.

a) o filme no osso, de repelões calculados ao milímetro, tenso como uma corda de cowboy, da fuga para a frente de um esperto desgraçado (Josh Brolin, a melhor interpretação do ano a oeste de Pecos) que encontra a oportunidade de uma vida na mala agarrada à mão morta de um mexicano 50 graus à sombra de um Texas sem poços de petróleo, cheerleaders e a ilusão do conforto. Esse filme é quase tão bom como o extraordinário "Charley Varrick" de Don Siegel (nem toda a gente pode ser Siegel, ou Walter Matthau), e é seguramente tão bom como "Bring Me the Head of Alfredo Garcia", de Sam Peckinpah. No luar venenoso, nos rios que aparecem do fundo da terra para nos salvar de um cão de morte, dos motéis insidiosos que abandonam um tipo à sua má sorte, do candeeiro que separa a fuga (e o México, e os sorrisos de uma mulher) dum tiro na cabeça, é do cinema mais excitante e digno das últimas - longas - temporadas.

b) O filme artificioso, demasiado brilhante para não ser tratado com uma minúcia febril às teclas do computador, de objectivos muito precisos (e tão indelevelmente conseguidos que se nota a perfeição da pintura, esquecendo-se a mensagem de Hawks, em que o mais simples é sempre o mais eficaz), a saber: vamos dar a estes gajos o melhor assassino que eles já viram. Quando a fita acabar, o Monsieur Verdoux é uma múmia, o Max von Sydow de "Os Três Dias do Condor" ajuda velhinhas a atravessar a rua e o Hannibal Lecter tirou um curso avançado de nutricionismo.
Javier Bardem, a pior interpretação do filme (porque a mais fácil), é demasiado perfeito nas suas imperfeições, os seus planos são demasiado antecipados, o seu diálogo é "demasiado escrito" para soar verdade (o facto de o filme seguir o essencial da estrutura, e muitas das réplicas, do livro de Cormac McCarthy não iliba o filme destes pecados).

c) o que nos leva ao terceiro filme: o requiem exausto de um xerife (Tommy Lee Jones, que, e concordando com David Thomson, andou uma dúzia de anos a meter dinheiro no banco mas acordou aos 60 para se tornar um dos grandes da sua geração), personagem de desvios infelizes e opções dúbias marcadas no rosto, um xerife que assiste, impotente, ao fim de uma época, a da cortesia, da argamassa familiar, da separação, mesmo que ténue, entre Bem e Mal e de uma compreensão ontológica do mundo. O problema é que a ontologia não é o forte dos Coen.
Quando chegam aos "big issues" (o sentido da vida, a inevitabilidade da morte, o casamento àspero entre acaso e Destino, minudências assim), os Coen fazem-no sempre através das pequenas coisas: o chapéu recorrente na floresta desencantada de "Miller's Crossing", os cigarros - e o belo fumo dos cigarros - em "The Man Who Wasn't There", os insectos na parede do mais obsessivo dos filmes obsessivos, "Barton Fink". Em "No Country for Old Men", entusiasmados pela caução infalível de McCarthy, os Coen seguem o percurso contrário, das grandes coisas (grandes temas, grande mensagem) para os pormenores, invertendo um "modus operandi" que lhes é infinatamente mais familiar, lançando-se pela primeira vez na prosa filosófica - enxuta, breve, muito texana, mas ainda assim prosa filosófica - sobre a América que se afunda, a herança macabra de um país construído - como lembrava Norman Mailer - pelo sangue e pela força das armas, a presumível vanguarda de uma civilização que chega a um beco sem saída (tanto quanto é possível encontrar, plagiando Margarida Rebelo Pinto, um beco sem saída no meio do deserto).

É essa deliberada gravidade ontológica e filosófica que trai o filme, como se as conclusões que as imagens, e as acções desesperadas (no caso de Josh Brolin), desencantadas (no caso de TommyLee Jones) ou terrivelmente niilistas (no caso de Bardem) que as personagens levam a cabo não fossem suficientes, por si, para fazer passar a mensagem: este país - e este mundo - não é para velhos.

A maioria dos críticos norte-americanos, sedenta de auto-estima artística, considerou "No Country for Old Men" um regresso ao grande cinema dos EUA dos anos 70. É um exemplo típico de "wishful thinking". Aconselha-se o visionamento urgente de "The Gambler", de Karel Reisz - Reisz era um estrangeiro que captou a "gravitas" yankee como ninguém.
Pois é: o primeiro filme dentro de "No Country for Old Men" é uma obra-prima. Os outros dois não.

3 comentários:

Sofia Rocha disse...

Pedro, eu tenho um problema porque gosto de filmes e o Pedro é um profissional do ramo, pelo que sinto a tremenda desvantagem. Ainda assim, cá vai. Esta decomposição lembra-me o que (alguns)homens fazem a (algumas) mulheres. Inteligência: bolinha preta. Cara: três estrelas. Corpo:cinco estrelas. E lá temos nós um destrambelhado filme gore alcandorado ao primado de um Sergei Eisenstein. Podemos sempre dizer, a rapariga é burra, mas eu gosto tanto dela.
É que não há grandiosidade maior do que amarmos a imperfeição conscientes dela.

Pedro Marta Santos disse...

Obrigado pelo seu comentário, Sofia. Mas nunca me atreveria a dar estrelas às mulheres - prefiro sempre comparar as mulheres às estrelas.
O que me incomoda no filme é o seu (sofisticado, porque aparentemente simples) pretensiosismo. Ou pegando nas suas palavras: a rapariga dos Coen é espertíssima, mas eu gosto mais dela nos momentos em que não está a repetir sem cessar "olhem como eu sou inteligente, olhem como eu sou inteligente...".
E, acredite, a desvantagem é minha. Não há nada pior do que estar a olhar para um filme enquanto se pensa em pontos de viragem na progressão dramática...
Agradeço-lhe por me prestar atenção.

Sofia Rocha disse...

Presto sempre. Não reparou que respondi à chamada dos sinos e desfilei as contas do meu rosário de filmes de pecado?